Urubu Cultural

Urubu Cultural

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Tragédia à porta de casa

Preparava-me eu, para abandonar o meu apartamento, modernamente mobilado, quando recordei que não levava comigo, as bem amadas cigarrilhas cubanas, que gosto de fumar. Olvidando-me da porta aberta, procurei na sala-de-estar, a caixa onde conservo as afamadas. No interior desta, tinha para aí umas dez ou sete caixas de Cohiba, todas com uma singela cigarrilha apenas, embrulhada em um pedaço de papel pardo, até estavam duas metades fumadas de cigarrilha.
Enquanto acondicionava as cigarrilhas, devidamente na cigarreira, entrou-me em casa o João Velhinho, e começou a escreve, com canetas verde e vermelha, nos meus documentos do Estado Novo. Estupefacto, sentei-me à mesa da sala, e ali fiquei, impotente ante a catástrofe. O João Velhinho continuava, incessantemente, a laborar, entre palavras untuosas, ia-me explicando que, os documentos assim é que estavam correctos. Na esfera armilar que encimava os documentos, desenhou ele uma enorme roseta.

Taxismo metafísico

Um dia, estava um taxista de Aljezur, que se chamava Anaximandro Ramalho, à espera de clientela, de trabalho... Senão quando, lhe surge um freguês todo aperaltado: de gravata e fato, com sapatos de verniz:
- Senhor Ramalho? – inquiriu o estrangeiro, alcançando já, o manípulo da porta do táxi.
Já no interior do mesmo, o senhor Anaximandro fitou o passageiro pelo espelho retrovisor, que retro vê, portanto, como que o interrogando acerca do destino. Este estava a remexer na papelada, que trazia em uma mala, e só depois reparou:
- Senhor Ramalho, vamos para o caralho... – pediu o passageiro, erguendo em um repente a cabeça, e logo de seguida mergulhando na papelada:
- Levo-o até ao caralho, mas não fico lá.

Tarefa doméstica

Acabado de acordar, deambulo de truces pelo corredor de minha casa. Passando por uma janela da mesma, com vista para a marquise da vizinha, reparei que o seu filho a ajudava a estender a roupa, de um modo muito sui generis: com os pés apoiados em um pequeno beiral, que a parede tem, este recebia a roupa que a mãe lhe passava para estender. Estavam ambos muito divertidos, com aquela situação, gargalhando por vezes, em alto e bom som, que nem repararam que o vizinho do terceiro andar direito, os observava, estupefacto.

Sonhos

Era uma vez um cão que era um sonho. Bebia aguardente como quem sente, será chuva quente ou será aguardente. Mijo no penico que está na sala, e que o cão bebe da minha mão suada e pegajosa, nasce o verso fácil, demasiado fácil, enquanto estalo um dedo do pé. Porém com pouca fé, pois sei que hoje ou ontem, a morte espera-me de pé, que é assim que morrem as árvores; até os mais humildes e/ou renitentes (estou seguro de que, definitivamente, uma coisa não implica a outra) morrem de pé. Vejamos o caso de um pessegueiro, é uma árvore mui nobre; quem não gosta de pêssegos? Há-os molares ou durázios, ou ainda, como comummente são chamados: “pêssegos de roer”. Não te esqueças dos carecas, aponta-me a razão esta falha, ou esquecimento grave. Eis que surge a oportunidade para o trocadilho fácil, a que a pena não se nega; como esquecer os carecas, se estes estão por toda a parte?
«Ria-se menina.», senão conto outra, tão ou mais bera que esta. Estou com formigas nos olhos, é terrível matar esta bicharada, nem com pós DDT, isto lá vai (não há nada que um bocadinho de água-raz, ou ácido muriático, não resolvam).
De quando em vez, faz-me falta assim uma maratona destas, correr sem descanso, pelo horizonte branco do caderno branco, deixar a minha marca indelével na folha, que tão bem pode ser queimada. A minha mão parece o Carlos Lopes, não para nem em rotundas, nem em stops. É tão elegante, a forma como a minha mão desenha palavra após palavra, nestas matas de lã. Trigo candial, farinha do.As gaivotas longínquas (que na verdade, estão aqui tão perto, embora inacessíveis) parecem gatos a miar, com o janeiro; filhos-da-puta, fazem um cagaçal, que não deixam um gajo dormir. Estou em frente duma terrina da Vista Triste, que está recheada de patê de gato, patê de gato, que deve ser acompanhado com vinho tinto, senão não tem graça alguma, agora cá patê de gato, sem vinho tinto?! Invejo as gajas que têm comichão na cona, como comem elas tão bem o patê de gato sem vinho, pá!!! Até mete impressão, outro diria, outrossim, que metem cobiça, pá??? Que sina a minha, de não saber desenhar pontos de interrogação correctamente, parecem dois com um ponto em baixo, é castigo divino, de certeza, que numa vida passada, comi patê de gato sem vinho.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Un Chien Farense

