Urubu Cultural

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sábado, 12 de setembro de 2009

Catolicismo Futebolistico


Era uma manhã de intenso calor em frente à igreja.
Um grupo de crianças corria em alegres brincadeiras enquanto uma delas carregava um largo saco. De dentro do mesmo retirou uma cabeça humana de uma freira.
Iniciaram então um jogo de futebol com a cabeça da religiosa. O padre da paróquia alertado pela diversão surgiu à porta e inquiriu:
-Olá meninos, posso jogar?
-Não - responderam em uníssono.
-Vá lá, deixem lá! Posso ir à baliza?
-Vá tomar no rabo, senhor prior!
O homem olhou o seu relógio de bolso.
-Ainda não são um quarto para o meio-dia!
Os miúdos prosseguiram as tropelias e a intensa partida de futebol, pontapeando a cabeça da freira Judite até que a mesma rebentou nas paredes brancas da fachada da igreja.
O padre Barrabás acenou a cabeça, aborrecido.
-Lindo serviço, agora quem é que vai pintar a parede?
-Vá tomar no rabo, prior!- repetiram.
-Já lhes disse que não são um quarto para o meio dia.
De seguida os miúdos iniciaram nova brincadeira, desta feita com os olhos de um menino invisual, que arrancaram previamente com uma colher.

