Urubu Cultural

Urubu Cultural

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tragam valor acrescentado

Primeiro acto
                O histrião executa o seu número, frente a um público majoritariamente feminino, silencioso.
         A primeira espectadora aparenta um ar de trabalhadora rural, sugerido pela fisionomia da má fácies, tem, à vontade, os seus quarenta anos. Chamemos-lhe Graciete.
         A segunda, insonsa, sorri agradavelmente, por vezes. Avento a hipótese de ser estudante do ensino secundário. Chamemos-lhe Carla.
         A terceira, é displicente, e sua visagem assimétrica. Com toda a certeza, é empregada-doméstica. Chamemos-lhe Paula.
         A quarta mulher, pouco feia, não se sabe vestir adequadamente, um busto mais farto, jogaria muito a seu favor (bocejamos em sintonia). Frequenta também o ensino secundário. Chamemos-lhe Penélope.
         Sobre a quinta mulher, não tenho nada a acrescentar.
         A sexta mulher é colega da terceira, quer na fraca aparência, bem como no mister. Chamemos-lhe Sandra.
         Reservo-me a também não acrescentar nada, quanto à sétima mulher.  
         A oitava mulher é a que desperta maior curiosidade, apesar da sua reduzida estatura. Não sofre de nanismo, visto não apresentar as características da doença. A melhor maneira de a descrever, seria como... sendo um bonsai humano. Os seus vinte e um anos, aliados à diminuta dimensão de seu pé, fazem-me cogitar acerca da forma de como conseguirá adquirir calçado sóbrio, para o seu número. Chamemos-lhe Maria.
         A nona mulher é a mais atlética do quórum; o seu calcanhar de Aquiles, são as leves cicatrizes da acne, herdadas da adolescência. Chamemos-lhe Psiché.
         Sobram duas mulheres, sobre as quais não vou escrever nada, não por preguiça, mas por as já conhecer de há muito.
         O espectáculo do histrião tem a duração de três dias e meio. A meio da tarde, elabora uma dança pós-moderna, focada principalmente em vigorosos movimentos da pelve, para à frente e para a retaguarda, o que muito agrada ao público feminino, por quem é muito saudado e ovacionado, com vivas e hurras. De trousses, frente a cada uma, simula o coito durante um breve período de tempo, nunca superior a três minutos e meio (as mesas estão dispostas em anfiteatro, para facilitar a exibição do artista).
          É exigido à terceira e quinta mulher, a colocação de máscaras fúnebres, o histrião muda de exercício, agora, executa flexões de braços no meio da sala, transpira abundantemente. As mulheres, com máscaras fúnebres, enxugam o ginasta com ricos turcos, bordados. As desmascaradas, abrem as suas latas de atum em conserva, trocam talheres de campanha entre si, ao mesmo tempo cantam loas e entoam hinos de louvor, ao babete do Benfica, que a terceira e quinta mulher aplicam no pescoço do dançarino; agora sentado no chão. Em seguida, auxiliam-no a erguer as pernas, peida-se languidamente, frente a elas; sinal de partida para a audiência ingerir o atum em conserva (a primeira a acabar, será recompensada com um beijinho na teste, indubitável sinal de respeito).

