Urubu Cultural

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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Cangalheiro da Dinamarca


 O que outrora fora o cavaleiro da Dinamarca, e viveu as peripécias mundialmente conhecidas: por terras da Palestina, Itália e Flandres; como se sabe, chegou a casa no dia de Natal, graças à ajuda que os anjinhos lhe proporcionaram ao, candidamente, iluminarem o grande abeto fronteiro à sua moradia. Tomou-se ele mesmo, e graças a uma importante revelação nocturna, que o menino Jesus lhe fez, num rico e próspero negociante (em parte também, devido à convivência com o mercador e o banqueiro, em casa de quem ficou hospedado, durante o seu périplo peregrino).
 Disse-lhe o menino Jesus que abatesse o abeto, e partindo da rica madeira que dele obtivesse, construísse caixões e vendesse à população.
 Religioso e temente a deus nosso senhor como era, o Cavaleiro não hesitou, e na manhã seguinte, com o precioso e indispensável auxílio de sua prol, convenientemente munida de aguçados e robustos machados, deitaram abaixo a árvore, que tanto tinha ajudado o Cavaleiro, aquando da sua desorientação no meio da floresta hostil, seviciado pelo cortante gelo invernoso, que o seu, apesar de tudo, grosso capote de peles, não impedia, e atacado por ferozes bestas sedentas de sangue.
 Já detendo os indispensáveis utensílios de carpintaria, que nestas casas de campo sempre os há, para as quotidianas tarefas: da mais corriqueira reparação, ate à laboriosa e intrincada construção de, por exemplo: uma resistente edificação onde abrigar o feno, da chuva e da neve, que na Dinamarca se sabem abundantes no inverno, para a posterior ingestão do gado ovino e bovino.
 Fez o Cavaleiro, agora Cangalheiro, muita fortuna com a negociata dos caixões e posterior organização de funerais, que foi ate aí que o seu negócio se estendeu. Fazia caixões em variadas madeiras, de tudo quanto encontrava nas suas terras, a título de exemplo: tílias, carvalhos, fortes e rijos, pinheiros bravos, enfim, um manancial de tipos de madeira. Para seu benefício, aconteceu que um de seus filhos, de seu nome Edmund, era mestre no que dizia respeito a xilogravura, e ornava lindamente todos os caixões dos velhos burgueses, que antes de morrerem tinham dinheiro para lhe pagar bem. Apesar de tudo, esta vida não era a que mais agradava ao ex-Cavaleiro, amofinando-se com frequência, na rotineira tarefa de cortar árvores. Fazia-o porque o menino Jesus lho tinha dito, nada mais. Diga-se também de passagem, que o Cangalheiro da Dinamarca, até nem era pessoa muito materialista, não dando importância demasiada, ao capital que auferia.
 Sabendo da depressão em que o Cangalheiro da Dinamarca se encontrava, nossa senhora de Fátima, (que como a pescada, antes de o ser, já o era, só ainda não tinha aparecido aos três pastorinhos…) apareceu ao Cangalheiro da Dinamarca em sonhos dizendo-lhe assim, nestes exactos termos:
 - Cangalheiro da Dinamarca, meu bom filho, vai em peregrinação a Portugal, terra de onde provem os heróis cujas façanhas ouviste contar na Flandres, e por lá espalha a doutrina da fé.
 Na manhã subsequente ao sonho, o Cangalheiro da Dinamarca, à mesa do pequeno-almoço, anunciou assim à família:
 - De hoje a um ano, não estarei aqui reunido com vocês, a me alimentar em comunhão, pois que parto para Portugal, terra onde a nossa senhora, que virá a ser de Fátima, me mandou ir pregar, como São João Baptista, um dia no deserto, e não sei se volto.
 Sua mulher e filhinhos, bem como os servos, choraram logo ali lágrimas de espesso sangue, e Edmund foi para a oficina, onde se suicidou com um formão, tanchado nos peitos.
