Urubu Cultural

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Fazer das tripas coração ou uma história com final feliz

 Marlenne S., chamemos-lhe assim, era o arquétipo da jovem-mulher banal: boa rapariga, insonsa, assim-assim, sem sal, cujo único capricho era, os bailes de carnaval (não ia mascarada). Partilhava o sonho comum de todas as assíduas leitoras da revista: Menina e Moça, ser boa mãe e boa cristã; aprendiz de esthéticienne, cria que este ofício, lhe traria um bom amanhã.
 Não deveria ter mais de seis aninhos, e a resposta à invariável pergunta, que se faz a estes anjinhos: «Então o que é que a menina quer ser, quando for crescida?», era imutável: «A Marlenne, quer ser esthéticienne!». Réplica que fazia sorrir os vizinhos, quando de dentro do seu soquete e sandália brancos, bem como de seus folhados vestidinhos, afirmava com convicção, sua pretensão à futura profissão.
 Agora com vinte e cinco anos, apesar dos cabelos doirados, já não fazia sorrir ninguém, ficara com os dentes encavalitados, consequência do uso, demasiado prolongado, da chucha; a feição era também algo assimétrica, sua visagem antónima da estética. Seu diploma de esthéticienne, granjeou-lhe preste um posto laboral no: Salão Esperança, onde passou a arranjar as unhas de toda a vizinhança, e arredores. Nascera para ser esthéticienne, Marlenne.
 Porém, como por vezes acontece na vida, a realização de um grande sonho, não basta para alcançar a felicidade prometida. Marlenne via, sem ponta de inveja, mas com alguma melancolia, que os namorados de todas as suas colegas do salão, as vinham esperar, à hora do serviço largar. Ela nunca havia conhecido esse bem, que é o amor. Quando aos domingos de tarde, tomava chá em casa das amigas, confessava, pesarosa, que também queria namorar, e que em lugar de coração, tinha um gatinho a chorar.
 Certa noite, foi Marlenne a um baile de máscaras com suas companheiras e respectivos namorados, que não iam mascarados. Por haver, cozido de couve ter jantado, sentindo o aparelho digestivo algo embargado, deixou-se ficar de pé, perto de um jovem sentado. Sofrendo por não ter par, quedou-se lassa, vendo suas amigas na pista rodopiar e, como se não bastasse, decidiu seu esfíncter se manifestar, não se contendo, muda flatulência resolveu soltar. Embaraçada por sua incontinência, e podendo o jovem a seu lado, sua bufa vir a cheirar, logo começou a corar. Contudo, situação diversa se veio a verificar, levantando-se o garboso mancebo, convidou-a para dançar.
 De brilhantina no cabelo, fato novo e bigode aparado, fez com que a partir daquele dia, a vida de Marlenne, conhecesse diverso fado. Atacando desde logo o fox-trot que ecoava pelo salão, ao ouvido da rapariga, depois de darem a mão, perguntou o moço:
 - Qual é a sua graça? Se não é indiscrição…
 - Marlenne, com dois enes… - disse com satisfação.
 - Pois eu, chamo-me Douglas Miranda, e digo-lhe que suas bufas, cheiram a lavanda.
Por tão singular galanteio derretida, questionou a moça ao rapaz, o que fazia na vida:
 - Sou perfumista de profissão, e acredite que com mais um peido seu, me roubará o coração!
E assim foi, Marlenne fez-lhe a vontade.
 Trocando alianças no altar, seis meses mais tarde, para gáudio de Douglas, uma bufinha não deixou de dar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A odisseia dos Montgomery

  Alfred Montgomery, ou Fred, como era vulgarmente conhecido, inspeccionava o relatório de acções das suas empresas. Do seu altaneiro posto, que era o seu arranha-céus de escritórios, apreciava a imensidão do seu enorme complexo industrial.
A sua esposa, dona Rosemary Montgomery, havia-lhe recomendado que convidasse a sua secretária, senhorita Minnie, para o jantar de consoada em sua casa. Era já tradição, a família Montgomery reunir-se com a família Johnson, e senhorita Minnie, assim passando uma agradável véspera de Natal, que no fim de contas, é isso que o Natal é, a celebração, em família ou entre amigos, do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo, o Messias.
Alfred Montgomery, fez tudo tal e qual lhe recomendara a esposa. Estávamos a vinte e três de Dezembro e, às sete e meia em ponto, hora a que por fim deixava o escritório, recomendou jovialmente assim à sua secretária:
- Senhorita Minnie, amanhã às oito em minha casa, não se esqueça!
A jovem mulher anuiu, sorridente; ficava muito grata aos Montgomery, visto não ter família, e deste modo poder celebrar a quadra natalícia em companhia. Haviam já cinco anos que assim acontecia.
 Como combinado, às vinte horas em ponto, senhorita Minnie tocava à campainha da mansão Montgomery. De pronto o mordomo Jeeves, a atendeu, tomando-lhe o casaco, e indicando-lhe o livingroom, onde os Johnson já estavam instalados, aguardando os anfitriões. Cumprimentaram-se cordialmente.
 Quando finalmente surgiu dona Rosemary, saudou todos em derredor, de pronto pedindo desculpas pelo atraso do esposo e, de sua filha, menina Bonnie Montgomery. Um quarto de hora depois, quando todos os convidados já tomavam eggnog, apareceu o anfitrião; cumprimentando as visitas, acto contínuo, serviu-se também ele de um pouco de eggnog, recomendando depois a Jeeves, que fosse providenciar o jantar, ordem essa, a que dona Rosemary retorquiu:
- Fred, querido, não queres esperar por Bonnie?
O senhor Montgomery acenou negativamente, de modo algo ríspido, dona Rosemary, por respeito ao marido, nada acrescentou.
 Havia já uma hora que tinham sido servidas as entradas, o mordomo Jeeves, preparava-se agora para trinchar o peru recheado de Natal, e a preocupação no semblante de dona Rosemary, pelo atraso da filha, não passou despercebida a ninguém. Diligente como era, senhorita Minnie ofereceu-se de pronto, para se ir inteirar da integridade física de menina Bonnie.
 Outra hora volveu, e Alfred Montgomery, explodindo de raiva, em parte graças ao álcool que já tinha tomado, em parte pelo desrespeito que a filha demonstrava para com os convidados, ergueu-se num repente da cadeira, encaminhando-se no sentido do quarto da filha. Lá chegado, não ouviu barulho algum, exceptuando um leve rumor, proveniente da casa-de-banho, sem qualquer reserva, abriu a porta de rompante, surpreendendo sua filha Bonnie, com uma mão dentro das calcinhas de senhorita Minnie, enquanto que com a outra, lhe acariciava os seios. Beijavam-se fogosamente, sedentas de um amor proibido.
 Ante este cenário, Alfred Montgomery, deu um grande urro, falecendo de imediato; alertada dona Rosemary, acorreu também ao quarto da filha, vendo o marido estendido no chão, faleceu também, com um grande urro, vieram os Johnson, e faleceram também, bem como todos os criados. Minnie e Bonnie, podiam agora saciar o seu amor, tranquilamente, o resto da noite.