Urubu Cultural

Urubu Cultural
Mostrar mensagens com a etiqueta Quotidiano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Quotidiano. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Conto de Cristal



Joana Fúchsia disparava confortavelmente para o ar, a sua pistola walther preta no jardim, em séries de três tiros por minuto. A mobília de jardim era de ferro fundido pintado de branco, em estilo rococó, um tudo ou nada kitsch. Enquanto isso, o chá de erva-cidreira amornecia no bule de casquinha japonesa, colocado à sua frente; Joana adorava tomar chá e disparar. Por cima da sua cabeça, o guarda-sol vermelho, fimbriado a branco, já estava muito roto, furado por estes, e anteriores projécteis, detonados nas costumeiras sessões hebdomadárias de tiro.
A mesa de jardim encontrava-se no meio de um grande relvado, cuidado e devidamente aparado, cercado por uma fileira de choupos centenários; atrás de Joana Fúchsia, erigia-se um enorme palacete novecentista branco, onde residia havia uma década plena de felicidade (porque disparava para o ar, todos as tardes de sábado).
De quando em vez, frequentava o palacete, Cândido Tellado, um velho papua, tertuliano inveterado e vertebrado, que como meio de subsistência, compunha folhetins de cordel. Nesse sábado decidiu visitar mais uma vez Joana Fúchsia, e enquanto atravessava a extensão de relva que separava as traseiras do palacete, do sítio onde a mulher disparava, ouviu gatos a miar muito alto, pelos telhados do velho palacete: «Estão com o janeiro.» - disse para com os seus botões de madrepérola.
Já a par da anfitriã, saudou-a cortezmente com uma ligeira vénia, que foi correspondida com uma salva de tiros para o ar, acto contínuo, fez sinal com a mão livre a Cândido, para que se sentasse e tomasse uma chávena de chá de erva-cidreira, em sua companhia. Após degustar um pouco de chá, de mais uma descarga de tiros, e enquanto Joana Fúchsia trocava o carregador vazio da pistola, por um cheio, Cândido interrogou:
- Os gatos fazem tanto barulho..., não seria mais prudente alvejá-los na cabeça?
Ante esta observação, o semblante de regozijo da mulher turbou-se de imediato, como a negra nuvem solitária, vagante pelo céu, que tapou a luz do sol, antes penetrante pelos buracos do guarda-sol:
- A sorte dos gatos, senhor Cândido, é que eu não dou ouvidos a filhos de pai incógnito...
Face a este retruque, o convidado encetou um murmurado salve-rainha:
Salve Rainha, Mãe de Misericórdia,
vida, doçura e esperança nossa, Salve!
a Vós bradamos, os degredados filhos de Eva,
a Vós suspiramos, gemendo e chorando
neste Vale de Lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses Vossos olhos misericordiosos,
a nós volvei!
E depois desse desterro,
mostrai-nos Jesus, bendito fruto do Vosso Ventre:
Ó Clemente,
Ó Piedosa,
Ó Doce Sempre Virgem Maria.
Rogai por nós Santa Mãe de Deus,
para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém.
Terminada a oração, benzeu-se três vezes e tomou mais um gole de chá de erva-cidreira; Cândido Tellado, conhecendo Joana Fúchsia como conhecia, achou por bem não tornar ao diálogo, até que sua amiga não descarregasse pelo menos um carregador de munições. Sabia de antemão que, se sua amiga não libertasse a ira provocada pelo seu comentário acerca de alvejar os gatos, corria o sério risco de se tornar novamente alvo da sua indiscrição e fúria.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Profetisa Maria Elisa

 Hoje, no regresso a casa, pelas ruas indistintamente anoitecidas da cidade natal, ia caminhando com vagar, enquanto comia um prazenteiro pão-com-torresmos, comprado na mercearia do Zé Charrinho. Depois do cemitério, depois do moinho, depois de descer as escadas perto do meu bloco de apartamentos, reparei que subia a rua uma idosa. Observei a velha senhora, como atentaria na banalidade doutro qualquer transeunte, que não demonstrasse sinais evidentes de agressividade. Ao nos cruzarmos, a anciã cumprimentou-me e, ao mesmo tempo que me estendia uma pequena brochura, confidenciou-me que o fim de todo o sofrimento estava para breve; recusando polidamente a referida brochura, acto contínuo, segui o meu destino, não sem ser assaltado por um terrível calafrio na espinha.
         O que saberia esta velha para me fazer tal revelação? Fui eu o único a quem declarou o seu segredo? Ignoro-o, assim como a mulher ignora a perigosidade da sua novidade.
         O desconforto instantâneo que senti ao escutar as palavras da profetisa, não foi de todo causado pelo conteúdo da mensagem, mas a ser esta verdadeira, pelas terríveis consequências que acarretará. Terminado o sofrimento, é arrancada a máscara metafísica da vida.
         A vida, dentro dos trâmites que atrás a classifica, bem como outros conceitos, a saber: o Nada, o Infinito, a Beleza, o Amor e Deus, estes só a título de exemplo, carecem de uma máscara, confeccionada e convencionada pelos Homens, para que possam ser minimamente perceptíveis. Permitem-nos navegar à bolina pelos oceanos, sem contudo chegarmos alguma vez a tomar o conhecimento real da sua profundidade.
         A máscara do Nada é a que cai com mais facilidade, de aí surgir este primeiramente enumerado, é a ausência de matéria, porém, ao fazer tal afirmação estou como que a lhe conferir uma espécie de existência, é impossível definir o Nada, como sendo seja o que for, mesmo que este não seja nada, assim falava Zenão de Eléia.
         O disfarce do Infinito é um pouco mais ornamentado, isto é, todos nós somos capazes de conceber o início de algo, até de enunciar que esse algo supostamente não terá fim, contudo ninguém consegue exemplificar tangencialmente a infinitude. Talvez só mesmo Sísifo o compreenda.
         A maquilhagem da Beleza é pintada com as cores de tudo o que é, de alguma forma, agradável aos sentidos. Ponhamos um espectador frente a um quadro onde se conjugue determinada combinação de cores, partamos do princípio que o espectador aprecia bastante o quadro, de seguida coloquemos no mesmo sítio um espectador daltónico, com certeza não vai perceber o quadro da mesma forma que o primeiro espectador; e este exemplo é já extremo, visto o desacordo sobre a Beleza de determinada coisa, poder surgir entre dois indivíduos perfeitamente capazes, de distinguir as cores normalmente. A Beleza é um conceito de tal maneira bizarro, que a espécie humana prescinde do seu bem-estar fisiológico e mental, para supostamente a conseguir, mormente quando se trata da fêmea da espécie supra citada: podem ser apontados, dois ínfimos exemplos, no vasto rol das torturas a que as mulheres se submeteram e submetem: o enfaixamento dos pés das raparigas chinesas no passado e, actualmente, a veneração que é prestada aos esqueletos esquizofrénicos ambulantes das passarelas. Situação de tal maneira paradoxal, que as mulheres com verdadeiras características feminis, se julgam na obrigação de imitar pessoas doentes, para que sejam consideradas belas. Assim pereceram as mais belas jovens da minha geração.
         O Amor tem três mascarilhas, uma só física, que consiste na fricção dos dois órgãos sexuais tumefactos, individualmente ou em conjunto, uma só espiritual ou platónica, por exemplo, o caso das freiras católicas apostólicas romanas, que se casam com Jesus Cristo, e uma terceira, que é a síntese das duas anteriores. Cabe a cada um desmascarar o Amor à sua maneira.
         Deus apresenta a máscara mais ornamentada e mais disputada, de entre todas as que já referi: a de um ser superior. A melhor forma de ilustrar a ideia de Deus, conceito para mim totalmente ininteligível, é a de o comparar a um ideograma oriental, se um chinês mo desenhar, e disser que aquele conjunto de linhas significa seja o que for, eu não o posso afirmar nem negar, pois não compreendo a forma como é construído, apesar disso, como tudo o que é, deve obedecer a determinados preceitos matemáticos, posso estudá-los e aferir a sinceridade do chinês ou não. Deus só poderá ser negado ou afirmado, quando se-lhe conhecer a fórmula matemática.
         Mas já basta de filosofia de pacotilha, voltemos antes à profecia de Maria Elisa. Se tudo correr como a idosa prevê, o fim do sofrimento trará consigo o fim da felicidade, pois que sem a sua antítese, esta se tornará irreconhecível. Se nunca mais nos sentirmos infelizes, como vamos saber que estamos felizes? É recorrendo à dialéctica hegeliana que se poderá obter a máscara metafísica da vida; admitindo que a felicidade é a tese, e o sofrimento ou infelicidade, a antítese, a síntese será a dimensão metafísica da vida. Trocando por miúdos, se não juntássemos o preto com o branco, nunca conheceríamos o cinzento.       

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sermão de São Tomé aos peixes

«- Os peixes não conseguem jogar snooker porque: não têm pernas e/ou braços, polegares oponíveis, sequer mãos, pulmões, os olhos emparelhados e, porque a sua memória é inferior a cinco segundos. Visto isto, é melhor ser um polvo.»   