O Abraço da Serpe Persa

 Em um pequeno e penumbroso quarto, Otília repousa estendida em seu leito de ferro, por entre uma perna distendida e outra dobrada, poder-se-ia vislumbrar a sua negra pentelheira. Na divisão ao lado, seu irmão, assenta em um caderno algumas considerações, para ele pertinentes; quer ser poeta.
 Todas as janelas da habitação estão fechadas, de forma a evitar o enorme calor. Incomodada pelo mesmo, (que apesar de tudo não impede Crashburn de tomar bagaço de má qualidade) acorda Otília: espreguiçando-se felidiamente, senta-se na cama, e com seus pés bem cuidados, de unhas impecavelmente aparadas, procura as chinelas de quarto em pelúcia roxa. O intenso calor que, inoportunamente a despertou, também lhe causa sede. A caminho da cozinha, onde se pretendia refrescar, Otília reparar que o irmão está no quarto, a escrever, finge-se desentendida:
- Que fazes, Crashburn?
- Escrevo e tomo bagaço... - Crashburn respondeu sem levantar a cabeça, ou interromper a escrita.
- Tomas bagaço!!- exclamou Otília, exasperada – Agora todos os dias tomas bagaço, ainda por cima com este calor! Evidentemente queres te matar ...
- Todos os grandes poetas tomaram álcool.
- Mas tu nem sequer és poeta, quanto mais grande!
Crashburn não respondeu à provocação da irmã, continuando o que estava a fazer, esta, porém, tornou:
- O que tu queres realmente, não é ser poeta, mas evitar a realidade, que não suportas.
Crashburn, desta feita, levantou os olhos do caderno, e recitou:
- Dylan Thomas e Fernando Pessoa, só a título de exemplo, pois podia enumerar-te dezenas de outros artistas, que tomavam álcool e/ou outras substâncias inspiradoras.
- Inspiradoras my ass, tal como tu, não conseguiam aceitar a vida como ela é de facto. Não eras assim Crashburn, tinhas planos, fazias projectos, uma vontade imensa de viver, de um dia para o outro, simplesmente desististe de tudo ... - A voz de Otília era assumia agora um tom mais lastimoso, que propriamente de reprovação.
- Eu não desisti Otília, subsisti, na juventude fui subsistindo, os sonhos que tinha, os planos que fazia, não eram mais que uma mera ilusão, que me ajudava a aguentar isto, assim como o bagaço...
- Que idiotice! Pelo menos os sonhos não te matavam! – Otília ira-se de novo.
- Se queres saber a verdade, é o seguinte: apenas me aborreço, é isso mesmo, aborreço-me de fazer planos, projectos, aborreço-me de beber bagaço, vinho tinto, e tudo uma enorme maçada. Aborreço-me de tudo!
Ante esta declaração, Otília perdeu a pouca calma que lhe restava, agarrou com firmeza a maçaneta da porta do quarto do irmão, e fechou a mesma com enorme violência, provocando um grande estrondo que pôs um ponto final ao diálogo.
 Já na casa de banho, Otília abriu a torneira da bacia e refrescou as fontes, que tinham entrado em ebulição, após a altercação com o irmão. Decidiu por fim voltar ao quarto. Ao passar em frente à porta do quarto do irmão, percebeu que este ainda escrevia, devido ao arranhar do aparo da caneta no papel; apesar do calor, não se prestara sequer a abrir a porta. Um misto de irritação e desprezo, atravessou num arrepio o corpo de Otília: «Deixá-lo, não me vai arrastar com ele...».
 Numa atitude que a priori pode parecer confusa, Otília fechou também ela a porta do seu quarto. Deitada na cama, cobriu-se com o lençol de algodão. Pretendia entregar-se ao seu mais caro e secreto prazer. Começando por, languidamente, acariciar a sua vasta pentelheira negra, que como um imenso silvado, crescia em todas as direcções, com os dedos ia-a desembaraçando, pouco a pouco... Procurava uma imagem com que fantasiar, geralmente recorria à homossexualidade feminina, era de longe o que mais lhe satisfazia; porém, não se julgue com isto, que Otília era adepta do safismo, pelo contrário, apreciava bastante o convívio masculino, embora nunca tivesse mantido qualquer relação sexual, em parte devido a uma inexplicável repugnância pelo falo masculino erecto. Tivera alguns namorados. De seios tumefactos, os seus dedos procuravam agora o ansioso clitóris enrubescido.
