Urubu Cultural

Urubu Cultural

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Telefonema para a Morte


Olá, olá… olá…
É da casa da morte?
-Ela não está.
Quer deixar recado?
-Há dias que a aguardo e ela nada…
Nem um telefonema.
Não é conduta digna de uma identidade estatal…
Comprei a minha extinção há seis meses.
Que desrespeito.
-Já disse que não está.
Quer deixar recado?
-Vá-se foder e seus sofismas de merda. Simpatia meta-a no rego do cú.
-Quer deixar recado ou não? Tenho uma encomenda para receber. Uns tapetes de Arraiolos lindos…
-Arraiolos? - Sim. Arraiolos.
-De que cor? - O que isso lhe interessa? Acabou de me ofender.
-Desculpe, não foi por mal, a sua patroa tira-me do sério. Onde é que ela foi?
-Foi comprar uma foice nova e fazer implantes mamários.
-Será que ela as mostra antes de extirpar os clientes?
-Mostrar o quê?
- As mamas, ora essa.
-Quer que pergunte?
-Deixe estar.
-Tenho os tapetes a chegar. Decida-se, quer deixar recado ou não?

Entrevista a Nicolau Joaquim

- À lareira ou entre os lençóis?
- Em todo o sítio.

- Onde é bom namorar?
- Prefiro entre os lençóis.

- O que se faz numa tarde de Outono?
- Ando com os meus filhos ao colo.

- E numa noite de Inverno?
- Limpa-se o jardim.

- Castanhas assadas, ou marmelos cozidos?
- Água-pé, sempre.

- Água-pé, ou água com gás?
- Depois de uma bela “castanholada”, vai sempre uma “marmonholada”

- Se o pai natal existisse oferecia-me…
- O meu amor de Verão já dura há doze estações.

- Os amores de Verão só duram a estação?
- Aquilo que já me deu até hoje.

- Quem convidava para ir à vindima?
- O presidente da república.

- E quem deixava a gelar à porta de casa?
- Os meus pais.

- Casacos de pele verdadeira, sintéticos ou imitações?
- Cozido à Portuguesa, apesar de gostar muito de sushi.

- Cozido à Portuguesa ou sushi?
- Imitações.

- Quem enfiava no seu edredão?
- O presidente da república.

- E quem mandava para o pólo-norte, com uma passagem só de ida?
- Os meus filhos.

- Ainda tem férias este ano?
- Ainda não decidi.

- Onde vai passá-las?
- Forçadas.

- Se descobrisse um mirone na praia, o que lhe fazia?
- Em pêlo.

- Cinto de ligas ou pijama?
- Perguntava-lhe para onde estava a olhar… talvez valesse a pena.

- Bronze na neve ou numa ilha tropical?
- Sempre preferi as quintas.

- Quinta das celebridades ou Ídolos?
- Bronze numa ilha açoriana.

- Fernanda Serrano ou Bárbara Guimarães?
- São os dois “espectacolares”!

- José Castelo-Branco ou Paulo Portas?
- As duas, claro!

- Quem me dera…
- Recolha.

- Outono é…
- Voltar à Gardunha.

Viver

O meu fígado está um deserto, árido e negro como os meus bofes. Todas as minhas entranhas estão secas. Para inverter esta tendência nefasta, a mulher dá à luz. Ao homem, é lhe mais difícil, o homem só consegue travar o processo, no imediato instante antes de cair por terra, atingido por um projéctil, na mais sangrenta guerra.

Vinte e seis de Maio, de mil novecentos e noventa e seis

Os receios de que o meu costumeiro lugar no café, (não sou costureiro) estivesse tomado, depressa passaram, ao constatar, pela montra do mesmo, que aquele estava vago. Hoje é um dia particularmente atreito para fumar cigarrilhas.
Há vida no café, ecoam gargalhadas, as pessoas sorriem em demasia. Sentei-me mesmo por detrás de duas irmãs, que correspondem perfeitamente aos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade. É tão certo chegar a conviver com elas, como é certo não cortar a picha da viúva na mesa ao lado.
Ambas usam blusas que me permitem visionar-lhes uma secção das espáduas. Lanço olhares furtivos, na tentativa de vislumbrar a roupa interior que trazem. Quererei mesmo ver-lhes as cuecas, ou é assim que me devo comportar?? Julgo que a irmã mais velha não traz cuecas, pois ao se agachar, para recolher uma moeda, por acidente caída no chão, observo-lhe a regateira do cú belo.
O meu chá atingiu a cor dourada devida, pelo que procedo à sua ingestão; uma punk com sida, exclama para os seus companheiros:
- Já estou melhor...
Já está melhor com certeza, da sua adição às drogas. Acende-se outra cigarrilha, para me acalmar os nervos, em pilha.
A minha atenção volta-se para a mesa de Hilário sem colhões, está com outro indivíduo e com mais dois elementos do sexo oposto ao dele; estas não preenchem os requisitos mínimos de beleza sociais, ao contrário das duas irmãs atrás referidas, que estudam psicologia clínica. O chá ainda está algo quente, pelo que suspendo a sua ingestão.
As restantes mesas encontram-se preenchidas por forasteiros sem qualquer interesse. O meu olhar vicioso, detém-se em uma rapariga de blusa de lã, tingida de verde e cabelos compridos, não sei se é bela, pois está de costas para a posição em que me encontro. No exterior, uma buzina estridente soa muito alto, de salto alto está também a rapariga de camisola verde.