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Gacto, uma quase simbiose


 A cerimónia da crase, faz com que, uma palavra se case (com outra, evidentemente). Inventei uma palavra, e esta história da crase, que não estava planeada, isto é, o facto de vir a ser mencionada neste conto, surgiu-me no outro dia, por mero acaso.
         A palavra é: gacto, resultante da junção dos substantivos masculinos singulares: gato e cacto (o meu gato e os meus cactos são simbióticos. Pelos menos os meus são! Os vossos não sei...).
         O meu gato não partilha apenas a homofonia do nome comum da sua espécie com os cactos, partilha isso e muito mais, aliás, a semelhança entre os nomes é, provavelmente, a menor.
         Os meus cactos picam, o meu gato também, tenho um cacto com pêlos brancos, tal como o animal. Os meus cactos não miam, mas o meu gato mia, e-xa-ge-ra-da-men-te alto. Os meus cactos nunca tiveram lombrigas, o meu gato já. Ambos apreciam matérias granulosas, os vegetais, de terra para viver; o felídeo para fazer as necessidades fisiológicas. O meu gato nunca padeceu com cochonilhas, o meu cacto-rosa já, situação que prontamente remediei com borras-de-café e tabaco. Assim como, certamente, envenenaria os meus cactos com o desparasitante intestinal do felino, também este não simpatiza com as borras nem com o tabaco.
         O meu gato gosta de morder  nos bicos de alguns cactos, noutros gosta de se esfregar, com o fito de se desenvencilhar dos pêlos mortos do seu manto tricolor e, nalguns, coça os queixos. Interrogo-me que benificios granjeará ao morder nos bicos dos cactos; será uma forma de me demonstrar o seu interesse pelos mesmos?
         E aproveitando o facto de estar a lidar com matéria espinhosa, deixo uma mensagem aos detractores do blogue, em que este conto se insere; nem que venham de tractor, impedirão o Urubu de sobrevoar as carcaças mortas da literatura. Conspiradores das sombras, previno-os desde já, que nem eu, nem o meu compincha, que apesar de diminuta estatura, é um gajo altamente, jamais pousaremos nossas oníricas penas, porque o que aqui se publica, são as nossas merdas, coisas que saiem de dentro de nós, e quem não gostar, que se foda.  
         