Era uma vez um cão, durante o período Ibn-Harun: um cão de caça árabe, com malhas castanhas e de pêlo muito sedoso. O seu dono, Abu Othman Said Ibn Harun, tinha-lhe ensinado um repertório falado, a uma voz de comando, o cão árabe foi baptizado com o nome: Faruk.
Faruk sabia debitar o seu esquema oral, como nenhum outro alguma vez tal, o havia feito; entre as palavras que latia: alguidar era a que se mais ouvia. Abu Othman Said Ibn Harun, era também um grande caçador, tendo ordenado que Faruk, nessas lides fosse amestrado. Por todo o ocidente, foi espalhada a palavra, Faruk necessitava de dotado professor; até que em uma manhã de inverno, se apresentou um senhor. Provinha o velho de Halq Az-Zawiya, onde era sobrinho de uma tia, há muito esquecida (pelas hostes engalanadas).
Em a ria de Ibn-Harun, onde a caça era mais que muita, Saddam Ibn-Batuta, tal era o nome do técnico canino, ensinou o seu educando a ir buscar peças, enquanto o diabo faz o pino; dizia assim ele:
- Faruk, vai apanhar o pato!
E o bom do cachorro atirava-se às águas da ria. Isto durou muito tempo, até ao dia em que Saddam Ibn-Batuta, considerou o seu instruendo apto para servir seu patrão.
Em o grande dia da estreia, Abu Othman Said Ibn Harun, com todo o seu séquito cinegético, decidiu verificar com os próprios olhos (que a terra haveria de, eventualmente, acabar por comer), se o seu dinheiro tinha sido bem empregue; após colóquio breve com Saddam Ibn-Batuta, e só depois de este lhe ter transmitido as palavras que accionariam Faruk, o soberano ordenou:
- Faruk, vai apanhar o pato!
E este foi, em um grande estrépito aquático, por entre juncos e ramagens diversas, ver o que encontrava. Retornou com, em lugar de um pato, uma galinhola na boca; e em boa hora o fez, visto o seu dono, Abu Othman Said Ibn Harun, preferir caldeirada desta última, ao invés de arroz do primeiro, que por vezes, se torna seco em demasia.
Satisfeito com o animal, e não menos com o mestre, o almoxarife ofereceu prontamente ao segundo, a sua terceira filha em casamento. Saddam Ibn-Batuta, que pelos vistos era celibatário, passou toda a noite em claro, de nervos franjados, com o pensamento fixo em uma só ideia: «Oxalá a gaja seja boa.». Por a manhã, devidamente aperaltado, compareceu com uma pequena oferenda, nos aposentos da princesa Maria de Fátima; o seu desapontamento não podia ter sido maior, pois a principal: detendo dois dentes podres à frente, tinha a cabeça repleta de lêndeas, qual alvas flores de amendoeira. Impossibilitado de contrariar de todo o sogro, que ainda havia de ser, lá fez o frete de se casar com Maria de Fátima.
Entretanto, Faruk tinha dizimado a população de aves aquáticas da ria, bem como aprendido novos vocábulos: almofariz, almocreve, alcatruz, alfarroba, e mais uma quantidade apreciável, de outro palavreado.
Um belo dia, chegaram os cristãos, com Dom Afonso Henriques à cabeça, e acabou-se a festa.

