Urubu Cultural

Urubu Cultural

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

quarta-feira, 13 de julho de 2011

sexta-feira, 27 de maio de 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

Ordem de Compra

Eu sou todos os bebés recém-nascidos enterrados em pequenos caixões branquinhos, rodeados por lírios brancos (ouve-se no fundo esmaecido da alvorada música de órgão, ou cravo, um parente afastado do piano). Vocês são as mães. A matriz que alimenta as guerras entre os homens, e não podia ser doutra forma, ao serem mães estão a concretizar o papel que a natureza entregou relutantemente à fêmea, demasiado frágil para a tarefa. A mulher tem a opção de ser mãe, cumprindo assim o seu destino, a mãe é a mulher elevada ao seu expoente máximo.
O pai não.
Antes de ser pai, o mancebo deve fazer a guerra, cumprindo o seu destino na terra, só conseguindo igualar a mulher por breves segundos, a primeira contracção do parto são os poucos segundos que o soldado tem antes de ser atingido, pela primeira metralha da primeira batalha da guerra. A menina é a mãe, o menino é o soldado esventrado na última trincheira de La Lys.
Apita aqui,
         que eu ainda não morri!
Só sei cantar à noite, como o rouxinol do campo, demasiado ufano para que lhe interrompam a ária. Vou arear os pratos de esmalte made in china, atear os cordões à bolsa, distribuindo alegremente a riqueza por todos os pobrezinhos.
(Mete-te na tua vida, mantém-te na tepidez da tua vida, na linha recta média-morna da tua vida).
Acusa-te de crimes que não compensem, que os teus parentes hajam cometido; mexe-me nas compras do supermercado, desarruma-me as gavetas todas, observa silenciosamente as minhas fotografias guardadas num enorme saco de plástico, algumas de familiares que nunca conheci. Bate-me à porta e foge, martela-me pregos nas paredes, para depois pendurarmos quadros abstractos de comboios para Sagres. Couraçados iluminados invadem-nos a terra calmamente. A semente da discórdia cansa-se nos dias da memória oculta, das palavras espalhadas no mar dos sargaços, estende-me os braços, filha da madrugada, a tua ingenuidade será a fonte da minha salvação, pobre criança! A tua tranquila inocência é-me tão revigorante, galvanizadora espuma branca e fresca de uma onda magnífica, daquelas que te limpam na infância, de todo o pecado residual
Põe-me bombas nos vasos das flores, nos continentes de craveiras cor-de-rosa, afasta-te e sorri... enquanto eu expludo com garbo e donaire irritantes demais, para que continues a amansar a fera que te morde o lóbulo perfeito da orelha direita.
(Mete-te na tua vida, viva mandíbula de aço inoxidável). 