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Suicida Imortal


Estava de tal maneira enfadado com a sua existenciazinha mísera e parola que não via nada à frente dos olhos. Uma espessa cortina de um fumo obscuro moldava-lhe a visão, encurralava-o em cadeias de betão. Passava horas palpitante, ansioso e ansiando; em busca de uma certa ideia de paz reconfortante que aquietasse o coração. Sentia arrepios, ideias de espasmos enfurecidos que coçavam nas costas, como unhas gigantes e irrequietas que acariciavam o mais ínfimo da mente. Seus dias eram passados acompanhado do nada, um amigo de anos que já não lhe trazia tanto prazer ao desfrutar de sua companhia como outrora. Em silêncio desfrutava de horas sentado a uma cadeira de um qualquer escritório como tantos outros, colado a uma berma de uma estrada de calçada por onde outrora e em tempos distantes passavam inúmeros transeuntes e igualmente carros. Nesses tempos idos, a rua era movimentada, azáfama, conversas e vozes, olhares que passeavam, corpos deambulantes. E ali ficava, só, diante de material de escritório; jogava com o intelecto, uma luta voraz entre a racionalidade pragmática e a subserviência imbecil. Certo é que a subserviência sempre vence. Por vezes fugia para ideias fantasiosas de algum futuro de interesse, o retorno à realidade era a mais vil actualidade. O quotidiano enfurecia-o, as actividades automatizadas, atender telefones, enviar faxes, imprimir documentos; esta nefasta ideia de agradabilidade e gratidão... Lutava entre uma ideia de rectidão e atitude correcta e um desejo queimante de algo mais. Eram semanas em que vivia por entre o veneno vociferante, praguejava entre dentes, amaldiçoava a vida, suspirava, como se o sôfrego sopro da insuportabilidade em tolerar o afastasse do mar de Nada e de completa idiotice despropositada onde vivia encharcado. Todos os dias apanhava chuva. Uma violenta trovoada acompanhada de relâmpagos, de água escura, como um óleo putrefacto. Tinha as carnes sensíveis, diria até fracas e adoentadas; a água entranhava no corpo, espalhando uma bactéria virulenta que alastrava por todo o seu ser; pior que se alojava na cabeça, sem solicitar a devida permissão invadia o intelecto de tal forma que varria tudo que por lá estava. O sossego era uma mentira, o conforto um deboche de absurdo quilate. O corpo desanimava, a mente vazia, no entanto não tenhamos ilusões, era um vazio que pesava. Como um cadáver respirante, tudo questionava, o pensamento estava desorganizado, estava só... O sentimento de solidão é comum a todos, mas neste caso específico era diferente; algo que afecta maiorias, poucos a constatam com certezas. A cidade era composta por duas ruas, nem mais nem menos... cimentada de calçada e calor que não cessava. Acompanhavam-no pessoas de cartão, feitas de carne e osso, de sangue e artérias, mas que não eram mais que humanos cartolina. Vivia-se um clima de acefalia, retrógrados e preconceituosos, com suas ideias e sofismas concebidos e enraizados, impossíveis de vergar. Respiravam para o stress, o nervosismo a confusão, a pressa, o vício e ansiedade... Andavam com o coração por entre os dentes, oito horas diárias, quarenta horas semanais; só haviam duas propostas: ou o stress ou o ócio; fascínio e interesse nem pensar. Não havia um propósito, uma justificação que o fizesse pulsar; era uma espécie de sonolento que se arrastava entre um ponto e o seguinte. E assim tinha que ser, nem sequer havia uma plausibilidade ou um motivo táctil, era como algo que sempre se soube e tomou como certo e assim permaneceria. Era um fraco, cobarde, incapaz de reagir e combater adversidades, um morto vivo social que era levado pelas correntes. Certo dia nublado, de céu amargurado, sentado diante de uma mesa a proceder a uma qualquer actividade inútil e de importância inexistente, ponderou cautelosamente pôr cobro a aquilo que considerava uma gigantesca perda de tempo. Ponderou sim, terminar com sua própria vida. Fosse este homem dotado de algum espírito de auto crítica ou da mais elementar percepção dos mecanismos que compõem a própria existência humana, teria constatado que o tédio, as rotinas quotidianas da mesmice são condição indissociável do que genuinamente significa viver. No entanto estava decidido, conceito algum poder-lhe-ia vergar a sua firme vontade em se auto extinguir. Numa tarde idêntica a tantas outras dezenas, centenas e milhares… após conclusão das tarefas às quais tinha que se dedicar por uma mera questão de sobrevivência, pegou num lápis, instrumento mor das actividades de escritório, e com este furou a sua própria jugular. Da mesma jorrou um espesso e intenso jacto de sangue, como um adorável riacho… Ainda aguardou alguns minutos, uns quinze ou vinte, talvez. Sentado à mesa… nada sucedeu. Sobrevivera. A ferida continuava, é certo, o sangue navegava inquieto pelo seu pescoço abaixo, repousando na fina camisa branca e de impecável trato. Estava manchada com um padrão bourdeux que muito lhe favorecia o aspecto banal. Não estava morto, tinha certeza… no entanto o tédio ali estava, abraçava-o como uma amante carinhosa e possessiva, daquelas que se colam à entidade tutelar do amor, como se nada mais existisse no espaço ou na Terra. Ali continuava só; fitava a rua para lá da jaula de vidro do espaço onde estava refém. O lápis não surtiu qualquer efeito, apesar das incomensuráveis dores que o acto de romper a jugular lhe provocara. Estava calor, imenso, angustiante… observou obsessivo a máquina de café que repousava numa pequena mesinha à entrada do escritório. Abriu um armário e retirou uma saqueta de pó de café e um copo. A rua estava vazia, uma ou outra pessoa passava esporadicamente e pouco mais. Encaminhou-se rumo à máquina de café e começou a preparar um, deixou aquecer a água o máximo que pôde, até que queimasse. Estava exageradamente quente, ao ponto de quase derreter o diminuto copo de plástico onde o líquido repousava, aguardando que o bebesse de um trago. Pegou no mesmo, não sem antes pingar o chão de pequenas gotinhas e quase queimar os dedos. A ideia agradou-o. Queimar os dedos… no entanto não seria o suficiente para que cessasse de existir. Oohhh mas o tédio… nem sei dizer se seria inteiramente fruto da mente deste homem, se de facto existiria alguma espécie de estranho e malévolo vírus que pairava sob aquela cidade, ou rua em particular. As pessoas são naturalmente enfadonhas, é algo intrínseco à sua natureza… Neste mundo presente e actual não existe diálogo, conversas revestidas de genuíno interesse ou reflexões profundas sobre matéria alguma. Quotidianos bocejantes de actividades automatizadas e robóticas… Serão cyborgs, serão zombies, cadavéricos fantasmas de ociosas vontades e de infrutíferos esgares, de palavreado oco, de obsessões empresariais e servis. Aquela rua em particular vivia e respirava comércio, serviços, dinheiros, tudo aquilo o irritava profundamente, muito para lá dos limites do razoável. Era homem de extremos… é certo. Existem vários mecanismos de despiste e engano do tédio e do vazio da inactividade; ler um livro, fazer palavras cruzadas, escrever um poema, navegar na Internet… mas nada destas opções se lhe apresentava como minimamente válidas. Exigia fascínio, um genuíno senso de importância, de exponenciar as suas reais capacidades e desígnios, ansiava por criatividade, pelas artes do cinema à música; a parolice do quotidiano devorava-o visceralmente. Manteve-se impávido à porta do escritório enquanto beberricava o café; olhava o exterior, os demais escritórios que ornamentavam a rua por aproximadamente uns bons oitocentos ou novecentos metros. Ao lado do seu posto de trabalho estava um escritório com duas funcionárias; nunca soube, nem tão pouco se deu ao trabalho de inquirir qual o negócio que o mesmo tratava. Essas noções eram de todo irrelevantes. Igualmente com montra de vidro, qual voyeur via-as e elas o viam a ele; cumprimentou-as com um breve aceno e um sorriso melancólico. De certo teriam visto o espectáculo suicida que tinha apresentado minutos antes, bem como os funcionários dos escritórios vizinhos, todos eles com montra de vidro; eram como um jardim zoológico de masmorras transparentes em que tudo se presenciava. E assim corriam as horas, o calor insano e sufocante, labiríntico e claustrofóbico. O clima era uma ironia a que nem estes peões do tédio se davam conta. Chovia sempre pela manhã, cronometradamente. Entre as sete e as nove, a chuva intensa caía tempestuosa; depois o dia era um inferno cavernoso de temperatura intransigente. Não haviam clientes nesta rua, esta já é uma verdade mais que debatida, o expediente limitava-se a um prolongar de pequenas actividades, ora pacientes ora impacientes, ora tolerantes ora angustiantes. Curioso verificar estes fragmentos de presente, rotineiras amostras de um qualquer prolongar… uns tentavam enganar o tempo, outros nem precisavam, pois o tempo não era de modo algum um inimigo. Outros havia (como o caso particular deste homem em concreto) em que o tempo era um torturador, um arauto de desespero. Concluiu a ingestão do café; continuava a observar a rua… nada se passava, como era óbvio e uma mais que conhecida verdade indesmentível. Encaminhou-se rumo ao armário onde estavam guardadas as saquetas de café; tencionava preparar mais um, no entanto desta vez não tinha como intuito bebê-lo. Não… de todo, desta vez a intenção seria outra. Assim o fez, repetiu a rotina que procedera minutos antes, voltou a queimar os dedos, gotinhas gotejaram no soalho. Por fim jogou o café sobre a cabeça. Escaldava de tal modo que era mais que certo que lhe corroeria o coiro cabeludo, esperando quiçá que seus miolos derretessem perante o contacto com o delicioso néctar. Em circunstâncias comuns esta expectativa seria mais que cumprida, no entanto os seus planos voltaram a fracassar. Os níveis de absurdo e frustração de toda esta situação roçavam os píncaros nefastos do ridículo. As dores, essas eram inqualificáveis. Ainda nem sequer se refizera do penoso martírio que sentiu ao perfurar a jugular com o lápis; agora sentia as carnes a derreter, o líquido engolia-lhe o cérebro. O mais delicioso odor é o de um café acabado de fazer, os grãos que fervilham, um amável aroma perfumante. Este misto de profunda dor física com a inquietação do fracasso entristecia-o profundamente. Estava condenado a ser uma formiguinha de trabalho, ainda por cima incapaz de se auto extinguir. Mas não desistiria… afinal apenas falhara por duas ocasiões. Da próxima… sucesso, era garantido. Assim tinha que ser. Os colegas funcionários de escritório prosseguiam com suas rotinas individuais; uns conversavam, outros jogavam à carta, entretinham-se ao computador ou a conversar ao telefone. Alguns até esporadicamente tinham algum trabalho genuíno entre mãos, fosse enviar um fax ou responder a um e-mail ou até fotocopiar documentação diversa. Um deles, empregado de uma empresa contígua, notou que algo de diferente se passava na rua. Algo que desafiava as normas do quotidiano, que insistia em fugir às regras estabelecidas, regras essas que assentavam em cópias miméticas da realidade, fosse passado, presente e futuro inclusive. Trabalhava neste local há cerca de três anos; o patrão aparecia raramente no escritório, ora para deixar cheques para pagamentos, ora para se assegurar que o negócio se encontrava completamente parado e às moscas, enfadonho e mundano como sempre. Havia uns bons seis meses em que a empresa não facturava absolutamente nada, como de resto era o epítome da realidade presente. Na última semana de cada mês recebia o seu mísero ordenado. Não mais que algumas notas, suficiente para uma média de sessenta refeições mensais na cantina ao fim da rua, pagar a irrisória renda do seu pequeno apartamento T1 situado num pequeno condomínio no aglomerado ao lado da rua dos escritórios. Era uma pequena cidade de comércio e indústria, de negócios e negociatas, de dormitório para funcionários de fatiotas impecáveis e engravatados, de fulanas jeitosas com suas saias pelo joelho, de salto alto polido e casaco com camisolinhas decotadas. Continuava a ser vigiado pelos outros “animaizinhos de escritório”, como gostava de os tratar; observavam-no das suas gaiolas de vidro, alguns atreviam-se a atravessar a soleira da porta e espreitavam. Nem se deu conta que alguns se aperceberam das suas tentativas frustradas de suicídio. Continuou a tarefa à qual resoluto decidiu investir todo o seu tempo daquele dia em particular. Não apareceriam quaisquer clientes para o importunar, o patrão não deveria aparecer tão cedo e os demais indivíduos das lojas ao redor nunca tinham transposto o limiar da sua porta sob pretexto algum, portanto não haveria nada que o perturbasse. Procurou um pequeno pano num dos armários, havia um saquinho com vários mesmo ao lado das saquetas de café. Retirou um e limpou a cabeça, metade do rosto, o pescoço, e tentou disfarçar as nódoas na camisa. Uma nova ideia fervilhava-lhe na mente...Apressou-se enervado a perscrutar as gavetas das escrivaninhas. Lápis, post its, canetas, agrafadores, x-actos...e uma gravata... Era obrigado a trabalhar de gravata, politiquices empresariais que em nada contribuíam para o sucesso financeiro, mas por uma questão de etiqueta e decoro social cumpria as directivas automaticamente. A primeira actividade que efectuava pela manhã ao chegar ao trabalho era livrar-se da apertada gravata que quase o sufocava. Curiosamente seria a mesma a ferramenta