Segundo Acto

         A quarta mulher, sai vencedora da contenda gastronómica, recebe o seu prémio; é-lhe permitido ir pernoitar em casa. O histrião recomenda-lhe vivamente, que não cesse a execução dos exercícios, por ele levados a cabo, durante a sua exibição. Penélope abandona a sala-de-espectáculos, movendo a bacia com bastante intensidade, despede-se com um ameno sorriso da restante assistência.
         Totalmente recomposto, o artista ordena às mulheres com máscaras fúnebres, a remoção destas; oscula-lhes o cóccix, pelo que é brindado por tonitruante salva de peidos, assim apaparicado, o histrião bate muitas palmas de alegria (um peido feminino, é uma nuvem de algodão doce, vagante no azul céu estival).
           Eis que é chegada a vez de Maria participar no espectáculo, dirige-se relutantemente ao centro da sala, onde o jogral, benévolo, a aguarda sorrindo. É-lhe ordenado que vista um baby-doll encarnado, que dance... um samba de Carmen Miranda. Enquanto isto, o artista veste, dispensando qualquer tipo de auxílio, um sutiã de amamentação; dança o samba com Maria durante uma hora e quinze minutos. Finda a música, sugere às duas últimas mulheres, com máscaras de enfermeira, que ministrem um comprimido vómico a Maria e, sentando-se num cadeirão estufado azul-marinho, que a coloquem deitada no seu colo. Psiché liga um gravador, com choros de bebé.
         Desapertando a copa direita do sutiã, o histrião amamenta Maria, esta, ao contacto com os ásperos pêlos do mamilo do homem e, em parte graças ao agente vómico, bolsa abundantemente em cima do artista. Irado, ergue-se de rompante, deixando cair Maria ao chão, que bate com a cabeça no soalho. Às mulheres com máscaras de enfermeira, é ordenado que limpem o sutiã vomitado. Psiché muda a cassete do gravador, voltando a soar o samba de há pouco, Maria, jazente no chão, regurgita bílis esverdeada.
         As duas últimas mulheres, obtêm excepcional autorização para sair da sala-de-espectáculos, com o fito único, de levarem o sutiã e as trousses do histrião, à lavandaria. À terceira e sexta mulher, é sugerida a colocação de máscaras de mulher-a-dias, que limpem a sujidade... pelos seus próprios meios! Completamente nu, o artista, já mais calmo, torna a colocar Maria no seu colo; com o pénis em erecção, afigura-se-lhe impossível, manter Maria convenientemente equilibrada nas suas pernas. Ordena-lhe, imperioso, que caia de novo. Acocorado, dá muitos beijinhos, nos lábios da mulher de vinte e um anos.

Terceiro Acto

         Penélope volta da sua merecida ida a casa, traz consigo a roupa do histrião, que as duas últimas mulheres haviam deixado na lavandaria. O homem dorme, em posição fetal, no centro da sala-de-espectáculos.
         À quinta mulher, foi recomendado que apontasse, num quadro interactivo, os nomes das mulheres que adormecessem sem autorização (troca um olhar indiferente com Penélope, à entrada desta, que toma o seu lugar).
         Atenta ao despertar do histrião, Psiché liga o gravador no exacto momento, em que o referido descerra os cílios; ouvem-se comboios a apitar, máquinas industriais movidas a vapor, etc... O artista exige umas meias-de-vidro entre a assistência, ameaçando não distribuir a ração de conservas de atum pelo público, caso não veja o seu desejo satisfeito. São-lhe fornecidas umas meias pretas de vidro, pela sétima mulher. O homem repela as meias com as unhas, ulula extraordinariamente. Terminada esta tarefa, conserva as mãos nas ilhargas, sorri para o público, que lamenta o desperdício de um par de meias-de-vidro, em óptimo estado de conservação. Fita, uma a uma, a cara triste das mulheres, algumas próximas do choro.
         Sensível à melancolia da generalidade, obedece a rigorosos processos de segurança, exigindo um extintor, onde apoiar a cabeça semi-calva. Apetece-lhe sopa-de-ninhos-de-andorinha e amendoins torrados. Simultaneamente com este pensamento guloso e extraordinário, dá o peido de partida para a abertura das latas de atum em conserva, que ainda não haviam sido distribuídas; ostentando um sardónico sorriso, examina detalhadamente, toda e cada uma das presentes, na velhaca expectativa, de alguma surpreender, a não mimar as acções necessárias à abertura de uma lata de atum em conserva, e posterior ingestão. Graciete é apanhada! Alheada do comportamento das congéneres, é condenada.
         Como pena por não ter cumprido, nem consequentemente, ter superado o seu objectivo, é-lhe proposto a confecção devida de uma cabidela de pataca, à moda do Tarzan, isto é, em cuecas e sutiã. É enviada em demanda do galináceo. Vendo-se livre dos olhares censores da primeira mulher, o artista pede a Psiché que faça soar um ritmo latino-americano, no gravador de cassetes. As secretárias são encostadas à parede, formando-se no centro da sala uma roda dançante, com todas as pessoas da sala. Rodopiam até à vertigem da exaustão, no acme, a roda desfaz-se, caindo toda a gente no chão. O gargalhar é geral; aproveitando-se da boa disposição total, o histrião procede à apalpação, para despistagem do cancro de mama, em todas as mulheres.