Viagens da pantera

A pantera adorava viajar depressa, como adorava viajar devagar, a sonhar, a divagar. Certo dia, quando era uma gorda com caspa foi avistada a jogar à carta com dois velhos numa venda, sem venda, à venda. «Por amor de Deus.» disse ela, «Deixem-me da mão seus paparazzis dum cabrão», a partir daí nunca mais apareceu em revistas do social, ponto final. Teve um grande desgosto que lhe valeu uma depressão e uma ida ao hospital central do barlavento Algarvio, muito sadio. Foi alimentada só com bolos de doce-fino e bebia amarguinha, que é assim que se tratam as depressões no Algarve, terra muito bonita por sinal; nos casos mais graves administra-se aguardente de medronho, mas isto só a doentes crónicos, que padecem de muitas dores.
A pantera tinha sobretudo dor-de-alma, por ver ao que, a humanidade estava entregue, como caminhava mortalmente para o seu inevitável fim. Era triste de facto, mas resignada como era, nada fez nem nada podia fazer. Certo dia foi aos espíritas, saber se o seu caso tinha solução. Foi atendida por uma velhota muito simpática, que a chorar lhe disse assim:
- Minha filha, tens o Diabo Carlos no corpo...
Impávida e serena, a pantera dirigiu-se ao ministério da educação, onde exigiu que lhe fossem servidas cabeças de peixe em salva de prata. No referido ministério, toda a gente se agarrou uns aos outros e choraram até desvendarem este mistério. Panaceia estranha, para quem anseia um pouco de calma na vida, sem vida.
Era triste vê-la assim deitada no capim a gemer, sem sofrer, quase em coma alcoólico. Quem lhe valeu foi o seu amigo Zé Boga, que a levou a um instituto de recuperação, em que todos os médicos eram cegos de nascença, sem parecença entre si, sem qualquer grau de parentesco que lhes valesse, e impedisse as tentativas de suicídio por demais frequentes.
Eram cegos também para evitar que reconhecessem antigas figuras, e mesmo as recentes, do meio social.
A pantera nunca recuperou totalmente as faculdades, e passou a depender de terceiros.

Um menino chamado Jardim Zoológico

Era uma vez um casal, que tinha um filho, a que decidiram chamar Jardim Zoológico. Jardim Zoológico tinha neuroses de guerra, antes até de nascer; só se lembra de que viu umas luzes, e um grupo que foi até à Madeira, em turismo. No primeiro dia, estava a ser um bocado sedado, até que foi a reuniões, para falar disso. Jardim Zoológico evoluiu, e teve um acidente de avião, andava sempre no mesmo filme, de perfil, para as câmaras de televisão, fazia sorrisos lastimosos, babosos às vezes. Com cinco anos, já tinha placa dentária, e mordia nas crianças deitadas na estrada, mordia os com ferimentos ligeiros, e os que apresentavam risco de vida.