de mais uma tentativa de extinção. Depressa colocou a gravata ao pescoço e fez um nó tosco e desengonçado… A correcção do mesmo não era uma questão válida na equação. Estava ansioso e expectante, como uma criança que investe várias horas numa brincadeira ou num projecto escolar com afinco. Curiosamente a maior das certezas, a vontade em culminar com a sua própria existência, findar com todo aquele tédio sufocante que o martirizava por meses e meses, deixara de ter uma importância genuína ou sequer perceptível e compreensível. Sempre se julgara intrinsecamente incompetente, incapaz de obter sucesso nas mais variadas áreas da génese humana ou social. A sua impossibilidade em morrer apenas lhe mostrava para além do limite de quaisquer dúvida, que era sim, com certezas factuais, um imbecil sem valor algum. Os vizinhos nas suas respectivas masmorras de vidro prosseguiam as actividades contratuais, aguardando pacientemente o término de mais um dia e trabalho. Tinha um pequeno esgar sorridente por entre os lábios, alguma confiança quiçá, o que era um contra censo para alguém que sempre acreditara que valia pouco mais do que nada. Estava no limite. A frustração atingira o píncaro máximo. Movia-se apressadamente de um lado para o outro no pequeno cubículo, como um rato de laboratório aprisionado num labirinto experimental, fitando o delicioso naco de queijo. Estava mais do que na hora para mais uma tentativa. Sentia-se confuso e ridículo. Não com a completa tolice que circundava as suas actividades recentes e o absurdo de toda a situação, mas com o facto de continuar a fracassar. Não lhe incomodava de modo algum que pessoas à sua volta estivessem alerta para as suas vãs tentativas de suicídio. Perdera vários minutos a divagar… preciosos minutos. No entanto não perdera a concentração e o afinco necessário para estabelecer uma nova meta. Colocou-se de frente para a máquina de fax. Ligada, e com várias folhas brancas, empoeirada em sossegado descanso. Havia meses que não era utilizada. Abriu uma gaveta e retirou a agenda de contactos do escritório. Era de todo desnecessário, mas deveria ser algum mecanismo automático, algo reflexivo ou então algum estranho ataque de profissionalismo. Retirou da mesma um contacto aleatório de algum cliente e começou a digitar o número na máquina. Pegou numa qualquer folha branca e colocou-a no aparelho de fax. Segurou na ponta da gravata e inseriu-a dentro da ranhura do fax, junto com a folha branca. Um largo sorriso de orelha a orelha enchia-lhe o rosto. Digitou um número e premiu em OK; o aparelho de fax começou a processar o envio da página, tal como da ponta da gravata. O móvel onde estava o fax era muito estreito, havia apenas um pequeno espaço, que dificultava até o manuseio comum do mesmo, em circunstâncias normais. Mas estas não eram circunstâncias normais, e o espaço exíguo entre a prateleira onde estava o aparelho e a estante acima era o ideal para mais uma tentativa. O aparelho iniciou o processamento do envio para um qualquer cliente. Seria de certo modo curioso, do outro lado receberiam uma folha em branco e um pedaço de gravata rasgada, talvez com algumas nesgas de sangue, ou até com partes de couro cabeludo e miolos espalhados na superfície branca… uma pintura abstracta. A máquina começou a encravar, parecia querer cuspir a folha e a gravata; movia-se em movimentos ora ascendentes, ora descendentes; lento e apressado, e vice-versa. A gravata apertada firmemente ao pescoço sufocava-o, impedindo que conseguisse respirar de cada vez que o fax puxava o tecido. Depois, ao encravar, o fax deixava o tecido da gravata com alguma folga, o que permitia que deixasse de sufocar. A cada movimento ascendente e enquanto a gravata era puxada, embatia com a cabeça no estreito móvel onde repousavam inúmeros dossiers e documentação empoeirada e o aparelho de fax. Lentas e breves pancadas, inconsequentes e irrelevantes para o plano de conjugar duas tentativas numa única. Aliar a sufocação através de uma apertada gravata encravada engenhosamente na ranhura de uma máquina de fax com a ideia de violentas pancadas com a cabeça num móvel. Um plano interessante e certamente dotado de alguma inteligência e perspicácia. Se há algo a que não se poderia acusar este resoluto suicida era de que não tinha uma certa criatividade. Um novo fracasso… o pior de todos, pois nem sequer se sentia perto de alcançar o objectivo. Ainda por cima estava preso a uma máquina que se engasgava sucessivamente; o sangue acorria apressado até ao cérebro, impedindo o fluxo da respiração. Parecia por vezes que se preparava para desmaiar; somente para pouco depois recuperar os sentidos. Tentou puxar o corpo para trás na tentativa de rasgar o tecido e libertar-se. Bom material é certo, não cedeu de todo, impecável gravata de seda. Por esta altura, o burburinho intensificava-se ao redor dos demais escritórios, a rua estava alerta e curiosa face ao que se passava com os infrutíferos ímpetos suicidas. Os telefones tocavam ininterruptos, de escritório em escritório. Parecia um legítimo dia de trabalho e com grande agitação. A notícia espalhava-se como rastilho e não tardou muito que vários funcionários se juntassem nas ruas outrora vazias, observando o que se passava. Outros ainda cumpriam as directivas empresariais e no local de trabalho comunicavam de gaiola em gaiola, aventando possíveis cenários e motivos que explicassem de certo modo o que se passava na parada e pacata rua. O que é certo é que havia um sentido de excitação, curiosidade, diria até entretenimento, algo interessante, inesperado que preenchia o quotidiano. Pouco tardou até que começassem a fazer apostas sobre quais seriam os futuros métodos a experimentar. Apostavam se seria bem sucedido, se fracassaria, quais as tácticas a utilizar, se ficaria perto do cumprimento de intuito, se falharia por completo. A agitação na rua adensava-se, os sorrisos, os olhares curiosos, adrenalina, mas sem nunca aproximar do escritório. Nem havia essa preocupação em nenhum dos homens e mulheres que conheciam o suicida há vários anos, mas nunca sequer haviam trocado mais que cumprimentos e breves acenos, ou olhares. Alguns ponderavam tentar perceber o que o levava a tentar veementemente extirpar a sua própria existência. De certo modo poderei até dizer que para a maioria dos espectadores era de todo irrelevante e que se estavam completamente nas tintas para essas questões. Estavam fascinados com o que viam, com o mistério, com o fervilhar voyeurista, com a vontade de saber o que aconteceria de seguida. Era um espectáculo, uma maravilhosa fuga ao tédio corporativo. Parar o espectáculo estava fora de questão. Pareciam crianças efusivas, entusiasmados com o frenesim, sedentos de carnificina e das mais nefastas auto-agressões que aguardavam, como espectadores de um circo. Entretanto o nosso entertainer favorito continuava agrilhoado pela gravata, preso ao fax, tentando libertar-se sem grande sucesso. Puxou o corpo para trás na tentativa de alcançar uma tesoura que estava em cima da mesa. A cada movimento e esforço para alcançar o objecto, sentia-se desfalecer, enquanto a gravata lhe apertava o pescoço. Estava roxo, com as órbitas dos olhos inchados, pareciam saltar-lhe para fora. Lutava para conseguir segurar o objecto por entre os dedos. Estava agora convicto de que teria de se libertar do aprisionamento pelo pescoço. Não que tivesse nascido em si um súbito e pulsante clamor pela vida, simplesmente sentia um incómodo crescente e de certo modo desesperante em cada momento em que cessava de respirar. Aborrecia-o igualmente estar preso sem conseguir se desenvencilhar, ainda se servisse o propósito maior… mas não… Por fim alcançou a tesoura e apressou-se de imediato a cortar a gravata. Caiu com estrondo no chão, enquanto o resquício de tecido que se mantinha encravado foi puxado para dentro da ranhura da máquina de fax. A rua estava ao rubro; vários funcionários conversavam à porta dos escritórios, sorriam e bebiam café. Outros reuniam-se nos escritórios. Começava agora algo de maior grau de seriedade. Algo que não só se aliava a uma necessidade de entretenimento, como a uma vontade de prosperar. Não se limitavam a aventar teorias e a jogar ideias para o ar, como lineares e banais conversas de quem está perante acontecimentos inesperados que despertam a curiosidade. Apostavam… sim, apostavam largas quantias de dinheiro, como se estivessem num casino a jogar roleta ou póquer. Jogavam com o fascínio ou com a demência. Eram cinco horas e quarenta e sete minutos da tarde. Às seis em ponto a rua fecharia. Em movimentos automatizados, como máquinas numa indústria, os funcionários das várias lojas, escritórios de advocacia, contabilidade, imobiliárias, e inúmeros actos e actividades de raiz comercial e financeira… ou nas palavras do desesperado suicida, as jaulas de vidro de tédio avassalador e devorante monotonia. Tamanha moléstia lhe causava o quotidiano rotineiro. Os minutos passaram em sequiosa vontade… o tempo arrasta-se quando se regista inactividade. Apesar de o ignorar ou desconhecer, o tempo passara com algum conforto. Manteve-se entretido durante os ímpetos instintivos de cariz mortal. E agora o dia culminava… com uma certa tolerância, apesar do desejo e da ansiedade em alcançar os objectivos. Eram agora seis horas. Como autómatos de carne e de vontades milimétricas controladas com precisão cronometrada, os funcionários saíam em uníssonas coreografias, enchendo a rua de corpos desejosos de terminar o dia laboral; as luzes apagavam, computadores, faxes e máquinas de café desligadas, alarmes apostos e portas de vidro trancadas. O suicida imortal acompanhou o ritual de saída, calmo e pausadamente. Escondeu a meia metade de gravata que ainda ostentava ao pescoço dentro da camisa branca em tonalidades bordeaux de sangue, vestiu o casaco; arrumou apressadamente alguns papéis e objectos, desligou tudo e saiu. Enquanto percorria a rua de escritórios, notou que os demais funcionários estavam parados e fitavam-no. Alguns conversavam entre si enquanto o observavam fixamente. Outros sorriam. Outros ainda, acenavam e inclusive de polegares em riste, pareciam apoiá-lo e até incentivar. Prosseguiu caminho ignorando os restantes, afinal desde que por lá vivia e trabalhava pouco mais trocara que cumprimentos e breves acenos. Uma ou outra palavra com alguém, insuficientes sequer para que captasse nomes ou quaisquer outras informações. Continuou caminho até à rua transversal, onde se localizava o aglomerado de apartamentos. Era um extenso prédio, semelhante a uma colmeia, recheado de cubículos habitacionais. Havia igualmente um edifício contíguo, apêndice do prédio principal, a cantina. Local onde se juntavam após acabar os compromissos laborais. Ingeriu uma sopa e uma sobremesa leve e seguiu para o apartamento. A mesma rotina diária, semana após semana. Chegar a casa por volta das seis e quarenta e cinco após passar pela cantina para um jantar leve; sentar-se no sofá do pequeno cubículo a que chamava de apartamento; descalçar-se e retirar o relógio e colocá-lo numa mesinha com um candeeiro ao lado do sofá; levantar-se e ir à kitchenette buscar uma caixa de donuts e uma garrafa de água fresca; voltar a sentar-se; pousar a caixa e a garrafa na mesa; acender a TV e começar a ver um qualquer programa. Olhava siderado como se estivesse sonâmbulo num limiar da letargia, os olhos mal piscavam. Da rua poder-se-ia avistar as centenas de janelas da colmeia do complexo de aglomerados habitacionais, as luzes das televisões a piscar, em todas as casas. E assim continuava… sentado no sofá, de olhar vítreo e compenetrado no vazio obsoleto da programação… Anúncios e anúncios e lixo televisivo… Horas depois os programas findaram, uma chuva de meteoritos e barulho ensurdecer invadiu o monitor do aparelho. Ele continuava siderado a olhar fixamente os chuviscos no visor. Às dez horas em ponto, o alarme do relógio que este colocara horas antes na mesa a seu lado, tocou alertando-o que era tempo de dormir. Como um reflexo condicionado, levantou-se, apagou a televisão e foi-se deitar. As horas passaram rápidas e em fôlegos de imediatismo… e assim chegou a manhã. Chuviscava lá fora, uma chuva miudinha que parecia alertar para uma tempestade. Certo é que nada alertava, pois era igual todas as manhãs. Ao raiar do dia, quando a noite se dissipava e o crepúsculo matino se elevava intransigente nos céus, um fino e breve resquício de azul era de imediato devorado por nuvens cinzentas, tornando-se depois os céus em espessos escurecidos, aventando a tempestade que sempre cobria as manhãs, até se dissipar ao dealbar da tarde, tornando-se em insuportáveis calores. Eram sete da manhã. O despertador tocou. A chuva começava… E ele acordou… Tudo começava novamente. Mais um dia… Sentia um peso enorme na cabeça; mal conseguia abrir os olhos. Doía-lhe as pálpebras dos olhos, as fontes da cabeça. Sentia a cabeça gigante, vazia, mas cheia. Como se o vazio a enchesse desse mesmo nada. Acordava logo com medo, medo do que o esperava. Mais um dia de solidão, fechado num escritório a aguardar a hora de fim de expediente. Levantou-se com muita dificuldade, o corpo parecia não responder, os músculos dormentes e doridos; sentia-se furioso, irritadiço e enervado. Não tinha acção nenhuma, movia-se porque sabia que assim tinha que ser e tinha compromissos e deveres a cumprir, apesar de saber que se não os cumprisse, mal algum daí proviria. Arrastou-se para a