 Crashbum, na venda, tomava mais bagaço e via andorinhas a voar, via andorinhas a falar, um falo de apara-lápis que voa sem parar, para a boca de um padre, de sotaina verde, sem pecar, continua emborcar, oh viagem maravilhosa. Sumo de uva escorre-lhe da boca, como sangue dos olhos de uma Virgem. Viva imagem do que é miséria humana, a miserável condição humana, a escarreta do universo, evolução embriagada, estagnada, que Crashburn não entendia nem sequer metade, que digo eu? Um quinto... na melhor das hipóteses. Oh delírio!, que doce refúgio me saíste... E o abraço do quente bagaço.
 Crashburn tinha um saco cheio de ossos italianos, e em breve viria a se corresponder com uma artista pornográfica, que tinha muito jeito para escrever, vai aqui o excerto dum excerto, que Jaquelina F. enviou ao seu correspondente, de Paris, tirado de um livro de versos, que recentemente editara:
"Telefones a tocar impedem-me de perceber o que na realidade se passa, um dragão com cabeça de telefone baba-se em cima de mim, uma baba ou ranho muito viscoso, parecendo do Kosovo. Poder-se-ia supor que deliro, pelo contrário, transpiro, mas transpiro de tal forma, que parece que choro num canteiro, sem flores de batatas-doces repletas de cicatrizes. Fornecem-me directrizes, para o que será o próximo assalto a lua sem espada, querem que me defenda à pedrada, sem espada? Defende-te com a televisão. Esta à mão? Esta ao pé, há que fazê-la passar do pé para a mão, como um malabarista do circo, que vomita entradas para o cinema cinético, numa atitude claramente desvantajosa para a sua profissão, pois que afasta os adeptos circenses, cansados de verem sempre os mesmos tigres a sofrer, semanas sem comer pipocas, que é que rima com pipocas? Trocas, trocas de casais, era o que fariam os artistas de circo, se tivessem autorização do Hictor Vugo Numerali, que é um fascista de primeira apanha. Certa vez conheci velhinho que fazia colecção de fascistas, se lhe davam um ditador comunista para a colecção, aceitava-o educadamente, atirando-o depois para o lixo, tinha aquela fixação dele, pronto! Só gostava mesmo era dos fascistas; que me lembre ainda não tinha o referido director de circo, que por estas alturas escrevia num penico. Mas voltando à vaca fria, o velhinho tinha uma vasta colecção, como me foi dado a ver, porém faltava-lhe qualidade, imaginem os amigos, senhoras e senhores, que o fascista mais famoso que o velhinho Alberto tinha, era o Salazar!! Que nem fascista soube ser como deve ser, demasiado beato e apagadiço, faz mais lembrar urna velha que um ditador."
Crashburn, com o entendimento demasiado embotado pelos efeitos do álcool, já não podia ler mais. Montou-se na sua bicicleta com pedais, e despediu-se nestes termos da mulher do taberneiro, que tinha nascido em fevereiro: «Encontrar-nos-emos no Inferno...». Pôs o capacete e foi para casa.
 Na casinha de banho, Otília tinha tomado uma resolução fatal como o destino. «Que desatino!» exclamou Crashbum, ao não conseguir enfiar a chave no orifício da fechadura: (Crashburn não tinha tido muitas oportunidades, de enfiar o que quer que fosse, em orifícios alguns) «Há falta de uma realidade melhor, e assaltado por tédio galopante, inventar-se-ão novas, apesar de circunscritas à imaginação e credos humanos ...». Quando Crashburn por fim lá entrou em casa, foi ver televisão, estava na hora do: Big Show Sic, I'm so sick. Procurou a fala com a sua irmã, que lavava a loiça:
- Otília, não estou alcoolizado, mas o mundo esta tão cheio de sexualidade, que aborrece viver...
Otília, apesar do aviso que o irmão tinha feito, em relação à influência da sua droga de eleição, julgou-o ainda bêbedo, porém considerou que o que dissera, não era totalmente desprovido de sentido, o que Crashburn disse, foi efectivamente sentido, por isso tornou:
- Poderá um velhote ainda dar um confeito a uma criança, sem ser rotulado de pervertido sexual?
Otília começou a chorar.