Treze de maio

Apetece-me matar, à facada, com um caco de vidro fosco, a estrangeira, ou as estrangeiras de sessenta e poucos anos, que gargalham na mesa em frente. Suponho que tenham uma cona velha, toda furada. Ao ritmo do rock and roll, despir-lhes-ia as calças, não sem antes lhes descalçar as sandálias de cabedal; depois, muito calmamente, contemplaria as suas cuecas de renda vermelha, (que usam para parecerem jovens) depois contemplaria, num misto de náusea, enjoo e respeito, os seus genitais, a púbis toda rapada (aspecto que, mais uma vez, tem como objectivo, simular a sua graça e juventude perdidas). A guitarra, na aparelhagem do café, solta um som de guitarra rouca, e as velhas estrangeiras riem, e bebem vinho tinto, sem nada respeitarem. À mais velha, gostava de lhe apagar o charuto na testa, para ver se não ria tanto. Tomo um gole de chá, acho-o demasiado quente (estou disposto a fumar todo o meu tabaco).
Só agora reparo que, trazida pela cítara, não é Telma que se senta na mesa ao lado, tudo isso me desaponta, um bocado. As putas estrangeiras, afinal, lambem sangria, como a menstruação que já tiveram. Cheira-me a tabaco de cachimbo, e um homem de brochas nos sapatos, avança para junto da esposa, ao ritmo de música cubana. Cubano é também o meu tabaco.
A maioria dos vícios, no seu expoente máximo, fala latim. Confusão, ondas de confusão invadem-me o cérebro, em convulsões metafísicas. Eis que chegam seis ingleses, a raça mais asquerosa do planeta, que deixou o seu legado aos americanos; como me satisfaria escarrar-lhes na fronte, e vê-los franzir o cenho, amofinados!!!!
Caos e desordem, percorrem-me os nervos em desordem.
Ao balcão está sentado um cigano, com quem cresci, devia-lhe bater com uma tábua, em que um prego ferrugento espetado, se encontrasse.
(Depressa passarei às cigarrilhas)
Ondas de fumo sáfico dançam em volta de mim.
Eis que sou um serafim, sem fim, danço e revolteio-me no chão de papelão, coberto por naperons mágicos, abençoados pelo papa, sua santidade, obra da santíssima trindade. Música ininteligível, embrulha-me os olhos e enxameia-me os ouvidos. Uma prostituta qualquer, que percorre a madrugada fria, diz a um cliente em potência, que por dez euros apenas, não fode.
Cliente – Dou-te vinte e cinco, e vais com sorte.
Puta – Com vinte e cinco, só cona, se quiseres os três pratos sai-te mais caro, querido.
Cliente – A cona basta-me... porém quero-te com as mamas a descoberto...
Puta – Não seja por isso, podes apalpá-las até te fartares querido.
A puta é portuguesa, nacionalidade que vai escasseando, no meio das meretrizes.
Cenário: Estão ambos, puta e cliente, numa pensão, o cliente lava-se na casa de banho, a puta descobre-se no quarto.
Cliente – Estou pronto para foder, mas essa cona pentelhuda e tuas axilas de exagerada pilosidade, indispõem-me.
A puta levanta-se e vai à casa-de-banho, depilar-se. No quarto, o homem mexe na pila.
Cenário: A puta, completamente depilada, surge no quarto, ouve-se música de órgão. A puta, detém o olhar no órgão do cliente.
Puta - Ficas tu, ou fico eu por cima?
Cliente – Eu fico por cima, se Deus me dotou de caralho, foi para foder, e não para ser fodido, como às vezes sou, e mal pago pelo serviço...
Puta – Quem paga é que manda!
Cenário: O cliente, de pé, aguarda que a puta se deite. A puta sorri, deita-se na cama e ajeita a peruca loira, com um sorriso de cariz trocista. Fodem.
Acabado o serviço, o cliente, muito delicadamente, pede à puta para se esporrar nas mamas dela.
Puta – Mais cinco euros, e podes te esporrar onde quiseres.
O cliente paga, e esporra-se na cara da puta.
Cenário: A puta, com a cara coberta de sémen, vai-se lavar na casa-de-banho, veste-se e sai sem se despedir.
Sozinho, o homem chora, nú, deitado em cima da cama, as suas misérias.
Apetece-me uma cigarrilha, apetecem-me várias cigarrilhas. Uma cigarrilha que me é posta na boca por uma cigana, feita às postas (não a cigarrilha, mas a cigana). A minha caneta, provoca-me uma estranha, e ao mesmo tempo, vontade de escrever. A minha caneta azul-escura, é um leme partido; uma bússula sem norte.
Um velho marinheiro, abusa sexualmente de uma pré-adolescente surda-muda, que vage ensurdecedoramente. É o garante da casa. Mil marinheiros, abusam de mil pré-adolescentes surdas-mudas, que se entregam sem lamento. As suas vaginas, túmidas e húmidas, acolhem caralhos de velhos marinheiros. Com tanto amor para dar, e os velhos marujos escolhem precisamente garotas surdas-mudas:
Uma cigarrilha é uma ilha,
uma ilha onde vivem duas mulheres
que se amam, como a uma filha.
Colhem flores, para Ceres.
A definição de amor que nos surge no dicionário, é apenas uma aproximação muito vaga:AMOR – o amor é: duas mulheres que trocam um beijo, sem mais nada, sem sexo; o amor não é algo sem nexo, não é inconcreto. Apenas é preciso ser-se duas mulheres, que trocam carícias sinceras, para se descobrir o amor. É calor, num mamilo túmido.