casa de banho, de olhos semi cerrados e ainda sonolento; ligou a torneira e um pulsante jacto de água gelada caiu sobre sua cabeça. Seria o necessário bálsamo para conseguir despertar. Vestiu-se apressadamente sem olvidar a obrigatória gravata; bebeu um copo de leite branco fresco e saiu para o emprego. Como sempre, ou não fosse esta uma vivência de repetições ad nauseum, regressou ao apartamento minutos após sair. Esquecera o guarda-chuva, como o fazia diariamente, apesar de saber que chovia pela manhã. Uma chuva branda e de breves salpicos, em crescendo para uma tempestade de trovões e relâmpagos. A chuva começava a se intensificar… prosseguiu percorrendo o caminho da rua de apartamentos até à transversal de escritórios. Uma vez mais deparou-se com os demais funcionários que recomeçavam logo pela manhã os automatismos proletários. Dirigiam-se em multidões, uns apressados, outros em acalmias aparentes. Vários o cumprimentavam, outros acenavam… Parecia que pela primeira vez começava a se integrar em algo. Passeava-se sempre por locais e espaços em solitário silêncio. Não estava habituado a que lhe prestassem atenção nem tão pouco a interagir com outros com tamanho interesse e amabilidade. Chegou à porta do seu escritório e para começar havia algo de novo. Primeiro desafio do dia, quiçá. O quotidiano fora desafiado. No degrau da porta de entrada deparou-se com um envelope castanho algo molhado da chuva e dentro do mesmo, aquilo a que, pelas formas, parecia indiciar uma caixa. Apressou-se a entrar e abrigar-se da forte chuvada que intensificava gradualmente. Pousou o envelope castanho na mesa e sacudiu o guarda-chuva, retirou o casaco ensopado e, sem faltar a apertada gravata que guardou dentro de uma gaveta. Ligou a maquinaria: fax, impressora, máquina de café, computadores, acendeu as luzes da montra… Preparou a máquina para beber um café. Logo pela manhã bebia em dois copos de plástico… em jejum. Hoje não arriscaria o suicídio por café. Era um desperdício de tempo e de um bom e bem dispendioso café. Ao menos isso… Sentou-se e começou a olhar para o envelope castanho. O patrão não o avisara da chegada de encomendas; aliás há meses que não chegava nada que se parecesse. Correspondência comum e contas para pagar, somente. Estranhou o carteiro não ter aguardado que chegasse, pois por norma esses pacotes exigem a rubrica da praxe. Pouco passava das sete da manhã; ainda sonolento com um inebriante latejar na cabeça, irritadiço, mas no entanto ainda sem os índices despertos necessários para se sentir furioso e irrequieto e envolver em suspiros e praguejos internos de fino desespero. Havia que manter alguma calma, o dia apenas começara e seria um desperdício de bom sofrimento começar a desesperar tão cedo. O envelope não tinha quaisquer informações escritas. Nem remetente, nem destinatário. Decidiu abri-lo… De certo modo fervilhava de curiosidade. O que indiciava uma breve noção de conforto e uma certa leveza de espírito. Devia ser a sonolência da manhã, com toda a certeza. Tal como as formas no envelope castanho molhado indiciavam, era uma caixa rectangular de madeira, com um botão em tons prateados na face frontal. Havia um pequeno envelope branco colado à caixa. -“Contamos contigo!”- Esta breve e enigmática frase escrita a caneta preta com uma letra bem carregada. Dentro da caixa de madeira estava um revólver, com um depósito de cartuchos e um cilindro giratório com culatras onde se posicionavam as munições. Quem quer que lhe ofertara a arma, colocara dois cartuchos apenas junto ao mesmo. Talvez considerasse que um tiro apenas seria mais que suficiente para satisfazer de uma vez por todas o desejo deste homem em morrer, e um segundo disparo, caso necessário, asseguraria o sucesso da demanda proposta. Pegou no revólver e colocou os dois cartuchos dentro da câmara e fez rodopiar o tambor cilíndrico. Estava com um crescente entusiasmo, uma perturbação orgânica, calafrios de nervosismo e excitação. Pressionou o cano do revólver bem encostado ao queixo… Assim ficou alguns minutos brincando com o tambor cilíndrico, rodopiando várias vezes, com o cano bem vincado. Engatilhou o cão do revólver… A rua parecia um casino… Reboliço constante e apesar das fortes chuvas e trovões que cobriam os céus. Os funcionários corriam de escritório em escritório, telefonemas… Um elaborado sistema de apostas estava a ser posto em prática. Verdade seja dita e apesar das conjecturas e negociatas que prosperavam à custa das tentativas suicidas, nenhum deles queria ou esperava que o homem conseguisse levar a sua avante. Para onde iria o entretenimento e a esplendorosa ruptura com o quotidiano entediante? Ainda que para isso perdessem elevadas quantias de dinheiro. Mas não era aí que residia o cerne da questão. Era chegada a hora. Ainda de revólver em riste e firme no queixo, premiu o gatilho. Nada aconteceu. Uma das culatras estava vazia… das seis, apenas duas estavam artilhadas com cartuchos. E ele as colocou aleatoriamente. Ainda que não o fizesse propositadamente, este era um factor de criação de um certo mistério e imprevisibilidade. Imprevisibilidade essa que rapidamente se dissiparia se este se apressasse a disparar de uma vez, esvaziando o tambor. Um disparo… dois disparos… Ao terceiro disparo ouviu-se um forte estrondo por toda a rua. De seguida um prolongado silêncio… Um crescente e ensurdecedor vazio de quietude flutuava pelas paredes e pelos ares, em finos recantos, penetrando ínfimos espaços. O projéctil percorrera toda a extensão da face do homem, desde o queixo de onde saíra o chumbo do cano, viajando até ao cérebro e irrompendo com uma esplendorosa explosão até ao tecto do escritório. Um irreverente gotejar brotou em força impetuosa como um repuxo, uma cratera se abrira no topo do crânio, perfurando o parietal. Uma ruptura no topo da cabeça; acima no tecto uma contundente mancha escurecida decorada com sangue, restos de ossos estilhaçados e fragmentos de miolos cuspidos pelo impacto do tiro. O sangue jorrava do buraco ao cimo da cabeça, em intervalos de latejos inconstantes e de arremessos imprecisos, tanto velozes, como nem tanto…. Sentiu-se exageradamente quente, como se uma imensa força de calor se apoderasse de suas carnes, vindas de cima para baixo e conquistando o tronco e as pernas. Sentiu-se desfalecer e quase perder as forças para se equilibrar em pé. As dores eram inefáveis e até de certo modo anestesiantes… Estava totalmente resignado e diria até que este novo fracasso nem sequer o encarava como tal. Era uma mera tentativa e não mais que isso. Prosseguiu sereno; colocando o revólver, ainda flamejando de calor e fumo, dentro da caixa rectangular de madeira. Tomou nas mãos o guarda-chuva e pousou-o sobre a mesa. Da sua cabeça continuavam a gerar torrentes de sangue, encharcando o seu cabelo. Quebrou os aros dobráveis do objecto aramado e sem delongas perfurou o buraco no crânio, servindo-se de um arame do guarda-chuva. O fluxo sanguíneo cessou de imediato. Tinha agora um arame cravado ao centro da cabeça; e começava paulatinamente a experienciar uma espécie de dormência e fraqueza que começara a sentir logo após os disparos, mas que parecia agora adensar-se. De certo que possuir um elemento estranho a perfurar o cérebro teria algumas consequências. Aumentavam as tonturas e o enfraquecimento físico e mental; as pernas em progressivo declínio; a sonolência… Uma ideia percorria-lhe a mente, apesar das dificuldades em formular um pensamento conexo e que lhe permitisse decidir com certezas o que fazer. Saiu pela porta fora e começou a correr… correu e correu; sem muito reflectir sobre nada. Deixou-se levar apressado, com medo de desfalecer e cair… Percorreu uma vez mais a rua de escritórios e lojas, deixando ao abandono o seu local de trabalho; de luzes acesas, de porta escancarada. Os restantes presenciaram a repentina fuga, em choque e admiração, e igualmente com uma estranha sensação de desilusão. Era agora o fim dos procedimentos e do entretenimento. Apesar de desejarem que não findasse, e as apostas que circulavam, nenhum homem ou mulher esboçou o menor esforço em perseguir ou impedir o entertainer suicida. Nunca mais o veriam naquela rua de ofícios, nem na cantina… Restava agora encontrar novas actividades que lhes preenchessem o vazio e ajudassem a suportar as dolorosas repetições que se propagavam. O suicida continuava a correr sem muito ponderar sobre seu destino; percorreu até alcançar a transversal; para lá do extenso edifício de aglomerados habitacionais que muito se assemelhava a uma colmeia… Desde que ali vivia que nunca mais se atrevera a transpor o espaço para lá do prédio. Resumia-se a caminhadas pendulares entre as duas ruas, a rua de produtividade e empregabilidade e a rua de repouso e refeição. Estava agora num estreito caminho de terra batida e enlameada; a chuva continuava a acariciar-lhe o rosto e as roupas encharcadas; adensavam-se as tonturas, o caminho surgia-lhe desfocado, como se fosse interminável. A cada passo dado parecia-lhe que estava mais longe, como se voltasse para trás ou não prosseguisse de todo. Ao fundo surgia um imponente edifício de aparência hexagonal, de formas poliédricas regulares, de vidros finos e brilhantes, límpidos e transparentes. Lentamente começava a cair… a cabeça pesava, a visão distorcida e tudo ao redor parecia dançar num constante reboliço. O edifício hexagonal ali estava tão perto, no entanto parecia afastar-se. Pouco depois desfaleceu…. E desmaiou. Ali permaneceu por algumas horas desacordado até que um vento fresco e brando o despertou… Uma folha de jornal amarrotada e algo encharcada voava, trazida por aragens sibilantes. Silvos agudos distantes, aproximavam-se e intensificavam… A folha de jornal deteriorada soprada em lamentos encalhou no arame que este ostentava alojado no crânio; o papel oscilava irritadiço, embatendo com veemência na testa. Na linha do horizonte, enevoada e de formas ainda desbotadas, surgia uma locomotiva e gritos estrídulos de máquinas a vapor… Estava agora inteiramente desperto; sentado, observava as majestosas carruagens que brandiam pelas estradas férreas, desaparecendo por detrás do edifício hexagonal. Retirou a folha de jornal que encalhara caprichosamente no topo da cabeça. Teriam passado algumas horas, talvez fosse de tarde, pois já não chovia e o Sol elevava-se agora luminoso e de insistente calor seco e sufocante. Pegou na página de jornal suja e molhada e começou a ler. No título do mesmo surgia em letras garrafais a seguinte informação: ”Companhias de seguros pagam fortunas a vítimas de acidentes de viação!” Sentiu um frio lancinante que lhe cobria o corpo por inteiro, e uma inexpugnável certeza que lhe encharcava a alma. Era de facto eterno, com as demais condicionantes e fatalismos que essa condição proporcionava. Combater seria de todo inútil e inoportuno. Nesse mesmo momento tomou a importante decisão de aproveitar e servir-se da sua vil e cruel enfermidade. Levantou-se e caminhou diligente pelo caminho que o levava até ao edifício hexagonal de formas poliédricas regulares, de vidros finos e brilhantes, límpidos e transparentes. À entrada, num omisso cubículo empoeirado, permanecia uma mulher de meia-idade, de óculos com espessas lentes, cabelos cinzentos encaracolados. Parecia ser feita de cartolina, apenas ali estava indolente, e expressão diáfana. A mulher nada disse e o homem limitou-se a um breve murmúrio. Comprou um bilhete e dirigiu-se para perto da linha férrea; a locomotiva aguardava-o. Não havia mais ninguém em espera para abandonar a cidade. E assim viajava, de arame de guarda-chuva cravejado no topo da cabeça, de fato corporativo manchado de sangue, sujo e molhado da chuva; com sua folha de jornal guardada no bolso. Uma nova oportunidade nascia e um novo fervor se erigia. A viagem durou várias horas, instigando o espaço e a mente. Sentiu-se coberto de melancolia, e ao mesmo tempo um lacónico consolo que o aquietava de certo modo. Nos anos que se seguiram, este homem teve cento e trinta e seis acidentes de viação, foi atropelado setenta e duas vezes; e sofreu lesões letais em trinta ocasiões. Sobreviveu a todas elas e às custas de seguros e indemnizações lucrou fortunas que lhe permitiram correr mundo e conhecer locais e alcançar fascínios imensos e recompensadores, tanto de matriz económica, mas principalmente espirituais. Ainda assim e apesar de tudo que alcançou, uma vez por outra tentava o suicídio, de mais diversas formas e estranhos métodos. Apenas por curiosidade em saber se poderia algum dia abandonar o seu fado sempiterno. Escusado será dizer que em todas elas falhou. Qual é o nosso lugar neste mundo? Estaremos aqui como invólucros de carne, com nossos fatos de pele e ossos encravados na realidade? Haverá algum desígnio, um plano definido? Ou seremos meros peões a respirar, à deriva e à espera do amanhã? À espera do fim? Será tudo uma simples passagem? Ou uma infindável e questionada viagem? Seremos reféns de bocejos e quotidianos ancorados num angustiante mimetismo? Ou merecedores de prazerosos fascínios, de desafiantes augúrios, de sorridentes promessas? Que é que levamos da vida que não mais que microscópicos fragmentos de sensações e experiências difusas e diluentes em determinados momentos díspares e ventanias espaciais de uma brevidade insana? Nada mais que memórias, e que estas não mergulhem em maresias de esquecimento. Valha-nos isso.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A.F.E.F.D.