terça-feira, 22 de março de 2011

O Incrível Triângulo das Bermudas Adelgaçantes

O cheiro a terra agarrada às malvas que me inflama as narinas é atroador, como a dor de sentir um bebé a voar de motorizada nas noites de caldeirada à lagareiro. «Lambareiro me saíste, traidor convencido da verdade, que se espalha numa praia enlameada…». Uma praia ocidental inglesa, lusitana.
Pauline foi ver sua mãe morta a Newcastle, sem se lembrar de todos os recados que me devia ter dado, antes mesmo de todas as lições de português haverem começado. «Canta o fado, oh Maldonado!». Sem que a maldição de mil obras-primas, desabe sobre teu cenho franzido, de meninos a fazer o pino de antemão, só com uma mão (coisa de que nunca fui capaz).
Ao medrarem as parreiras pela soleira da minha porta, vagueiam de auto-caravana: Jim and Claire, from Suid-Afrika, que está a transbordar pelas costuras de africanos; querem doce-fino, confeccionado por um menino aparvalhado.
Os cães não param de ladrar, o actor liberta notas líricas de seu aparelho vocal, pompoaristas convencidas desmancham construções de lego; ainda assim, o meu afecto continua intacto, sem que isso me leve a respirar de alívio, por uma só vez na vida curta, que uma anémona significa, alapada a uma rocha negra de calcário calcado por anos de sedimentação argêntea, que digo eu?! Diamantina, ou que sabe ainda? Caça-me na praia do teu desespero, oh filho do destino de teus energúmenos avós, pátria decente e mortal, rebaixamos hoje de novo, ante um poder imortal, cheirando a figos lampos, por esses campos da minha adolescência convalescente, numa piscina de metempsicoses a dançar o fado mortal, de bibe azul e sandálias azuis-de-infantário infame.
O cheiro das malvas volta a atormentar-me, sem que sequer considere a hipótese de me vir a levantar, e trocar de lugar. Lá fora, no pátio, os malucos berram e estrebucham, horripilados com a escassez do tabaco, que não baixa de preço nem que venha o diabo e tussa cuspo pelos queixos abaixo, numa manhã madrugadora de Abril, em que mil fadas mil, me fazem um funeral condigno de um militar ainda no activo. O meu camarada, com quem servi no ultramar, ainda…, volta a entoar uma nota grave, de barítono; e mexo nas estrelas do meu cabelo de esteta, e lambo selos de qualidade, que se aplicam com tranquilidade, nas tranças de uma moça que passa, de vestido, vaidosa e ufana (se está molhada, é porque sente desejo, um frémito horroroso nas coxas, que milhões de patriarcas quiseram calar, gritem o vosso desejo, vítimas da fome!).
O calor, na secretária onde escrevo a última epístola, antes de partir para Angola, é insuportável, (e se não houvessem havido abraços neste ponto de encontro?) ainda assim, continuo, continuo porque sou testemunha de vários crimes imberbes, contra a puberdade paquidérmica de Nelson, o ginasta rítmico portador de obesidade mórbida e trissomia vinte e um, pum pum pum, apesar de seu peso excessivo, foi declarado apto para cumprir o serviço militar obrigatório:
         - Quando me dá as crises, vou para casa.
Onde a mãe, Fátinha, lhe confecciona deliciosas tachadas de carne guisada, e pensar que começa tudo com um simples refogado…
         A minha vida é uma receita culinária em lume brando, que eu abrando propositadamente, sem nunca me entregar às mãos do pecado fascinado, e ao mesmo tempo fascizante, de mandar, em pé, numa desgraça terrível que se me afigura iminente.
         (pausa para fumar)
         Volto à carga como uma velha carga de cavalaria polaca, contra o exército moderno alemão, o que só me pode conduzir invariavelmente, à derrota lasciva de uma vida amortalhada, no despedaçar dos penhascos da vida desfeita de uma noiva de Cristo, bradando, que houvesse recebido o catecismo de um brâmane de aviário, no México ou no Chile.
          Os actores continuam a ensaiar, na exacta medida em que a minha raiva e desprezo, cresce por eles, são actores de teatro, essas putas de emoções humanas. Agora passou a dançarina italiana, diria que se chama Sveva ou Martelada Giacometti:
         - “Méti”, “méti” – diz ela, com ar folgazão, ao amigo especial que conheceu numa noite de verão, há muitos anos atrás, numa missão católica apostólica romana, no Chipre. O gordo maricas dança no primeiro andar, pavoneia-se, dança mais um bocado, tem ar de ser filho de emigrantes portugueses em França, que voltaram ao solo pátrio. Agora fala, num tom de voz exageradamente alto, com o vizinho atestadamente louco, que segura os lençóis cá em baixo (estão todos de fato-de-treino cinzento).

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Um marido... como há muitos

O coração ambicioso
da vida, nas tuas mãos.

Casamento precipitado
com Sandra, a judia;
onde a noite começa, está
uma jovem em perigo.

(O amor é da vida…)

A dança da luz vermelha,
só se vive uma vez:
- Minha sobrinha é assim, Dona Fantasia…

O fim de uma actriz,
na bruxa da rua do silêncio:
- Quero ser bonita, num
pacto perigoso.

História de uma mulher,
em meu coração a cem à hora,
com orgulho
 no romance de uma alma.

Ela e o marido,
 na fascinação
de horas perdidas, no
regresso das sombras.

A outra camélia é
uma mulher à venda,
por amor sem limite:
- Ana, meu amor, chora
lágrimas para Patrícia…
No vale do destino,
um homem mau mata,
a morte por amor.

A jóia amaldiçoada
na cinta vermelha,
da porta de Adão
da última Lady Romay.