 Não querendo saber destas súplicas, o Cangalheiro da Dinamarca arreou a sua besta cavalar, e deu início a mais uma longa jornada, como era seu apanágio. Só parava para dormir e dar cevada ao cavalo. Levou seis meses de viagem, que correu sem percalços dignos de nota.
 Chegado finalmente a Portugal, espantou-se muito o Cangalheiro da Dinamarca com a falta de asseio e educação destas gentes, que escarravam para o chão, e cujas ruas eram uma imundície autêntica. O Cangalheiro da Dinamarca viu como nossa senhora, que estava para ser de Fátima, uns séculos mais tarde, tinha razão, no que dizia respeito a evangelizar estes gentios.
 Debateu-se logo com um gordo frade, em Serpa, terra que conheceu ao cruzar a fronteira, de seu nome Ladislau Breyner, este homem comia muitos doces conventuais, arrotava e peidava-se constantemente, sem cessar, até vomitar. Tentou em vão, o Cangalheiro da Dinamarca educar esta alimária, mas falhou. Entre peidos e arrotos, este falou-lhe de uma linda terra que era Lagos, no Algarve, um bocadinho mais abaixo do Alentejo, de onde partiam as caravelas das expedições Portuguesas ultramarinas. Ora o Cangalheiro interessava-se muito por isto, e não apreciando de todo a convivência com o frade.
 Chegado a Lagos, admirou muito: as praias, o sol e o marisco; as pessoas continuavam a ser pouco higiénicas como no Alentejo, mas esse até era um mal menor. Decidiu o Cangalheiro da Dinamarca começar a sua pregação de bons-costumes, exactamente em Lagos; o clima ameno, e aprazível, foi um factor determinante nesta muito ponderada decisão.
 Hospedou-se em casa da Dona Aninhas, mulher solteira e muito beata, que vendo assim um homem alto e loiro, lhe disse que não precisava de pagar renda, desde que fosse bom cristão e não provocasse desordem. O Cangalheiro e a Dona Aninhas, forjaram logo ali uma amizade que ia durar décadas.
 A Dona Aninhas, apesar da sua inquestionável seriedade, e inquestionável idoneidade, fazia tudo para agradar ao Cangalheiro da Dinamarca, fazia-lhe bons petiscos, que o via comer com garbo e regalo, entre eles: papas com condelipas etc...
 Certo dia, a Dona Aninhas interessou-se por conhecer o nome do Cangalheiro da Dinamarca, e disse-lhe assim:
 - Qual é a graça de vossa excelência?
O Cangalheiro, que já arranhava um bocadinho o Português, respondeu:
 - Lars Vintenberg, minha senhora...
 - Ah, muito bem, tem um lindo nome, está visto...
 Com esta constante e insana convivência entre as gentes de Portugal, o Cangalheiro da Dinamarca, acabou por perder o juízo, começando por vaguear, de olhar vago, pelas ruas de Lagos, clamando que o fim estava próximo, e que se daria o apocalipse num riscar dum fósforo, assim do pé para mão. Ora o padre Correia, não gostou nada disto, e começou a pregar contra o Cangalheiro da Dinamarca. Quando passava na rua, era achincalhado e enxovalhado sem perdão, como um cão. E eis que Lars Vintenberg criou asas e se elevou nos céus, os seus olhos, chispando centelhas ardentes, começaram a abrasar os Lacobrigenses, loucos de dor e fúria, muniram-se de paus e pedras, começando a atacar o Cangalheiro da Dinamarca, que nos céus urrava como um bode expiatório, antes do dia da matança pública. Em voos quaise rasantes, colhia habitantes como quem come ginjas, umas atrás das outras, sem cessar, nem chorar.
 Amava a deus como toda a gente, e não percebia porque era maltratado assim. Era um dó de alma.
 Acabou no céu, anichado junto do menino Jesus e de nossa senhora de Fátima; também lá estavam o boi Bento e a mula amaldiçoada.