Atropela os peregrinos

 Sempre que estou a dormir ou a desenhar, há uma voz que surge, e me diz: «Vai atropelar peregrinos.».
 Sucedeu-me pela primeira vez, este curioso e estranho fenómeno, certa ocasião em que visionava o telenoticiário, e durante o cujo, exibiram uma peça sobre uma importante romaria. Nesse fatídico dia, e assim que a reportagem terminou, vi-me de imediato mergulhado num profundo coma, que no espaço de três longos dias, me manteve tremendamente agrilhoado, à treva obscura da inconsciência. Terminado este, reparei com alguma repugnância, que estava completamente envolto nas minhas excrescências fisiológicas: ensopado em suor e urina, bem como borrado nos truces e até mesmo nas calças, que certa vez devo ter mesmo estado de soltura.
 Não encontrando explicação aparente para o que me havia acontecido, decidi terminantemente esquecer o caso, e tomando banho, arranjei-me para ir matar alguns gatos à cacetada; percorrendo inúmeras vielas e azinhagas, consegui apenas jogar o cassete de rodeio, nunca satisfazendo completamente os meus intentos, de eliminar um felino sequer. Desiludido, tornei a casa, onde sobre a mesa da sala, após desviar a jarra com jarros, e o naperon, onde em cima do qual esta se posicionava, para uma ponta da mesma, dispus o meu completo estojo de desenho: um bloco de papel tamanho A3, variados lápis de carvão e um pequeno canivete para proceder, quando necessário, à afiação dos mesmos. Assim que fiz o primeiro traço na alva folha, paralisou-se-me de imediato o braço, devido ao cagaço que apanhei, com ter ouvido novamente a voz, a me dizer: «Vai atropelar peregrinos.»; julgando que iria entrar novamente em transe, durante mais três dias, e que acordaria em semelhantes condições de higiene, como na primeira vez, deixei rapidamente o material de desenho, e afastei-me da mesa. Automaticamente a voz cessou, tomado de pânico, decidi preparar um gin com água tónica schwepp's, para me acalmar. Ao tornar ao desenho, e delinear nova linha, voltou a tartárea voz: «Vai atropelar peregrinos.». Deduzi que a prática do desenho a lápis de carvão, vá-se lá saber porquê, estimulava o aparecimento da voz. Bani completamente este passatempo, da minha lista de interesses.
 Decorreu o resto do dia sem sobressaltos, até que finalmente se fez noite: lavei os dentes e os pés, vesti o pijama, e ao pousar o crânio, de modo relaxado, no travesseiro, reapareceu, incisiva qual magnífica dor de dentes, a maligna voz: «Vai atropelas peregrinos.». A partir daqui, já se sabe que não consegui pregar olho, durante toda a noite, nesta e nas que se seguiram, até ao término da romaria.
 Não associando de todo, ao princípio da enfermidade, o facto da duração das romarias e a minha nova condição - chamemo-lhe patológica - serem duais, ao ler, com dois dias de antecedência, num vespertino periódico hebdomadário, um artigo, acerca da realização de uma nova romaria: desta feita em homenagem a Nossa Senhora dos Aleijadinhos Pobrezinhos, por analogia com a primeira situação em que entrei em coma, percebi que talvez a causa que despoletava esta curiosa manifestação, fosse o início das romarias, e o subsequente fim destas, seria também quando a voz, me incitando ao atropelo de peregrinos, cessasse de surgir, ao desenhar e dormir. Foi tal e qual como na minha suposição!, o início da dita romaria, lançou-me novamente em três dias de tenebrosidade, que me fizeram despertar, precisamente, nas mesmas parcas condições de higiene, que na primeira ocorrência. Seguidamente, sobreveio uma semana de martírio, sem desenhar ou dormir, (se fosse arquitecto, não poderia ter trabalhado) até que a romaria teve fim e voltei a ter paz.