 Esta singela historieta decorre, numa época em que todos os tabus sociais, afligidores da Humanidade durante o início do século XXI, estavam completamente resolvidos; a saber, encontravam-se, para todos os efeitos liberalizados: o aborto, a eutanásia, o consumo de todo e qualquer tipo de estupefaciente, a prostituição, o casamento homossexual e adopção de crianças por parte de casais de pessoas do mesmo sexo. Enfim, graças ao crescente esclarecimento da generalidade da população, que por moto próprio procurava instrução e conhecimento, as pessoas deixaram de querer interferir na liberdade do seu próximo.
 Contudo, o senhor Jafo Dias não se encontrava totalmente satisfeito e, certo dia, ao raiar da alva, dirigiu-se célere mais uma vez, aos guichés do Departamento para a Resolução de Tabus Remanescentes. Expondo ao funcionário que o atendeu, com enorme fidúcia e inexaurível determinação, o seu caso, e vendo novamente a sua sugestão indeferida, ergueu o braço direito, de punho cerrado e, em tom de ameaça, ao mesmo tempo que exclamava impropérios: «Vão pró caralho, filhos de puta…», «Vão-se todos foder, paneleiros de merda…», abandonou as instalações do departamento.
 Na tarde desse mesmo dia, Jafo Dias criou a A.F.E.F.D., Associação de Famílias que Escravizam o Familiar Deficiente.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ditadura Duracell