Cão sem pião


 Estava à soleira da porta um cão, sem pião. Voava sem mão, pimba catrapimba, e o sol saiu da órbita lunar de merda, caixa sem fósforos verdadeiros, que morrem em pé, como as árvores, e pensam em pássaros verdadeiros, que piam em sonhos de uma mulher solteira, cujo marido voou para longe daqui, e não se contenta com a renda mensal de: uma enxada e dois alqueires de milho, trigo e quem sabe aveia. Peixe sem cabeça: é um carapau que fala mas tem barbatanas, e não pesca, porque essa tarefa se reserva aos pescadores sem língua, cujas avós morreram na guerra de quarenta, e sinalizaram a vermelho o úbere remendado da velhice. Podridão, ramelas com pus, sendo o ácido corrosivo, apela à morte na estrada. Cães e gatos aleijam-se mutuamente nas pernas, pássaros que piam, mas que mordem os dentes, e a língua pensadora fala em inglês, com o vizinho espanhol, que morreu ontem à noite sem estendal que lhe valesse, era pobre e remendão.
 Certa noite tive um garrafão de vinho de cinco litros, que não me coube pelos ouvidos, chorei de doença que não compensa. Amália estava na estrada e comia marmelada, porque não tinha moreia, que certamente preferiria, e mordia como quem morde, a alma triste de um pescador voador, que morre na praia.
 Trovões na terra e deus no céu, que comanda as tropas do destino, morte no caminho, porque penso assim. Medronho de merda, faz dores de cabeça no pão duro, sem bolor, peixe agulha intergaláctico, que voa sem parar, rumo ao futuro, pede esmola menina, pede esmola, e pode ser que te saia o totobola, numa manhã de quinta-feira sem anéis nos dedos. O cão vai a ladrar e o padre voa, por cima da igreja, merda para isso, que o polícia cá em baixo, tem a espingarda aperrada, para lhe dar um tiro nos cornos sem pão, que pede perdão. Nosso senhor que estais no céu, desce e anda cá abaixo ver isto, que já duas vizinhas engavelam e pedem esmola ao padre, que entretanto morreu; morte no serviço, uma menção honrosa pelo dever cumprido, oferecida pelo presidente da república sem fraque, que é fraco e pede esmola às vizinhas, que choram o padre, e que nunca têm os maridos em casa, por estes se encontrarem com as putas e as filhas, no bordel sem luz, perto da estrada que não finda, e que é louca pelo marido dela esvoaçar, sem parar, pela janela do quarto, mudar, e navegar sem bússola, é suicídio, enorme audácia por parte de ti, meu amor, que sem um dedo no pé, pedes esmola a dançar, ao correio sentimental de deus, da lua, e que mais.
 Pede-me amor, e te darei calor sem pistolas, que mudam consequentemente, sem pedir amor, pelo esquentador sai sangue quente, que deitas pelo nariz e morres na praia, como o argonauta que pede saias às vizinhas, que não param de coscuvilhar, vamos embora daqui cavar no campo, não me dês ferramentas!, dá-me o neo-realismo, imediatamente, sem mais pesar, antes que a revolução rebente e vamos todos desta para melhor, sem mais acontecer. Receio o padre que morre na praia, nas dunas: alta vegetação que se ergue, mija para cima de ti e morres engasgado, tornaste no dragão redentor que pede esmola ao caralho, que fode a prima, e morre com ela na praia, na fortaleza verdadeira dos sonhos, onirísmo secreto de meninas colegiais, seviciadas por freiras fressureiras, que lhes batem incessantemente, sem parar, grandes vergões nas costas lhes surgem e não tem pão, como Oliver Twist, que insiste.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A solidão juntou os dois à esquina