 Paz de pouca dura, como o sol por vezes, pois no dia treze de maio, ainda envergando o pijama, ao tranquilamente ingerir fatias douradas regadas com xarope de ácer, como pequeno-almoço, foi transmitido, a quem sintonizava os transístores na Rádio Renascimento àquela hora, que se realizaria, com pompa e circunstância bastantes, nova romaria, seria nesta ocasião, dedicada a Nossa Senhora dos Ceguinhos Marrequinhos. Em terceira, e definitiva, condição de nefando transe, entrei eu mais uma vez, e talvez por ter sido esta a terceira, compreendi finalmente que o atropelo de peregrinos, se ia tornando numa importante componente da minha vida - podendo desta até depender a integridade física e mental da minha pessoa - pois que a incapacidade de dormir durante os dias de romaria, se tornava bastante danosa para o organismo e bem-estar mental.
 À quarta romaria, já tive a clarividência suficiente para reagir, e finalmente me rebelar contra a maldita peste. Munindo o meu fiat uno de: viveres suficientes para uma semana de atropelamento, mantas e o cacete de matar gatos; decidi partir em busca do meu primeiro peregrino. Informando-me nas estações de serviço por que passava, consegui descobrir uma rota de peregrinação e aí esperei, ouvindo música folclórica, de janelas abertas, como o ladino crocodilo submerso, aguarda o sequioso gnú. Passada uma hora, e consideravelmente atordoado pela intensa canícula que se verificava, quase a dormir, ouvi, de repente, um alegre vozear mesmo ao pé da janela do meu carro, era um casal de peregrinos de meia-idade, que me desejava boa-tarde, e que se dirigia devotadamente para o santuário de Nossa Senhora dos Desgraçadinhos Estropiadinhos. Vendo ali uma excelente oportunidade para encetar o atropelo de peregrinos, reflecti durante alguns minutos acerca da melhor forma de o fazer: decidindo por fim, começar pelo marido, sendo que este, mais gordo e possante, no caso de atropelar primeiramente a sua esposa, me poderia partir os
vidros do automóvel com o auxílio do seu bordão, ao inverter a marcha do carro, e seguidamente me capturar e espancar violentamente. Assim aconteceu: partindo duma distância que considerei a ideal para dar uma boa porrada no peregrino macho, acelerei a fundo, até embater violentamente contra as pernas do mesmo e o projectar para a valeta, onde aterrou, inconsciente. Visivelmente atemorizada, a mulher do peregrino correu para onde jazia o corpo inerte deste, talvez na vã tentativa de lhe prestar socorro, ou avaliar o estado da sua condição física; determinado a terminar a tarefa que começara, optei por não atropelar a peregrina, visto se encontrar esta demasiado perto da valeta de escoamento de águas, e com o receio de não travar a tempo, ainda poderia me enfeixar contra a mesma, e partir a direcção do carro, fatalidade que se revelaria bastante danosa, pois o meu automóvel é o único meio com que posso contar, para me evadir rapidamente do local de atropelamento; não referindo as despesas de arranjo, que só no pára-choques já vou ter de gastar um dinheirão, para poder reparar a amolgadela que o peregrino fez. Agarrando no cacete de matar gatos, corri rapidamente para a mulher, aplicando-lhe uma valente bordoada na nuca, que penso eu, a aniquilou de imediato, seguidamente voltei para a minha viatura, abandonando o local a toda a brida.
 Considerando este acontecimento, do seguro e inexpugnável baluarte que é o futuro, torna-se impossível não o definir simplesmente como burlesco, agora um atropelador experimentado, recordar este episódio é, para mim, apenas mais um divertido exercício de humor. Hoje em dia permito-me ao luxo de, por exemplo: num grupo de alguns peregrinos, atropelar só um, e ficar à espera, para apreciar a reacção dos restantes, de semblante carregado de indignação, punho raivosamente erguido no ar, tentando me atingir a viatura com paus e pedras. É quando faço marcha à ré, e atropelo outro...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sem Titulo