A ditadura Duracell
é talqual o papel,
em que inscrevem
a nossa cruz.

Dura, e dura, é dura
até que vem, pura,
a morte, e truz.

A pior cruz que há,
é a da semi-loucura;
é como cavar com uma pá,
na imberbe ternura.


sábado, 12 de setembro de 2009

Atropela os peregrinos

 Sempre que estou a dormir ou a desenhar, há uma voz que surge, e me diz: «Vai atropelar peregrinos.».
 Sucedeu-me pela primeira vez, este curioso e estranho fenómeno, certa ocasião em que visionava o telenoticiário, e durante o cujo, exibiram uma peça sobre uma importante romaria. Nesse fatídico dia, e assim que a reportagem terminou, vi-me de imediato mergulhado num profundo coma, que no espaço de três longos dias, me manteve tremendamente agrilhoado, à treva obscura da inconsciência. Terminado este, reparei com alguma repugnância, que estava completamente envolto nas minhas excrescências fisiológicas: ensopado em suor e urina, bem como borrado nos truces e até mesmo nas calças, que certa vez devo ter mesmo estado de soltura.
 Não encontrando explicação aparente para o que me havia acontecido, decidi terminantemente esquecer o caso, e tomando banho, arranjei-me para ir matar alguns gatos à cacetada; percorrendo inúmeras vielas e azinhagas, consegui apenas jogar o cassete de rodeio, nunca satisfazendo completamente os meus intentos, de eliminar um felino sequer. Desiludido, tornei a casa, onde sobre a mesa da sala, após desviar a jarra com jarros, e o naperon, onde em cima do qual esta se posicionava, para uma ponta da mesma, dispus o meu completo estojo de desenho: um bloco de papel tamanho A3, variados lápis de carvão e um pequeno canivete para proceder, quando necessário, à afiação dos mesmos. Assim que fiz o primeiro traço na alva folha, paralisou-se-me de imediato o braço, devido ao cagaço que apanhei, com ter ouvido novamente a voz, a me dizer: «Vai atropelar peregrinos.»; julgando que iria entrar novamente em transe, durante mais três dias, e que acordaria em semelhantes condições de higiene, como na primeira vez, deixei rapidamente o material de desenho, e afastei-me da mesa. Automaticamente a voz cessou, tomado de pânico, decidi preparar um gin com água tónica schwepp's, para me acalmar. Ao tornar ao desenho, e delinear nova linha, voltou a tartárea voz: «Vai atropelar peregrinos.». Deduzi que a prática do desenho a lápis de carvão, vá-se lá saber porquê, estimulava o aparecimento da voz. Bani completamente este passatempo, da minha lista de interesses.
 Decorreu o resto do dia sem sobressaltos, até que finalmente se fez noite: lavei os dentes e os pés, vesti o pijama, e ao pousar o crânio, de modo relaxado, no travesseiro, reapareceu, incisiva qual magnífica dor de dentes, a maligna voz: «Vai atropelas peregrinos.». A partir daqui, já se sabe que não consegui pregar olho, durante toda a noite, nesta e nas que se seguiram, até ao término da romaria.
 Não associando de todo, ao princípio da enfermidade, o facto da duração das romarias e a minha nova condição - chamemo-lhe patológica - serem duais, ao ler, com dois dias de antecedência, num vespertino periódico hebdomadário, um artigo, acerca da realização de uma nova romaria: desta feita em homenagem a Nossa Senhora dos Aleijadinhos Pobrezinhos, por analogia com a primeira situação em que entrei em coma, percebi que talvez a causa que despoletava esta curiosa manifestação, fosse o início das romarias, e o subsequente fim destas, seria também quando a voz, me incitando ao atropelo de peregrinos, cessasse de surgir, ao desenhar e dormir. Foi tal e qual como na minha suposição!, o início da dita romaria, lançou-me novamente em três dias de tenebrosidade, que me fizeram despertar, precisamente, nas mesmas parcas condições de higiene, que na primeira ocorrência. Seguidamente, sobreveio uma semana de martírio, sem desenhar ou dormir, (se fosse arquitecto, não poderia ter trabalhado) até que a romaria teve fim e voltei a ter paz.
 Paz de pouca dura, como o sol por vezes, pois no dia treze de maio, ainda envergando o pijama, ao tranquilamente ingerir fatias douradas regadas com xarope de ácer, como pequeno-almoço, foi transmitido, a quem sintonizava os transístores na Rádio Renascimento àquela hora, que se realizaria, com pompa e circunstância bastantes, nova romaria, seria nesta ocasião, dedicada a Nossa Senhora dos Ceguinhos Marrequinhos. Em terceira, e definitiva, condição de nefando transe, entrei eu mais uma vez, e talvez por ter sido esta a terceira, compreendi finalmente que o atropelo de peregrinos, se ia tornando numa importante componente da minha vida - podendo desta até depender a integridade física e mental da minha pessoa - pois que a incapacidade de dormir durante os dias de romaria, se tornava bastante danosa para o organismo e bem-estar mental.
 À quarta romaria, já tive a clarividência suficiente para reagir, e finalmente me rebelar contra a maldita peste. Munindo o meu fiat uno de: viveres suficientes para uma semana de atropelamento, mantas e o cacete de matar gatos; decidi partir em busca do meu primeiro peregrino. Informando-me nas estações de serviço por que passava, consegui descobrir uma rota de peregrinação e aí esperei, ouvindo música folclórica, de janelas abertas, como o ladino crocodilo submerso, aguarda o sequioso gnú. Passada uma hora, e consideravelmente atordoado pela intensa canícula que se verificava, quase a dormir, ouvi, de repente, um alegre vozear mesmo ao pé da janela do meu carro, era um casal de peregrinos de meia-idade, que me desejava boa-tarde, e que se dirigia devotadamente para o santuário de Nossa Senhora dos Desgraçadinhos Estropiadinhos. Vendo ali uma excelente oportunidade para encetar o atropelo de peregrinos, reflecti durante alguns minutos acerca da melhor forma de o fazer: decidindo por fim, começar pelo marido, sendo que este, mais gordo e possante, no caso de atropelar primeiramente a sua esposa, me poderia partir os
vidros do automóvel com o auxílio do seu bordão, ao inverter a marcha do carro, e seguidamente me capturar e espancar violentamente. Assim aconteceu: partindo duma distância que considerei a ideal para dar uma boa porrada no peregrino macho, acelerei a fundo, até embater violentamente contra as pernas do mesmo e o projectar para a valeta, onde aterrou, inconsciente. Visivelmente atemorizada, a mulher do peregrino correu para onde jazia o corpo inerte deste, talvez na vã tentativa de lhe prestar socorro, ou avaliar o estado da sua condição física; determinado a terminar a tarefa que começara, optei por não atropelar a peregrina, visto se encontrar esta demasiado perto da valeta de escoamento de águas, e com o receio de não travar a tempo, ainda poderia me enfeixar contra a mesma, e partir a direcção do carro, fatalidade que se revelaria bastante danosa, pois o meu automóvel é o único meio com que posso contar, para me evadir rapidamente do local de atropelamento; não referindo as despesas de arranjo, que só no pára-choques já vou ter de gastar um dinheirão, para poder reparar a amolgadela que o peregrino fez. Agarrando no cacete de matar gatos, corri rapidamente para a mulher, aplicando-lhe uma valente bordoada na nuca, que penso eu, a aniquilou de imediato, seguidamente voltei para a minha viatura, abandonando o local a toda a brida.
 Considerando este acontecimento, do seguro e inexpugnável baluarte que é o futuro, torna-se impossível não o definir simplesmente como burlesco, agora um atropelador experimentado, recordar este episódio é, para mim, apenas mais um divertido exercício de humor. Hoje em dia permito-me ao luxo de, por exemplo: num grupo de alguns peregrinos, atropelar só um, e ficar à espera, para apreciar a reacção dos restantes, de semblante carregado de indignação, punho raivosamente erguido no ar, tentando me atingir a viatura com paus e pedras. É quando faço marcha à ré, e atropelo outro...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Vinte e seis de Maio, de mil novecentos e noventa e seis

Os receios de que o meu costumeiro lugar no café, (não sou costureiro) estivesse tomado, depressa passaram, ao constatar, pela montra do mesmo, que aquele estava vago. Hoje é um dia particularmente atreito para fumar cigarrilhas.
Há vida no café, ecoam gargalhadas, as pessoas sorriem em demasia. Sentei-me mesmo por detrás de duas irmãs, que correspondem perfeitamente aos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade. É tão certo chegar a conviver com elas, como é certo não cortar a picha da viúva na mesa ao lado.
Ambas usam blusas que me permitem visionar-lhes uma secção das espáduas. Lanço olhares furtivos, na tentativa de vislumbrar a roupa interior que trazem. Quererei mesmo ver-lhes as cuecas, ou é assim que me devo comportar?? Julgo que a irmã mais velha não traz cuecas, pois ao se agachar, para recolher uma moeda, por acidente caída no chão, observo-lhe a regateira do cú belo.
O meu chá atingiu a cor dourada devida, pelo que procedo à sua ingestão; uma punk com sida, exclama para os seus companheiros:
- Já estou melhor...
Já está melhor com certeza, da sua adição às drogas. Acende-se outra cigarrilha, para me acalmar os nervos, em pilha.
A minha atenção volta-se para a mesa de Hilário sem colhões, está com outro indivíduo e com mais dois elementos do sexo oposto ao dele; estas não preenchem os requisitos mínimos de beleza sociais, ao contrário das duas irmãs atrás referidas, que estudam psicologia clínica. O chá ainda está algo quente, pelo que suspendo a sua ingestão.
As restantes mesas encontram-se preenchidas por forasteiros sem qualquer interesse. O meu olhar vicioso, detém-se em uma rapariga de blusa de lã, tingida de verde e cabelos compridos, não sei se é bela, pois está de costas para a posição em que me encontro. No exterior, uma buzina estridente soa muito alto, de salto alto está também a rapariga de camisola verde.

Treze de maio

Apetece-me matar, à facada, com um caco de vidro fosco, a estrangeira, ou as estrangeiras de sessenta e poucos anos, que gargalham na mesa em frente. Suponho que tenham uma cona velha, toda furada. Ao ritmo do rock and roll, despir-lhes-ia as calças, não sem antes lhes descalçar as sandálias de cabedal; depois, muito calmamente, contemplaria as suas cuecas de renda vermelha, (que usam para parecerem jovens) depois contemplaria, num misto de náusea, enjoo e respeito, os seus genitais, a púbis toda rapada (aspecto que, mais uma vez, tem como objectivo, simular a sua graça e juventude perdidas). A guitarra, na aparelhagem do café, solta um som de guitarra rouca, e as velhas estrangeiras riem, e bebem vinho tinto, sem nada respeitarem. À mais velha, gostava de lhe apagar o charuto na testa, para ver se não ria tanto. Tomo um gole de chá, acho-o demasiado quente (estou disposto a fumar todo o meu tabaco).
Só agora reparo que, trazida pela cítara, não é Telma que se senta na mesa ao lado, tudo isso me desaponta, um bocado. As putas estrangeiras, afinal, lambem sangria, como a menstruação que já tiveram. Cheira-me a tabaco de cachimbo, e um homem de brochas nos sapatos, avança para junto da esposa, ao ritmo de música cubana. Cubano é também o meu tabaco.
A maioria dos vícios, no seu expoente máximo, fala latim. Confusão, ondas de confusão invadem-me o cérebro, em convulsões metafísicas. Eis que chegam seis ingleses, a raça mais asquerosa do planeta, que deixou o seu legado aos americanos; como me satisfaria escarrar-lhes na fronte, e vê-los franzir o cenho, amofinados!!!!
Caos e desordem, percorrem-me os nervos em desordem.
Ao balcão está sentado um cigano, com quem cresci, devia-lhe bater com uma tábua, em que um prego ferrugento espetado, se encontrasse.
(Depressa passarei às cigarrilhas)
Ondas de fumo sáfico dançam em volta de mim.
Eis que sou um serafim, sem fim, danço e revolteio-me no chão de papelão, coberto por naperons mágicos, abençoados pelo papa, sua santidade, obra da santíssima trindade. Música ininteligível, embrulha-me os olhos e enxameia-me os ouvidos. Uma prostituta qualquer, que percorre a madrugada fria, diz a um cliente em potência, que por dez euros apenas, não fode.
Cliente – Dou-te vinte e cinco, e vais com sorte.
Puta – Com vinte e cinco, só cona, se quiseres os três pratos sai-te mais caro, querido.
Cliente – A cona basta-me... porém quero-te com as mamas a descoberto...
Puta – Não seja por isso, podes apalpá-las até te fartares querido.
A puta é portuguesa, nacionalidade que vai escasseando, no meio das meretrizes.
Cenário: Estão ambos, puta e cliente, numa pensão, o cliente lava-se na casa de banho, a puta descobre-se no quarto.
Cliente – Estou pronto para foder, mas essa cona pentelhuda e tuas axilas de exagerada pilosidade, indispõem-me.
A puta levanta-se e vai à casa-de-banho, depilar-se. No quarto, o homem mexe na pila.
Cenário: A puta, completamente depilada, surge no quarto, ouve-se música de órgão. A puta, detém o olhar no órgão do cliente.
Puta - Ficas tu, ou fico eu por cima?
Cliente – Eu fico por cima, se Deus me dotou de caralho, foi para foder, e não para ser fodido, como às vezes sou, e mal pago pelo serviço...
Puta – Quem paga é que manda!
Cenário: O cliente, de pé, aguarda que a puta se deite. A puta sorri, deita-se na cama e ajeita a peruca loira, com um sorriso de cariz trocista. Fodem.
Acabado o serviço, o cliente, muito delicadamente, pede à puta para se esporrar nas mamas dela.
Puta – Mais cinco euros, e podes te esporrar onde quiseres.
O cliente paga, e esporra-se na cara da puta.
Cenário: A puta, com a cara coberta de sémen, vai-se lavar na casa-de-banho, veste-se e sai sem se despedir.
Sozinho, o homem chora, nú, deitado em cima da cama, as suas misérias.
Apetece-me uma cigarrilha, apetecem-me várias cigarrilhas. Uma cigarrilha que me é posta na boca por uma cigana, feita às postas (não a cigarrilha, mas a cigana). A minha caneta, provoca-me uma estranha, e ao mesmo tempo, vontade de escrever. A minha caneta azul-escura, é um leme partido; uma bússula sem norte.
Um velho marinheiro, abusa sexualmente de uma pré-adolescente surda-muda, que vage ensurdecedoramente. É o garante da casa. Mil marinheiros, abusam de mil pré-adolescentes surdas-mudas, que se entregam sem lamento. As suas vaginas, túmidas e húmidas, acolhem caralhos de velhos marinheiros. Com tanto amor para dar, e os velhos marujos escolhem precisamente garotas surdas-mudas:
Uma cigarrilha é uma ilha,
uma ilha onde vivem duas mulheres
que se amam, como a uma filha.
Colhem flores, para Ceres.
A definição de amor que nos surge no dicionário, é apenas uma aproximação muito vaga:AMOR – o amor é: duas mulheres que trocam um beijo, sem mais nada, sem sexo; o amor não é algo sem nexo, não é inconcreto. Apenas é preciso ser-se duas mulheres, que trocam carícias sinceras, para se descobrir o amor. É calor, num mamilo túmido.