 De certeza que, por inúmeras vezes, já nos questionámos acerca da solidão. O que é?; estarei só? A ideia de que se pode vir a estar sozinho na existência, para o ser-humano, é o pensamento mais atemorizador, que alguma vez lhe pode surgir na mente; até mesmo mais, que o da própria morte, pois que esta é uma das muitas soluções que o indivíduo solitário contempla (com demasiada frequência) para a solução do seu problema. Tirol Hiro Liro estava a considerar essa mesma hipótese, a de acabar com a vida. Dolentemente, num banco de madeira branco sentado, à mesa da cozinha, comendo o costumeiro pequeno-almoço: de duas torradas com manteiga e uma caneca de leite com ovomaltine, observava, do seu impessoal terceiro andar esquerdo, a chuva a desabar sobre o mundo. Tirol Hiro Liro estava bastante cansado da sua rotina. Dia após dia da semana, do mês, do ano: acordar às sete horas da manhã, fazer a barba, tomar duche, engolir qualquer coisa à pressa e correr, com enorme afã, para o metropolitano, com a preocupação quotidiana, de não se atrasar para o mísero emprego, de auxiliar de serviços gerais, de uma biblioteca cinza, somente frequentada por velhos loucos e crianças deficientes. Tirol Hiro Liro só não sabia como, e para além disso, ainda tinha, apesar de muito débil, um elo que o fazia hesitar entre o suicídio ou não. Era este a dança contemporânea. Paixão descoberta no final da adolescência, e que Tirol Hiro Liro nunca pôde concretizar em toda a sua plenitude, coleccionando recusas de inúmeras escolas de dança, decidiu finalmente, por se manter apenas como espectador interessado, um verdadeiro connaisseur leigo, recolhedor de toda a informação que encontra, e obviamente nunca deixando, na sala de estar, de ensaiar as coreografias da sua criação.
 Logo no andar abaixo, morava Tirol Hiro Lão, apesar da evidente semelhança do primeiro e segundo nomes, que ambos desconheciam, a relação entre os dois nunca foi além da costumeira saudação, que se presta aos vizinhos, ao nos cruzarmos diariamente, nas partes comuns do prédio; podendo ter até mesmo, no elevador, terem sido trocadas umas breves impressões, acerca do estado do tempo, mas nada para além disso. Tirol Hiro Lão tinha como actividade profissional, algo que, em parte, se relacionava com o hobby de seu vizinho, ou seja, a música. Tirol Hiro Lão, era pois, tocador de concertina: actuava três noites por semana em variados bares, de categoria bastante duvidosa, e nos restantes dias, tocava pelas ruas, umas vezes perto de esplanadas onde estivessem turistas, outras pelas praças e largos da cidade. Partilhava também com o seu vizinho de cima, outro aspecto de sua vida, isto é, a angústia que essa, inexoravelmente, provoca. Tirol Hiro Lão, porém, dera com uma forma eficaz de a, pelo menos, apaziguar: o álcool; também este uma forma de suicídio, consideravelmente mais moroso, mas que, apesar de tudo, o vinha mantendo vivo.
 Vida essa, que Tirol Hiro Lão, não queria de todo perder, e que após a sua segunda crise hepática, o levara a consultar um psiquiatra comparticipado pelo Estado, passando desde então a ser religioso frequentador das suas consultas. E agora vá-se lá saber o porquê de tantas coincidências, na vida de dois homens distintos, mas passou também a o ser, de Tirol Hiro Liro, que ao chegar à sala de espera do consultório, e ao avistar seu vizinho, o saudou com um frio aceno de cabeça, dirigindo-se depois à secretária, a fim de assinalar a sua presença para a consulta. Volvidos sensivelmente quinze minutos, Tirol Hiro Lão foi chamado: «Senhor Tirol Hiro Lão, pode entrar, fazendo favor.». Ao isto ouvir, Tirol Hiro Liro levantou de imediato a cabeça, que mergulhara num velho jornal, atentando que era seu vizinho, que no consultório entrava: «Curioso» – disse de si para si – «O meu vizinho, tem o mesmo nome e segundo nome, que eu!». Seguidamente a Tirol Hiro Lão sair do consultório, e acertar com a secretária nova consulta, ao se dirigir finalmente para as escadas, que davam acesso ao exterior, reparou que o seu vizinho, já se despedia mais jovialmente: sorrindo, expediu um, bem mais caloroso, boas-tardes, que o seco aceno, aquando de sua chegada à sala de espera.
 Depois da sua consulta, Tirol Hiro Liro retornou a casa, decidido a, coagido por premente curiosidade, questionar Tirol Hiro Lão, acerca da origem, no seu caso, dos nomes que ambos partilhavam, que ele, de sua parte, sabia indubitavelmente a dos seus. Passada a hora do jantar, e arrumada que foi a cozinha, Tirol Hiro Liro desceu ao segundo andar, tocando à campainha da porta do seu vizinho. Pôde discernir, vinda do interior do apartamento, a mais maviosa melodia que alguma vez escutara, não se contendo, encenou logo ali a mais recente coreografia que desenvolvera. Vindo Tirol Hiro Lão atender à porta, sem deixar nunca de tocar a concertina, deparou-se com o seu vizinho de cima, a dançar à sua soleira, confrontado com tal espectáculo, estacou, incrédulo; vendo-se na imediata obrigação de prestar um esclarecimento, Tirol Hiro Liro, explicou o que o levara a vir tocar à sua campainha: como sentira curiosidade, ao ouvir o seu nome no consultório do psiquiatra, tão parecido ao seu, e ao tocar a campainha, como escutara tão bela melodia, que a vontade de dançar, se tornou irresistível. Tirol Hiro Lão, que era, de resto, bastante educado, convidou seu vizinho a entrar, tomaram chá, e dialogaram amistosamente, até à meia-noite. Precisamente a essa hora, ocorreu a Tirol Hiro Liro genial ideia:
 - Porque não unirmos os nossos talentos, vizinho?
 - E onde apresentaríamos nós, o resultado dos ensaios?, nenhuma casa de espectáculos nos aceitaria...
 - Ora ora, não seja pessimista, começámos por baixo, actuamos mesmo na rua.
 - Se é assim, de minha parte não encontra objecção, já que é aí, que faço os meus concertos semanais.
 Tirol Hiro Liro e Tirol Hiro Lão, assim acertaram: todos os dias, pelas seis da tarde, se juntarem os dois à esquina, a tocar a concertina e a dançar o só-li-dó, que era um dos seus variados trabalhos, que Tirol Hiro Liro mais apreciava.