Certo dia vi um cavalo deitado numa cama de hospital.
Estava irritado e com razão, pois seus cascos impediam-no de premir a campainha e chamar uma auxiliar para o ajudar a urinar. Era amputado, pobre diabo. Já não poderia participar na prova de hipismo de domingo.
A seu lado, numa cama jazia o seu jockey. De barriga aberta, como um porco; voavam moscas que batiam palmas de luvas esterilizadas. Estava morto, mas continuava a sorrir.
O cavalo estava aflito e ninguém lhe valia. Terminou por tentar usar o urinol e assim o fez. Mijou mais pareciam raios de Sol, o cavalo Luciano, internado na ortopedia de D.Maria.
Quando a auxiliar chegou, assim determinou: "Não tinha autorização para urinar, era tempo de proceder a um clister"- e chamou o cantor que lhe enfiou uma flauta no cú.
E assim era Terça-Feira, na Ortopedia.

O idiotismo de Putilde, ou o sofrimento de Maurício

Era uma vez, há não muito tempo atrás, uma família disfuncional. Era constituída: pelo pai, que garantia os rendimentos, pela avó paterna, responsável pelas tarefas domésticas, por Putilde, uma jovem idiota de catorze anos de idade e por Maurício, irmão três anos mais velho, entrevado graças à brucelose, e sem mãe.
Viviam nos arrabaldes de uma cidade de mediana dimensão, onde esta termina e o campo começa. Numa casa outrora bastante distante da urbe, mas que, com a expansão extra muralhas desta, gradualmente se foi aproximando, não ficando a mais de três ou quatro quilómetros. Era a habitação demasiado humilde e singela: telha de barro vã, grossas paredes de taipa com contra-fortes e janelas carunchosas, assim como, podres da humidade; embora pobre, porém, era algo espaçosa, contando com: três quartos, uma cozinha com uma pequena despensa e uma casa de jantar.
Todos os dias, e ainda mesmo antes do sol nascer, partia o patriarca para a sua labuta diária: o amanho de uma pequena parcela de terreno arrendado, garante do sustento de todos, onde Ilídio trazia umas couves, batatas brancas e, onde inclusivamente, também tinha algumas árvores de fruto. Pela hora do almoço, partiam a avó e Putilde de casa, a levar esta refeição a Ilídio, que comia mesmo na horta, para não perder tempo na deslocação.
Foi uma vez mais, sem suspeitarem absolutamente de nada extraordinário, que avó e neta abalaram de casa, munidas do almocinho de cortiça contendo a refeição e, meia garrafa de vinho. A caminhada pelo costumeiro caminho de cabras, tomou-lhes os invariáveis trinta minutos quotidianos, entre o monte e a horta. Contudo, quando lá chegadas, depararam-se com o que não era de todo usual: Ilídio rodopiava, ao sabor da leve brisa que soprava, pendurado pelo pescoço a uma robusta pernada, de um grande pinheiro-manso, qual títere inanimado. Sua face, assumira já um tom arroxeado, indiciando que se havia enforcado logo pela manhã. Confrontada com esta funestíssima visão, Deonilde perdeu, acto contínuo, o equilíbrio, turvando-se-lhe também, as duas vistas; apoiando-se em Putilde, que a fitava com o olho algo estrábico e esgar sorridente estampado na cara, não aguentou por muito mais, acabando por cair por terra, debalde murmurou ainda alguns monossílabos à neta, que manteve sua habitual expressão zote. Morreu a trinta de Junho, Deonilde Carrascalinho.
Putilde ainda por ali ficou alguns minutos, (onde seu pai se enforcara e sua avó fenecera, com uma trombose) de garrafa na mão, olhando em derredor a natureza, escutando o mavioso chilreio dos passarinhos, observando como o tépido zéfiro penteador, acariciava as copas dos imponentes pinheiros, as doiradas coirelas de trigo oscilante, as carochas escalando os torrões, enfim, todo o seu mundo, a totalidade do que conhecia, não compreendendo o porquê, do pai estar pendurado numa árvore, e a avó inanimada no chão. Ao cabo de um quarto de hora de contemplação, e devido a um qualquer misterioso desígnio, resolveu tornar a casa.
Maurício, que aguardava, como em todas as tardes, pacientemente deitado na cama, pela chegada da avó, pois era a quem devia sua parca higiene e alimentação, inquietava-se com o decorrer do tempo. À hora crepuscular, já um enorme turbilhão de nefastas ideias, sobre o que poderia ter sucedido à sua família, lhe dominava o espírito, mergulhando-o num estado de premente ansiedade; como se não bastassem os nervos alterados, uma forte necessidade de defecar, fez com que toda esta situação, culminasse em enorme terror e choro descontrolado.
Encontrando-se Maurício, já muito próximo da lipotimia, quando escutou, vindo da cozinha, um entrechocar de tachos ou panelas, tomando um pouco de ânimo, perguntou:
- Avó? É a avó que está aí?
Não obtendo qualquer tipo de resposta, resolveu aguardar uns segundos, até que tornou:
- Pai, é o senhor?
Sem conseguir mais uma vez resposta, e batalhando herculeamente com o seu esfíncter, Maurício lembrou-se que só poderia ser Putilde, que por ali andava. Não se enganava, era mesmo sua irmã, que depois de ter abandonado os cadáveres de seus familiares, andara deambulando, de garrafa de vinho na mão, pelo campo fora, retornando agora somente a casa, com o escurecer, motivada pela fome.
Era essa necessidade que Putilde tentava satisfazer, quando despertou a atenção de Maurício, fazendo com que este, chamasse pela avó, pelo pai, e agora, por ela:
- Putilde, ajuda o mano, o mano precisa de fazer cocó, Putilde! – bradou o mancebo
A rapariga emitiu um gemido, ao reconhecer o seu nome, porém não fez caso, continuando a deambular pela cozinha, em busca de alimento. No quarto, Maurício gritava pela irmão como um louco furioso, sentindo que a sua capacidade para aguentar as fezes, ia progressivamente diminuindo, (podendo-se até estabelecer aqui, um paralelo entre, a incapacidade de reter as matérias fecais, e o aumento do desespero). Por sua vez, Putilde continuava, com grande afã, a tentar reproduzir as tarefas, que tanta vez vira sua avó executar: batia com o colherão de pau no fundo do caldeirão, punha lenha debaixo deste, fazia enormes cortes no tampo da mesa, com toda a sua força. Acompanhava todo este ritual, com enormes gritos, intervalados por gemidos imperceptíveis, que cada vez mais enfureciam Maurício, resistindo estoicamente aos seus intestinos. Culminou toda esta situação, com o crescente delírio de Putilde, agora batendo em tudo o conteúdo da cozinha, partindo canecas, amolgando tachos, num frenesi que, no seu auge, a obrigou a se deitar no chão, quase apopléctica, sem forças e arfando. No exacto momento, em que se fez silêncio na cozinha, Maurício deixou de conseguir conter as suas fezes, acabando por obrar na cama, engasgado de vergonha e inépcia, sujou a camisa de dormir e o lençol (o colchão não tinha resguardo).

