Urubu Cultural

Urubu Cultural

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Como confeccionar devidamente uma boa Massa Estúpida

Ingredientes:

10.637,713 Kg. de estupidez
10.637,713 Kg. de preguiça mental
10.637,713 Kg. de ilusão de que votar em qualquer partido político ou político profissional, vai efectivamente, mudar qualquer coisa
10.637,713 Kg. de facilidade de crédito na aquisição de inutilidades que prometem a felicidade eterna a quem as adquire
10.637,713 Kg. de medo
2 pacotes de Fátima
1 pitada de tele-lixo
3 pitadas de gripe A
1 g. de inteligência
Futebol q.b.

            Logo que estiverem reunidos todos os ingredientes supracitados, estamos prontos para passar à confecção de uma consistente e amorfa massa estúpida!
         Comece por misturar os quatro primeiros ingredientes muito bem; devido às enormes quantidades, recomenda-se a utilização de uma boa betoneira. Quando estiver tudo bem interligado, junte os pacotes de Fátima, futebol e tele-lixo e deixe repousar.
         Numa betoneira à parte, coloque o medo e as três pitadas de gripe A (muita atenção com a gripe A, pois se a dose for muito exagerada, em vez de uma massa estúpida, acabará com uma massa paranóica e, a não ser que pertença à indústria farmacêutica, não tirará qualquer proveito desta última composição), mergulhe em banho-maria.
         Por fim, junte tudo num único preparado, e está pronto a servir. Recomendamos um pouco de inteligência, como acompanhamento, apenas o suficiente para que a massa estúpida consiga desfolhar os jornais desportivos e/ou sensacionalistas e mudar os canais de televisão.

P.S. – Se não tiver gripe A à mão, e quiser realçar o medo, junte uma edição do jornal: Correio da Manha, fotocopiada até à exaustão. A massa estúpida não vai achar diferença alguma, pois o assunto das notícias é sempre o mesmo. 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sou apenas uma mulher...

Pagaram o seu preço.
Uma sombra entre dois,
contra as tuas paixões.
O vagabundo amor também morre;
detém-te coração,
o amor permanece.

Tu estavas lá!
Um rapaz do Texas,
o homem de Moon Valley.
Um famoso colar de brilhantes,
um ano para recordar,
o amor tece a sua teia…
raparigas de azul.

Foste bom comigo:
uma pérola no prato,
um trevo de quatro folhas.
Renúncia por amor,
procura-se herdeira.

“…eram diferentes os seus credos, mas o amor superou tudo…”

Vidas sem esperança

Uma mulher inacessível.
A vida é maravilhosa,
amor de verão,
a tua boca é tentação.

O preço de uma mulher.
Denis, a extravagante…
Amar é loucura,
minha mulher desespera-me.

Nunca chegará o amor…
ele e as mulheres,
prisioneiros do passado,
o segredo dos seus olhos.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Descoberta

O gato selvagem com os:
fantasmas, fantasmas, fantasmas,
num passeio à cidade.

Apresentações e nadar para a segurança,
de quinhentos dólares de veneno.
Só complicações,
numa festa surpresa.

Fogo na noite.

Operação limpeza:
pesquisa depois do anoitecer,
um encontro inesperado,
na caça aos patos bravos.

Angústia sobre o poço,
são lições a aprender;
a memória perdida
é uma justa recompensa.

A carta misteriosa


Cartas roubadas e
dinheiro desaparecido,
o resto de uma carta
 duma herança duvidosa.

O presente mistério é uma boa pista,
para o carro acidentado…

«Ele não é suspeito!»
À procura de uma noiva,
com estranhas mensagens.
Novo enigma…

Fechada!
Quem é a sobrinha?

Uma grande confusão e
um erro de identificação,
 na mensagem perigosa.

O jogo de palavras é uma armadilha para a boda falhada.

O pedido do médico

Patrícia e Nora dão uma ajuda
na estranha loja de antiguidades.
Patrícia investiga um favor invulgar da
boneca parisiense, a um estrangeiro suspeito.

Acusação injusta…
Uma pista no vestido e são apanhadas!

O plano de Patrícia, sem saída
para os salvadores.
O elogio do sargento.

O mistério do bangaló

Uma tempestade ofuscante.
Hóspedes não convidados,
são estranhos tutores
da queda da árvore.

O ladrão inesperado, com
 convite para investigar
a missão surpreendente.

A fugitiva assustada
duma herança valiosa,
é o sinal de perigo
para a cilada,
no abismo tenebroso.