domingo, 13 de setembro de 2009

Consulta de Ginecologia


Uma mulher entra num consultório de ginecologia.
-Bom dia, tenho consulta marcada com o Dr. Violador.
A secretária retorque: - O Dr. Violador hoje não está ao serviço, está em casa com sífilis.
Em sua substituição temos o Dr. Masturbador. Quer marcar consulta?
-Pode ser.
-Queira aguardar.
Ao fundo no corredor surge um homem muito alto, de bata branca, de extenso bacamarte em riste, preso por entre o fecho éclair.
- Doutor Masturbador, pelo amor da santa. Já lhe pedi várias vezes para não ejacular para cima dos estofos dos assentos da sala de espera.
O médico sorri encostado ao balcão, enquanto prossegue o seu ritual de intensas carícias à glande do seu cisne do amor, deixando para trás um extenso rasto de sémen no chão do consultório.
-A paciente, menina, já chegou?
-Está ali sentada à espera.
O médico aproxima-se da mulher e saúda-a com um valente jacto para cima do vestido bordeux que esta envergava.
A mulher irritada; de saltos altos descalça-se e com o tacão do mesmo perfura o pénis do doutor, deixando o sapato cravado no órgão do homem.

sábado, 12 de setembro de 2009

O Menino Bombazine


Certa noite num qualquer dia de Inverno deparei-me numa sala de partos. Não sei como lá cheguei, e mais curioso ainda, parecia que não estava em mim. Sentia o meu corpo como se nada de errado se passasse. As pernas, braços e tronco e restante matéria que me identificava enquanto ser. No entanto sentia-me exageradamente leve, como se não tivesse peso algum. Era como se o meu corpo estivesse diluído e transmutado nas paredes, como se pairasse no ar, como uma qualquer entidade.
De súbito a sala encheu. Enfermeiras e médicos em apressado passo transportavam uma maca e na mesma estava uma mulher coberta com um fino lençol branco.
A mulher gemia e soprava, encharcada em suor, em contínuas contracções. Estava prestes a dar à luz, era uma questão de minutos.
O pessoal médico transferiu-a para a marquesa, havia grande azáfama. Curiosamente fui de todo ignorado. Talvez fosse invisível, ou enquanto matéria de ar limitava-me a planar e a observar sem interferir de todo. Um espectador anónimo… Estendida na marquesa, a mulher gritava agressiva e inquieta; de olhos revirados, clamava por ajuda. Uma nova vida prestes a chegar a este mundo. Presumo que seja o epítome de glória e sensação de alegria.
O médico abriu-lhe as pernas; senti-me desconfortável com aquele momento de intimidade voyeurista… era bela e atraente… de carnes de volúpia, de generosas formas, de róseos lábios.
Apercebi-me que se preparavam para efectuar o parto, aproximava-se o momento em que retirariam a criança do ventre da mulher. Esta tinha pouca dilatação vaginal, o colo uterino contraído…
Senti um crescente clima de medo e nervosismo; a grávida mexia-se irrequieta, com as pernas desnudas em contorcidos espasmos. Enfermeiras tentavam controlar-lhe os membros e impedi-la de se magoar. Ela continuava em impetuosos movimentos…
O obstetra colocou luvas de látex e enquanto as enfermeiras tentavam suster as pernas da paciente, o médico inseriu as mãos dentro da vagina, penetrando-a até aproximadamente metade dos seus braços, deixando somente os cotovelos de fora.
Em breves instantes retirou a cria de dentro da mulher. Trazia-a aninhada confortavelmente por entre as palmas das mãos, segurando-a firmemente.
O bebé não tinha quaisquer formas humanas. Nem braços, nem pernas, tronco, cabeça, ou olhos. Rigorosamente formato algum que pudesse indiciar de que se tratava de um espécimen da raça Humana. As formas eram irregulares como se tratasse de uma vil e nefasta partida de Deus ou da Natureza. Era um simples conjunto de retalhos com formas pouco geométricas, no entanto talvez arriscasse dizer que teria algo que se assemelhava a um formato quadrangular. Era um naco de tecido, desorganizado, como se um tecelão apressado tivesse cortado um longo pedaço. As carnes eram têxteis; em tons azuis, muito claros, como o céu logo pela manhã... parecia ser de algodão; aspecto suave, de riscas caneladas, de pêlo, com sulcos e textura em relevo, paralelo ao comprimento das formas daquilo a que apenas poderei qualificar de criatura, ou ser vivo.
O médico carregava a criatura nos braços, ainda algo suja de sangue, talvez da mãe, ou dela própria… a cor meio esbatida com a estranha mistura entre o vermelho do sangue e o azul da pele.
Apercebi-me de algo que me escapou durante a primeira abordagem… algo que atenuava de certo modo o festim grotesco que se presenciava na sala de partos. Algures no tecido azul com relevo, riscas paralelas e padrão distinto, a uma curta distância horizontal entre si, jaziam dois grados botões inexpressivos, igualmente azuis, mas com alguma diferença do padrão do restante corpo da criatura. Era uma tonalidade ligeiramente mais escura, o que se evidenciava e tornava perceptível. Pareciam olhos, apesar de não lhes reconhecer quaisquer íris ou retina. Estavam colocados à distância a que, presumo, seria normal se estivessem num qualquer rosto humano.