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Queixa Crime- Um conto de Páscoa


Era domingo de Páscoa. Por volta das oito e quinze horas da noite, um homem entrou no departamento da polícia judiciária da cidade.
Era alto e magro, de longos cabelos castanho escuro, de farta barba por aparar; envergava um comprido manto acinzentado e chinelos havaianas vermelhos.
A rua estava vazia, uma ou outra pessoa povoava os cafés, de resto tudo calmo e desértico.
O homem entrou no departamento de investigação da PJ, não viu ninguém, aproximou-se do balcão principal, havia uma pequena campainha pousada sobre a bancada.
-Boa noite, está aí alguém?- inquiriu, elevando a voz ligeiramente.
Ao fundo de um corredor, uma voz fez-se ouvir.
-Só um minuto por favor.
Ora muito boa noite, em que posso ajudar?- questionou o simpático inspector da PJ.
-Queria fazer uma queixa crime por favor.
-Com certeza, dê-me só um segundo para procurar os impressos. Aqui estão eles.
Nome por favor?
-Jesus N. Cristo.
-Jesus… N. Cristo- repetiu enquanto apontava os dados do indivíduo no impresso.- N é de quê?
-Nelo.
-Ora então… Jesus Nelo Cristo. Idade?
-Desculpe, mas se não houver problema preferiria que ficasse Jesus N ponto Cristo. Como há-de convir Nelo não é um nome muito credível para um Messias.
-Concordo. E qual é a queixa que o senhor gostaria de apresentar?
-Gostaria de fazer queixa de uns romanos. Capturaram-me, apedrejaram-me, chicotearam-me e não satisfeitos por fim crucificaram-me, pregando-me a uma cruz de madeira.
O inspector parou por momentos, pousou a caneta na bancada, ponderou cautelosamente, fez um breve aceno com a cabeça em tom negativo e concluiu:
-Eu entendo perfeitamente a sua situação e solidarizo-me com o que o senhor passou. A questão é que…
- O que se passa?- interrompeu algo enervado e preocupado.
-Sabe… o problema é que o crime prescreveu.. vai ser muito complicado julgar e condenar os ditos meliantes.
-Mas eu tenho provas do ocorrido, aliás bem vincada na carne. Ora veja.
O homem retirou a túnica, mostrando as costas desnudas, local onde tinha vários indicios de chicotadas.
-Meu caro amigo, vai-me desculpar, mas isso está praticamente cicatrizado.
-Veja os meus pulsos, ainda aqui tenho as marcas dos pregos cravejados…
E aqui, está a ver…- apontando para um sobrolho- …aqui acertaram-me com uma pedrada na testa.
-Eu sei do seu caso, mas como lhe disse as feridas mal se notam, estão praticamente cicatrizadas. E será muito complicado encontrar os romanos que lhe fizeram esse serviço.
-Mas o seu trabalho não é registar a ocorrência e investigar o caso?
- Meu amigo eu já lhe disse que é complicado encontrar romanos nesta cidade. No máximo encontro-lhe ciganos, mas esses não aconselho a fazer queixa, que eles juntam-se muitos e dão-lhe cabo do canastro.
Anda aí uma seita dessa gente, ainda há dias assaltaram um rapazinho muito pequenino e indefeso, roubaram-lhe o telemóvel, coitadito.
-Oh diabo!- exclamou o sr. Cristo.
- Bem pode dizê-lo, isto anda terrível. Mas voltando ao seu caso, já se passaram tantos anos homem, mais de dois mil, não acha que deveria relevar? Afinal você ressuscitou e tudo. Acho que nem é para tanto.
- Quer então dizer que não quer registar a ocorrência e investigar o caso?
- Ó homem, realmente… Pronto, eu já lhe disse que será dificil encontrar e condenar os romanos, mas insiste. Vamos lá a tomar nota.
Quantos homens é que o agrediram?
- Não sei ao certo, eram muitos, uns quinze.
- Que roupas usavam no dia do crime?
- Aaah…- hesitante.-… Armadura, capacetes e espadas. E alguns iam a cavalo.
-Hummm, isso já deve reduzir em muito a lista de suspeitos- ironizou.