Taxismo metafísico

Um dia, estava um taxista de Aljezur, que se chamava Anaximandro Ramalho, à espera de clientela, de trabalho... Senão quando, lhe surge um freguês todo aperaltado: de gravata e fato, com sapatos de verniz:
- Senhor Ramalho? – inquiriu o estrangeiro, alcançando já, o manípulo da porta do táxi.
Já no interior do mesmo, o senhor Anaximandro fitou o passageiro pelo espelho retrovisor, que retro vê, portanto, como que o interrogando acerca do destino. Este estava a remexer na papelada, que trazia em uma mala, e só depois reparou:
- Senhor Ramalho, vamos para o caralho... – pediu o passageiro, erguendo em um repente a cabeça, e logo de seguida mergulhando na papelada:
- Levo-o até ao caralho, mas não fico lá.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sem título

Uma barata morta, dentro de um preservativo. Cheio de vida. Nanja eu! A morte é uma coisa que vem de motorizada, e traz uma metralhadora às costas.

Sem título

Não adianta confrontar Marx e Proudhon, como se fossem dois lutadores rivais, pois não pode existir progresso se, individualmente, não tomarmos consciência do nosso papel na sociedade, bem como de que lado estamos. A nova ordem para os séculos e milénios posteriores: é substituir a igreja pela biblioteca. Só depois se pode discutir, efectivamente, uma forma de organização social.
Não sou um poeta, não sou um esteta, sou um atleta. Vendo bananas na madrugada, como quem chama por mim, um chamamento distante, que distrai a mente. É um carimbo sem cachimbo, é uma estátua equestre sem cavalo; é o que é. Estou aqui desejoso por voar, sem parar, sem cessar, até acho que estou a rezar, ajoelhado ante um altar de vício, perfídia e luxúria, integrantes do ser eterno que é o homem-espacial sem rótula dos joelhos.
Enquanto não preencher as páginas em branco da minha vida, não tenho descanso, nem pensos-rápidos; pois abuso da hospitalidade alheia, caseira. Pareço a corda de um violino a chorar no hospital, para refugiados fugidos da República do Biafra. Há tanta coisa possível de se imaginar, que podia escrever sem parar. Podem me comprar muita coisa, menos a minha imaginação; isso não! Nem moldá-la tão-pouco!

Sem título

É amoral, quase inconstitucional, como as coisas se passam no Algarve quando somos jovens. Para onde quer que olhe, vejo calçada e velhas gaiteiras, com as gaiolas dos canários a trinar, e elas à porta, ao sol, a conversarem, com chapéus-de-palha na cabeça.
É fantástico o ódio, mascarado de indiferença, com que as pessoas em geral encaram os velhos. Têm inveja, pois os velhos é que sabem viver, não têm outras preocupações na vida, que não seja esperar a morte, esse factor concede-lhes um privilégio muito invejado por quem tem inúmeras preocupações na vida. Um velho pode partir uma padaria, que tem sempre a desculpa de ser velhinho, etc, etc...
Escrevo como se pintasse as letras.

Quando Camões foi ao circo

O doutor Ferreira, era muito competente, quando se tratava de ministrar aos doentes cuidados paleolíticos.

Os três reis magros

Era uma vez, os três reis magros, que eram toxicodependentes. Só queriam droga intravenosamente, passando todos os dias nestes folguedos. Os seus súbditos já estavam fartos de serem chulados, para os reis se andarem a drogar. Haviam súbditos que choravam, como perdidos, baba e ranho. Houve um que, de tanto chorar, lhe saltaram os olhos para fora das órbitas. Teve que sofrer uma pequena cirurgia plástica.
Era este súbdito, ao que lhe saltaram os olhos, o mais feio do reino. Ninguém dele gostava e, quando passava na rua, apedrejavam-no, como a São Terêncio. Apesar de tudo, fazia uma caldeirada do caraças, este gajo; sempre que havia festa, já eram amigos dele, interesseiros! E ele, tolo como era, acedia sempre, e lá cozinhava caldeirada. Assim que dizia:
- ‘tá bom de sal, e de picante…
Era novamente apedrejado, e escorraçado, sem escrúpulos, de onde quer que fosse, por quem quer que fosse.
Um dia, foi fazer caldeirada para os três reis magros, mas estes, devido ao estado avançado de dependência, tinham muita falta de apetite, pelo que se acabou por pedir à governanta, ou mulher-a-dias, do palácio dos três reis magros, para confeccionar um chazinho de erva-cidreira, que nos casos de má disposição, é o mais indicado. O súbdito mais feio, não esteve pelos ajustes, e quis logo praticar sexo anal com a mulher-a-dias dos três reis magros, que ainda era virgem. Esta desculpou-se, dizendo que era pouco higiénico e, que vomitara há pouco tempo.
Os três reis magros, não se indispuseram contra esta súbita veleidade, do súbdito mais feio do reino. Mandaram dizer missa por ela.
Tristes e decepcionados com a vida, já só consideravam a hipótese do suicídio, viviam tão tristes e descontentes, que nenhum, nem o melhor psicólogo do reino, os poderia salvar. A droga tinha-lhes consumido tudo, e todos os amigos os ostracizavam, votando-os ao abandono, que é o consumo de drogas.
Mesmo assim, não perderam a esperança no futuro, continuaram a acreditar, esperançados. A chuva de granizo que se seguiu, só piorou as coisas, os deprimidos, com o sueste, sentem-se muito incomodados e vêem-se privados da razão, bem como de espírito próprio, para criticarem seja o que for, até uma simples flor, sem amor.
É fantástica, a resistência que a esfera, de uma esferográfica, detém em si mesma. É uma esfera esférica, que é um microcosmos poético, das velhas nuas, que não se casam com os três reis magros.
Marco Paulo perdeu os caracóis, quando contactou pela primeira vez, com Paulo, um dos três reis magros que, se não me engano, era o mais velho deles todos. Comia romãs, como quem come dinheiro podre, sem milho, é a isso que se vê reduzido, depois fica de caganeira, por causa dos caroços que ingere.
Odiáxere, o rei magro do meio, tem um caroço no peito, e anda a fazer quimioterapia, sem parar, sem descansar, quer sarar o mal que tem dentro dele, põe bifes sobre o ventre, para alimentar o bicho, depois, também tinha a chatice da diabetes.
A avó do terceiro rei magro, faleceu de icterícia, enquanto encerava os bancos da igreja. Tinha tanto talento, mal empregado não o ter usado na construção do bem. Só via a maldade à sua frente, em toda a gente, via um enviado do demónio, para sodomizar, voava sem parar, e sem cair, sem rede por debaixo do trapézio mágico, que cavalgava, incessantemente. São pessoas de confiança, as que acreditavam nela piamente, quando dizia ver o Diabo, em pessoa.
O Diabo que, ao contrário do que muita gente pensa, se chama só Lúcio, e não Lúcifer; se fosse uma rapariga, seria Luciana, sendo também lésbica, como são todas as Lucianas, e tão lésbicas, como os lábios de uma mulher o podem ser, ao beijar a cona de outra, com força, veementemente, a que diz que não gosta.
Gostam todas de um beijinho no grelo, de vez em quando, de uma mensagem sensual, por telefone ou por fax. Zinaida foi a única gaja que não gostou, que lhe mexessem no grelo.