Quarto e Último Acto

         - É grosseiro erro, confundir a beleza com o amor.
         Se é certo que o feio, se apaixona pelo belo, mais frequentemente que o inverso, não é invulgar o feio se enamorar do seu semelhante. Prova disso, é o caso de uma rapariga, detentora de um aleijão numa perna, que a força a mancar, bem como de uma ligeira idiotia, ter contraído matrimónio com um anão.
         Facto este, do meu conhecimento, que posso vir a documentar , caso existam dúvidas entre a plateia.
         Termina assim o nosso espectáculo, pedia-lhes um forte aplauso, obrigado a todas do fundo do coração, e espero que se proporcione uma próxima oportunidade. Mais uma vez, obrigado a todas vocês, sem distinção.
Em distinção.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Thermometro a gaz

 No mez de março, vae uma pallida creança, com quasi seis annos, a scismar que no ceu, o cysne e’ uma machina com azas (não faz idéa de como são masochistas suas fêveras...). Tornando a compor hymnos aos cactos da bibliotheca, ignora que a infancia e’ uma patria, onde animaes offerecem litteratura a elle. Paginas daquellas bôas balladas orientaes, creadas no theatro; esse pharol, illuminando de immaculada luz crystalina: os opprimidos e os innocentes das tyrannias.
 Epopéa sem heroes nem martyres sociaes, onde só a immensa sympathia e amôr de Christo, pelos ideaes da epocha, constitue glorias. Leval-o antes a’ janella triumphante, onde seu pae hontem ennegresseu o ineffavel lyrio que creou; vel-o, e’ acceitar sômente comvosco, os ingenuos typos de emprehendimentos actuaes, immersos em bemdita audacia, que attrae o cavallo que ha e sae da pharmacia innundada.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Casamento em Estado Novo

Foi em mil novecentos e cinquenta,
Vestida eu, toda de branco,
Trocámos nossas alianças,
(o amor é assim, não se aguenta!)
Graças ao empréstimo do banco,
Pois andavas mal de finanças.

Com a vinda de nosso filhinho
Sérgio, em tua honra baptizado,
Entregaste-te, de todo, ao vinho,
Que fez de ti um celerado.

Quando o Benfica perdia,
Socavas-me qual poste,
Gritava, chorava e gania,
Batias-me com o cinto Lacoste.

Pelo raiar da alvorada,
Pedias perdão... Eu, maltratada
Dizia, de olho à Belenenses:
“Gosto de ti, não penses!”

Batia por ti meu coração,
Com a mesma energia,
Com que tua áspera mão,
Quotidianamente me agredia.

Despediste-te na cozinha,
Ias comprar SG Gigante,
Para sempre desapareceste,
Partiste como emigrante,
Disse-me nossa vizinha.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Descobrimentos e Expedições


 Era uma vez um botânico, na grande bacia do Amazonas cheia de humidade, que certo dia descobriu um roque no Amazonas, durante uma expedição. Durante a idade do gelo, os couros de campanha do caiaque, encalharam num recife dos trópicos, onde se erguia um yurt, do povo Shoshomi. Um galeão satélite, com telégrafo submergível, de um mercador de Meca, jesuíta; afundou um junco com escurbuto, no equador, a uma longitude sem espécie.
 Outrossim na Malásia, um currach, serviu de intérprete a um criado de quarto, acendedor de incenso do Grande Cão geógrafo, praticante de homicídio e, condenado pela civilização a estudar zoologia e navegação, junto do povo Inuit. A seda do missionário muçulmano, foi roubada por cossacos de bússola, a um peregrino com mirra no trenó, gérmen de um motim.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A traição é o veneno da paixão


O estranho botão-de-punho...
De meus todos, diferente.
Descoberto no mês de Junho,
Em nosso leito, ainda recente.

«Pergunto porquê, Graciette,
Tanto mal me fizeste?»
Ante tal traição tão evidente,
Choraste apenas, sua indecente!

Olvidaste o santo altar,
Onde não se mente,
Onde juraste me amar,
A toda a hora, eternamente!