Carga Dramática!


- Bom dia. Gostaria de me candidatar a um subsídio e a uma bolsa de estudo.
- Bom dia, caro senhor. Veio a saltitar assim até aqui?
- Sim. Confesso que estou um pouco cansado.
- Sente-se.
-Obrigado.
- Ora, portanto… vejamos, vou preencher os documentos. As suas deficiências são as que estão… evidentes?
- Sim.
- Ora deixe-me cá ver. Só tem uma pernoca…. Amputado da direita… e… dois braços?
-Sim, tenho os dois braços. Não tenho mão no braço esquerdo. Nem sequer punho.
- Ausência de perna direita e mão esquerda… e punho esquerdo.
- Algum problema?
- O senhor é aleijadinho de nascença ou acidente?
- Nasci com malformações congénitas.
- Lamento meu caro, mas não lhe posso atribuir subsídio algum, nem tão pouco bolsa de estudo.
- Como assim? Porquê?
- Não tem carga dramática.
- Carga dramática? Não estou a compreendê-lo. Que quer dizer com isso?
- Carga dramática, meu caro. O seu estado de aleijadinho/coitadinho não é precedido de carga dramática.
Ou seja não foi uma terrível tragédia de índole gravosa que o deixou assim. Não teve nenhum acidente nefasto que lhe furtou a um futuro radioso. Não foi atropelado, não teve um acidente de automóvel, não caiu de um andar nem foi violentamente agredido por seis ou mais meliantes.
- Nasci assim. Mas não tenho posses e preciso de algum auxílio financeiro.
- Lamento, mas não é possível. Já nasceu… assim… não há muito a esperar. Já de raiz não se esperava muito de si, caro senhor. Ainda por cima entra-me aqui pelo próprio pé. Uma cadeirinha de rodas ajudá-lo-ia imenso. Sabe que a cadeira lhe daria pontos adicionais.
Lamento.
- Mas bem viu que não tenho uma perna. Entrei aqui aos saltinhos.
- Mas não estava de cadeira de rodas. Consegue caminhar, se não o fizesse quem sabe… nem sequer tem incontinência, nem tem o saquinho de urina, não se baba, fala fluentemente. Desculpe, mas não é possível.
- E agora que é que eu faço?
- A única coisa que me ocorre seria uma tragédia pessoal. Quem sabe um acidente de carro ou com qualquer outro meio de transporte.
- Ou seja teria de acentuar as minhas maleitas físicas com algo de carácter trágico?
- Ora aí está! Carga dramática!
- Estou a entender. Muito obrigado pela atenção. Tenha um bom dia.
- Bom dia!

11 MESES DEPOIS…

- Bom dia. Gostaria de me candidatar a um subsídio e a uma bolsa de estudo.
- Ora muito bom dia! Espere, estou a reconhecê-lo. Já cá esteve, não esteve? Na altura estava em clara infracção para a obtenção de subsídio e bolsa. O que o trás por cá?
- Exacto. Entretanto tive um acidente de viação.
- Lamento, meu caro. Esta vida… só nos trás desgostos. A estrada é um perigo! Ahhh… bem vejo, sim senhor. Muito bem! Noto que está em pior estado que da outra vez. Efeitos do acidente, presumo.
- Exacto!
- Ora vamos lá a ver! Cadeira de rodas... Sim senhor, muito bem! E a pernoca que tinha?
- Esmagada no acidente.
- Uiii homem! E que tem no rosto?
- Embati no tablier e quebrei o nariz. Perdi um olho no desastre.
- Ai homem, realmente! Que caso o seu! Lamentável. Uma tragédia! Bom… Parece que tem os requisitos necessários e exigidos para obtenção de vários subsídios e uma bolsa de estudo. E já agora, permita-me ofertar-lhe esta magnífica cadeira de rodas eléctrica, confortável e topo de gama para que possa deambular
com maior segurança e conforto.
- Muito obrigado.
- Não tem nada que agradecer. Estamos aqui para isso. A vida pode ser uma desgraça pegada, mas há que ter algum gosto nas coisas, não é mesmo? Ora muito bem! Tenha um bom dia.
- Obrigado, bom dia.