Sem título

Elvira é bonita como a fralda de uma camisa, estendida na fonte de Pisa. O poeta, não é um esteta, é um atleta… Come sem parar, a voar nas orelhas do profeta; é o atleta da maratona que transpira suavidade, por todos os poros do seu corpo feminino.
É angelical, a sua metafísica extra-temporal, que me teleguia por entre as paredes fundas, do socialismo prático. «Basta!». Exclamo gazeado, isto é do sueste, oiço exclamar, olho de soslaio, e desmaio, nesse preciso instante.
Não é comummente que desmaio assim, mas por mim, acho que é bom desmaiar, sem parar, a voar. E se não estiver ninguém em casa, toca-se à campainha e deixa-se o recado, à criada, que não lava a cona, e é tantã, pela manhã. E pela madrugada adentro, estendem-se as especulações do poeta anónimo e solidário, porém solitário, poeta de aviário. Que cenário!
Mas que digo eu?! Cenário não ainda, mas bestiário, ao invés! Espere pela sua vez, diz-me o bichinho pequenino ao ouvido:
- Tal como os outros, tem que tirar uma senha de atendimento, e não adianta franzir o cenho, porque já o conheço, o senhor é muito conhecido por estas bandas, e é conhecido pelas piores razões, ou seja, por se infiltrar nas bichas.
Coro de vergonha e desmaio, sem aio que me valha, ou se me visse, que me abrigasse, que é essa a função dos aios, abrigar seus amos.
Amo a princesa Stéphanie do Mónaco, amava também sua mãe, a glamorosa Grace Kelly, que em tão fatídico e fastidioso desastre, perdeu a vida; como já a cantilena de Graciano Saga adverte, porém, põe em cheque de que é seguro andar na auto-estrada, com tanto carro lá, se nos metermos no meio, ainda que permeio, corremos o risco de ser gravemente atropelados, desvirtuados e vituperados, nos feriados remunerados.
Junta alcoólica das estradas, foi a este organismo que apresentei queixa, por escrito. Queixo por queixo, dente por dente, já reza assim o velho adágio popular, porém, sem muito que por cá se faça. Importa ainda lembrar os militares, que tombaram em La Lys, e que a junta alcoólica, pura e simplesmente ignorou, desprezou, não quis saber.
Era noite, e ouvia-se fado nas trincheiras, bem como algumas caganeiras, que a comida era muito má, davam bolachas a homens de pedra e cal, criados a papo-seco, ao murro, ao soco e a pontapé. É assim que se educa um português, ou dois, ou três. Quem educa um português, educa dois ou três, já dizia o António Variações. Variada era também a sua dieta, que consistia em: carne, peixe e legumes, muito equilibrada, portanto. Mário Cesariny, também tinha uma dieta equilibrada, é vê-lo ainda a rabear, todo contente, com o prémio do presidente da república.
Publica! Publica! Dizia o redactor do meu jornal, ante esta maravilhosa notícia. Falo do que conheço, limitei-me a dizer.
Chorou baba e ranho, o raio do homem, teve que se chamar a ambulância e levá-lo de caixão à cova, que não aguentou a sova que levou da mulher, quando esta soube que ele tinha amantes. Levou uma sova no sofá, a mulher partiu-lhe os dentes, nem pelo registo dentário o conseguiram identificar. Estiveram para lá, a ver umas fotocópias e umas radiografias e, mesmo assim, nada.
No funeral, fui escalado para contar chalaças, para aligeirar o ambiente pesado, que se fazia sentir. Chegou a polícia, parecia icterícia, era vê-los a debandar, pareciam moscas em volta dum cagalhão muito grande. Vá bastonada!, pedes-me pérolas, dou-te porcos:
Parabéns a você,
nesta data querida,
hoje é dia de festa,
cantam as nossas almas,
para o menino Zé Carlos,
uma salva de palmas.
Mas contudo, não foi de todo o menino Zé Carlos, a soprar as velas do bolo. Foi a viúva da mesa ao lado: «Puta da velha.», pensou o menino Zé Carlos.
Ficou tão lixado com a velha, que não descansou enquanto não lhe fez a folha, com um osso na boca, de pele de búfalo, daqueles que se dão aos grand-danois para roerem, combatem o tártaro e as cáries. Isto a longo prazo, revela-se um mau investimento, pois os cães da referida raça, vivem em média, menos nove anos que outros, de outra qualquer.
Ainda assim, o menino Zé Carlos, não olvidou a puta da velha, que lhe tinha soprado as velas do bolo e, quando esta não desconfiava de nada, subtraiu-lhe a placa dentária e escarrou-lhe na sopa de vegetais, bem cozidos. A velha comeu mesmo assim, nem desconfiou de nada, se calhar, nesse dia, até a sopa lhe soube melhor do que nunca.
Porém, certo dia, começou-lhe a espirrar sangue dos olhos, talvez devido ao escarro do menino Zé Carlos, e foi à bruxa ou à Santa da Ladeira, não me recordo agora, para ver se esta lhe curava o mal.
A bruxa, ou a Santa da Ladeira, como já disse não saber precisar com exactidão, qual das duas foi, disse assim:
- Vizinha, passe-me um cheque de cinquenta contos, que isso passa-lhe.
A pobre viúva assim fez, e passou a viver na penúria. Sem mais recurso, teve que se dedicar à prostituição. Velha, sem placa, e com os seios descaídos, bem como engelhados, ninguém lhe pagava. O grosso da clientela, mesmo com sacrifício, preferia pagar a uma puta mais jovem e atraente, que dar uma bagatela à velha viúva.
(Quem não ficava nada satisfeito com isto, eram as esposas dos clientes, pois sabiam que os maridos, gastavam muito com as putas.)
Foi então que começaram todas a voar, e a formar cortejos nupciais, com máscaras de morte. Foi então que surgiu em cena, o padre Fontes, fundador ecuménico, do movimento das mães de Bragança. Quanto ao menino Zé Carlos, deixou Paris, e desenvolveu um estigma sexual misógino, dançando só, por um punhado de moedas, cunhadas à pressa num vão de escada qualquer. Nunca aprendeu pintura a óleo, que era o seu sonho de menino, fumava, ao invés, cigarros Definitivos, que comprava na tasca da esquina. Namorava com uma rapariga de boas famílias, que se chamava Ténia dos Santos Boémia, tenente de uma larga soma de fundos monetários, em vários bancos da capital australiana, e chorava quando ouvia bebés de colo. Os mais eminentes psicanalistas, julgavam tratar-se de uma grave complicação psico-somática, proveniente da Somália, onde os pretos são magros, e comem restos como os cães.