Apesar de não efectuar qualquer movimentação ou expressividade, havia algo naqueles botões… estavam vivos e percepcionavam ao seu redor.
Apercebi-me então que o tecido em relevo, bombazine movia-se em sucessivos compassos, o têxtil respirava em breves suspiros… agora sim, tinha a indelével certeza de que era uma entidade viva.
O médico preparava-se para colocar a criatura dentro de uma incubadora, elevando-a e segurando apenas com a ponta dos dedos, com extrema cautela. Enquanto duas enfermeiras se apressavam a ultimar os preparativos para colocar o ser dentro do dispositivo, uma terceira tentava controlar a mãe que continuava a espernear violentamente, tentando reclamar para si a cria nos seus braços.
O têxtil movia-se irrequieto nas mãos do médico, como um recém-nascido que acaba de chegar a este mundo; apesar de não ter pernas ou braços e o inquietante silêncio provocado pela ausência de boca que permitisse que expelisse um qualquer choro.
Enquanto o obstetra segurava a criatura de bombazine nos braços, notei algo que de certa forma o humanizava.
Não lhe reconheci nada de minimamente humano aquando do avistamento inicial. No entanto, e enquanto perscrutava as suas formas, comecei a reconhecer gradualmente alguns traços, que, apesar de praticamente mínimos ou inexistentes aproximavam a disformidade de bombazine a um legitimo bebé humano.
No reverso do têxtil azul com riscas em relevo havia uma paleta de cores, como se fossem pinturas na parte de trás do tecido. Mas não… não era algo pintado nas carnes de tecido … sobressaíam…eram… órgãos… órgãos humanos.
Pareciam estar cosidos à bombazine e funcionando com aparente normalidade, apesar de se verificar a ausência de alguns deles. Tratava-se da caixa torácica do bebé, aparentemente bordada na parte traseira do têxtil vivo.
Não tinha ossos alguns, e pelo que depreendi e apesar de não ter grandes conhecimentos de biologia ou medicina, aparentava ter pulmões e coração.
Reconheci igualmente, alguns centímetros abaixo, aquilo a que presumi tratar-se do estômago, intestinos, rins e bexiga.
A mãe gritava furiosa, exigindo que lhe mostrassem a cria; ansiava por tomá-la nos braços, processo instintivo e humano de quem acaba de trazer um ente ao Mundo.
O pessoal médico tentava evitar e protelar entregar o bebé disforme, dotado de múltiplas anormalidades e alterações congénitas.
No entanto o clamor da maternidade e do instinto humano exigia tomar no corpo o fruto gerado no ventre. Fosse fruto do amor, do desejo ou de uma mera noite de intenso volume copular, a mulher estava no intrínseco direito de abraçar o filho.
Não havia mais o que protelar; de imediato e antes de colocar o têxtil na incubadora, o obstetra tomando a criatura nos braços, aproximou-se da mãe e entregou-o, fazendo com que o tecido de bombazine repousasse no colo da progenitora.
A mulher esboçou um largo sorriso de orelha a orelha e abraçou o filho, ainda que com cautela e temor, pois desconhecia como haveria de o pegar, sem que desta forma causasse dolo ao objecto de incondicional afecto.
As formas quadrangulares de tecido irregular começaram a apresentar um tom mais escurecido, circular e a aumentar, uma extensa mancha húmida na superfície das carnes têxteis. O bebé acabara de urinar.
De seguida a mulher aproximou-o do peito e começou a sentir uma certa agitação… esta estava semi nua; ostentava somente uma camisola de dormir.
O bebé mexia-se e as suas formas começavam a indiciar um relevo que parecia acercar-se dos seios da mulher. Umas das alças da camisola descaiu suave e pausadamente pelo ombro abaixo, revelando um dos seus pequenos e túrgidos mamilos.
O tecido dirigia-se para o mamilo; era como se a estrutura azul e de riscas paralelas formasse uma boca inexistente e procurasse alimento no seio da mãe.
O tecido tocou na ponta do mamilo rosado e endurecido… a mãe soltou um lânguido sinal de esgar e dor enquanto sentia que o seu filho, o seu menino de bombazine começava agora a se alimentar.
Iniciou-se de seguida um progressivo e extremamente doloroso processo que durou várias horas. Paulatinamente, o bebé começava a ganhar formas. O têxtil transmutava-se em formato humano.
Como tecido cautelosamente recortado com medidas precisas, a criança transformava-se num bebé dotado de pernas, braços, tronco e cabeça.
A boca desenhada no rosto ganhava relevo; azulada e expressiva. O processo de formatação física prosseguia, agora com um intenso e enervante choro; que por vezes soluçava e cessava, enquanto chupava um pouco mais de leite do seio da mãe.
E assim findara. Agora, o menino não era mais um naco de tecido irregular e sim um bebé de cinquenta e nove centímetros, quatro quilos e novecentos gramas.
Não tinha pele, ou reformulando, não tinha carnes e tonalidades reconhecidamente comuns ou humanas.
Mantinha a sua cor azul muito clara, com carnes têxteis; aspecto suave, de riscas caneladas, textura em relevo. O processo de transformação não o dotara de olhos assertivamente humanos. Os grados olhos azuis mais escuro permaneciam, inexpressivos…
E assim era este menino, a riqueza dos olhos da mãe. O menino bombazine, de pele fofinha e macia, olhar desumano e sequioso de leite.