Para quê todos os adornos:
De jade, ouro e prata?
Ofertas a uma ingrata!
Que só me deu um par de cornos...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Reflexo


São quatro da manhã. Oiço na ruas os ronronos industriais da máquina trituradora e engolidora do veículo dos homens do lixo a processar os nossos dejectos. Aqui estou no meu quatro, sozinho no escuro... Acompanha-me uma luzinha muito suave do monitor de um computador portátil que me ofusca as vistas com seu brilhante cintilo. A luz azulada de um disco externo que pisca em intermitências inconstantes projectando na janela o meu reflexo de perfil. Lembro-me de o ter olhado de soslaio, quando repousava as vistas. Parece que o meu reflexo se modifica em transfigurações... ali está intacto e quieto, parece que me aguarda... afinal sou eu o lado real e o controlador... mas depois fitando-me pelo canto da íris, o reflexo parece aumentar suas formas. Como se fosse uma mancha de tinta numa folha de papel branco... A luz azulada ilumina-o num ângulo de baixo para cima... o pescoço está visivel, mas depois o rosto é uma paleta disforme de uma sombra com misteriosos contornos que formam a minha face... como se a própria noite salpicasse de tintas uma caricatura abstracta de mim mesmo. Observo o meu reflexo, iluminado pela luz não natural de um objecto orgânico. Assusta-me de certo modo ver esta forma, sou eu mas ao mesmo tempo já não sou, pois se me reflecte já não serei eu, em boa verdade... Vejo a mancha a alastrar e a ocupar mais espaço no vidro da janela de meu quarto... deve ser um sinal de que está a crescer. Mas porquê? E para onde? Às vezes parece que se mexe antes que eu mesmo me mexa. Outras apenas ali está com sua função natural de me projectar ao sentir o abraço da luz. Enquanto a olho, também me olha de volta... pois se é o meu reflexo é sua obrigatoriedade me fitar de volta enquanto a confronto. Mas não pára de crescer... apoderando-se gradualmente de mais e mais centímetros da minha janela. Enquanto escrevo, algo de inesperado acontece... para o qual não estou precavido nem sequer compreendo tamanho fenómeno... Ao premir as teclas do portátil, as mesmas afundam-se pausadamente, desaparecendo numa espécie de caixa negra que se vai formando e aumentando à medida que as teclas se evaporam. Letra a letra... A minha mão entra neste buraco negro, é fundo... Insiro e retiro alguns dedos... depois mergulho a mão... Elevo o portátil acima da mesa, tentando discernir este misterioso buraco. Tudo normal. A mesma mesa de pinho... Não há qualquer abertura na extremidade do portátil. Investigo esta caixa negra de profundidade assinalável que surgiu no painel do teclado. Num acto irreflectido e imediato, submerjo o rosto neste vácuo que substitui o teclado... Um profundo buraco negro sem fim. O medo cobre-me as têmporas, servindo-se depois de um fino manto que me cobre as carnes por inteiro. Apresso-me a tirar o rosto deste misterioso portal, ou que raios será... Olho para a minha esquerda, onde está a janela do quarto. Errado. Não está lá janela alguma, nem a persiana corrida, muito menos a mancha do meu reflexo. Ao olhar para a esquerda vejo a rua do meu apartamento. Mas do lado de fora... Nem sequer é através do vidro. Uma brisa calma e suave como um murmúrio assobia-me por entre o tímpano. Mas onde estou? Não estou no meu quarto, mas também não estou para lá do meu apartamento. Ao olhar para a direita, vejo tudo turvo, como um picotado de diminutos quadradinhos que formam imagens... Estou dentro da janela... e os quadradinhos pertencem à persiana... O reflexo que anteriormente não era mais que uma projecção ampliada por uma ténue luz, apoderou-se do lado real e ali está fitando-me sem pestanejar... do outro lado. Mantém seu formato meio que abstracto, o corpo uma mera silhueta de sombreados dispersos. E aqui me sinto em expansão... tanto física, (pois o repuxar de carnes e músculos alarga-me para um formato de complexas descrições) como metafísica, pois estou dentro e em simultâneo fora de mim. A sombra apoderou-se do real... Nem sei que raio vai fazer. Talvez viver o meu quotidiano, as minhas vivências, aqueles que me rodeiam, meus sonhos e anseios... E eu? Talvez desapareça numa névoa de claridade quando a luz se acender ou o Sol abraçar a janela pela manhã.