Sem título

Arrastando-me por este templo pesaroso, que é a vida quotidiana, com os pés quotidianamente submersos em lodaçal pantanoso, sou a hiena putrefacta, que se absteve de tudo. Sou o Messias da desgraça, sou o cavaleiro, que transporta a peste consigo. Espalho a morte e a doença, não sou mais que um miasma, um fogo-fátuo, que é prontamente absorvido, pela atmosfera conspurcada dos cemitérios.
Sou o pai que viola a sua filha, sou o paradigma da desgraça, ténia maldita que, envolta em dejectos, parasita titanicamente o seu hospedeiro. Não conheço a piedade, ou a clemência. Não sou deus. Não sou.
É com uma gargalhada gutural, que sufoco recém-nascidos, num balde de água-raz. As minhas unhas negras, estão tão manchadas de sangue, como as espadas de mil exércitos Vândalos.
Exércitos do Apocalipse, que marcham incessantemente nos seus uniformes, purpúreos como o interior de uma ostra. O cancro da Humanidade, uma lepra demoníaca, que me desfaz lentamente, na madrugada gélida duma aurora de inverno glaciar.
A estátua de mármore ergue-se, herética, sem braços, ante a morte que se avizinha. Um urro no universo de uma outra dimensão paralela, a dialéctica ineficaz dos sofistas, falácia fatal, ilusão pré-programada para a desgraça. É isto um poeta da discórdia…, uma cartilha maternal em desalinho. A professora primária que espanca um aluno sardónico, a Morte que lhe insufla as veias de prazer, que o faz não temer, mas que por outro lado, lhe dá a conhecer tudo o que a matemática e a poesia da esfera celeste, que sem querer procria incessantemente no ventre de uma mula sem cabeça, sem pedir desculpa.
Um náufrago aleijado, cujo pai lhe comeu os braços tépidos e musculados, uma vagina em flor, que expele esperma inócuo, sem parar. Sou a razão pura, sou a razão analítica e sou a metafísica dos costumes. A origem de todos os males não está aqui, procura-a sem cessar, sou um soldado alemão, a quem lhe foram amputadas as pernas, mas que metralha sem parar.
Por mais desgraçado que me torne, há sempre um nó que me tolhe a garganta, um bastão que espanca sem parar. Não tenho mais tempo para esperar. A vida, suga-nos num turbilhão de piranhas sedentas de sangue, onde a razão não impera de todo; a razão, essa fera que nos devora por dentro. Sou o ostracizado da nação, sozinho nas descrenças e nas discórdias de espírito, que uma rapariga sem braços, núbil, pode representar.
A carcaça torpe e disforme afigura-se, segura, na praia dos meus desejos, manifestos ansejos de um sonho de verão, interrompido pelo clamoroso trovão, que é a origem de todas as sociedades ocidentais.
Sou o herói que corre, eloquente, na vanguarda de um exército de moribundos, sou o primeiro a receber a bala, que me dilacera a maçã-de-adão, sou o guerreiro das sarjetas, sou o cavalo de batalha da nobreza decadente, que destila ódio por todos os poros, cego de dor, guerreio sem mágoa, sem trégua, os meus companheiros caiem como árvores abatidas, no campo de batalha, o relinchar dos cavalos mutilados é por demais ensurdecedor, é um clamor que me impossibilita a acção voluntária. A desolação que o combate traz ao espírito e aos olhos de um guerreiro, é indizível. São pedaços de Humanidade, espalhados por todos os campos, e hortas, e pomares, da região. Não matam o porta-estandarte, por uma questão de tradição. Vejo homens que cavam a sua própria sepultura, com mão nuas, que renegam o progresso da indústria do século vinte. Acordo, sozinho no cemitério, todos os meus companheiros estão mortos, os cavalos ainda relincham, mais eis que se ergue o sol, e o meu rosto, negro de sangue coagulado, se ilumina subitamente, cálida carícia de uma virgem.