Sem Titulo


Passeava pela cidade quando vi um jardim. Um cadeirão enorme repousava na relva. Era feito de carne humana, como se albergasse um gigante. Tinha quatro pernas este cadeirão, com formas de Homem e unhas também.
Tinha pus numa perna... Duas enfermeiras jeitosas faziam-lhe o penso. Ali vi um cadeirão de gigantescas proporções num jardim, a receber curativos para uma infecção.
Decepei um dedo e esvaziei uma íris do olho e solicitei ajuda.
As duas "brasas" assim o negaram. Não era um objecto, segundo me disseram.
De seguida apressaram-se a prestar cuidados a um sofá que tinha orelhas nas extremidades; estava com uma otite.
Lamentei ter decepado o dedo em vão e a cegueira de um olho.
Bebi uma bica de seguida e comi o dedo. Não consegui engolir o olho, o seu aspecto gelatinoso e mole causava-me uma certa repulsa.
Eram três da tarde.

Breve Reflexão sobre a Ímpetuosidade Canibal


Há dias vi um homem a comer dois dedos de terceiros na avenida. Sentado a uma esplanada, comia satisfeito como se fosse a mais magnifica refeição que jamais desfrutara.
Estava entediado e comia com dois garfos. A seu lado jaziam dois cadáveres, possivelmente proprietários dos dedos.
Estava imundo de sangue; no rosto, nas roupas banais de cores exageradas. Talvez tivesse comido mais partes dos corpos, só presenciei os dedos, um de cada homem diferente. De seguida pediu um sumo ao empregado de mesa da esplanada, e, quando o mesmo regressou com o sumo,rompeu-lhe a jugular e bebeu todo o sangue do seu pescoço.
Depois não vi a continuação desta situação, pois estava à pressa para ir ao supermercado comprar alimentos e bebidas alcoólicas.
Pelo caminho ainda pensei em comer alguém, mas não tenho coragem. Sou muito tímido.