Artifício de actor duma
situação desesperada.

Planos de salvamento
para a fuga rápida.

Dupla descoberta: da
pista nocturna para
os bens desaparecidos e
da prenda surpresa.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O lagarto

Não te enoje seu aspecto bizarro, ó jornaleiro atarefado, que o lagarto pintado é pelo Homem. Se teus filhos padecem de tosse convulsa, limpa-lhes os queixos sem repulsa, e depões sua saliva doente, à porta do réptil dormente; este a ingerirá de forma fugaz, sarando rapariga ou rapaz. Passará a moléstia para o lagarto, que não tosse «Já viste que modéstia!?»
Se à hora do meio-dia, debaixo de árvore sombria, alivias tua crónica fome, descansado depois dorme, que o sáurio por teu sono velará, fica seguro que cobra alguma passará, sem que o réptil te acorde preste, alertando-te para a chegada da c’a pele despe. Caso teu sono seja mui profundo, e despertar não consigas, confia em teu amigo rotundo, que abocanhará a cabeça da cobra, sem mais cantigas. Morrerão ambos: a serpe de crânio esmigalhado, o lagarto de dentes anzolados, sufocado.
            «Vês como é teu camarada, o lagarto!?» Porém atenção, dele deves temer um facto, não o deixes chegar ao pé, quando tua mulher estiver de maré, pois que o aroma a sangue o desassossega, mordendo-lhe a madre, sem aceitar sonega.

Tifo Negro

Punição na terra dos Diabos!
O Zé Matador é o escravo do dever,
numa noite de Natal.
…e a morte fugiu!

Uma lua em cheio,
água quente só esta noite,
de nada mais precisa,
a trajectória da última condição.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Aos enamorados...

Quem dera que o amor,
fosse como flores-de-plástico,
nunca perdendo o vigor.
Não era fantástico?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Profetisa Maria Elisa

 Hoje, no regresso a casa, pelas ruas indistintamente anoitecidas da cidade natal, ia caminhando com vagar, enquanto comia um prazenteiro pão-com-torresmos, comprado na mercearia do Zé Charrinho. Depois do cemitério, depois do moinho, depois de descer as escadas perto do meu bloco de apartamentos, reparei que subia a rua uma idosa. Observei a velha senhora, como atentaria na banalidade doutro qualquer transeunte, que não demonstrasse sinais evidentes de agressividade. Ao nos cruzarmos, a anciã cumprimentou-me e, ao mesmo tempo que me estendia uma pequena brochura, confidenciou-me que o fim de todo o sofrimento estava para breve; recusando polidamente a referida brochura, acto contínuo, segui o meu destino, não sem ser assaltado por um terrível calafrio na espinha.
         O que saberia esta velha para me fazer tal revelação? Fui eu o único a quem declarou o seu segredo? Ignoro-o, assim como a mulher ignora a perigosidade da sua novidade.
         O desconforto instantâneo que senti ao escutar as palavras da profetisa, não foi de todo causado pelo conteúdo da mensagem, mas a ser esta verdadeira, pelas terríveis consequências que acarretará. Terminado o sofrimento, é arrancada a máscara metafísica da vida.
         A vida, dentro dos trâmites que atrás a classifica, bem como outros conceitos, a saber: o Nada, o Infinito, a Beleza, o Amor e Deus, estes só a título de exemplo, carecem de uma máscara, confeccionada e convencionada pelos Homens, para que possam ser minimamente perceptíveis. Permitem-nos navegar à bolina pelos oceanos, sem contudo chegarmos alguma vez a tomar o conhecimento real da sua profundidade.
         A máscara do Nada é a que cai com mais facilidade, de aí surgir este primeiramente enumerado, é a ausência de matéria, porém, ao fazer tal afirmação estou como que a lhe conferir uma espécie de existência, é impossível definir o Nada, como sendo seja o que for, mesmo que este não seja nada, assim falava Zenão de Eléia.
         O disfarce do Infinito é um pouco mais ornamentado, isto é, todos nós somos capazes de conceber o início de algo, até de enunciar que esse algo supostamente não terá fim, contudo ninguém consegue exemplificar tangencialmente a infinitude. Talvez só mesmo Sísifo o compreenda.
         A maquilhagem da Beleza é pintada com as cores de tudo o que é, de alguma forma, agradável aos sentidos. Ponhamos um espectador frente a um quadro onde se conjugue determinada combinação de cores, partamos do princípio que o espectador aprecia bastante o quadro, de seguida coloquemos no mesmo sítio um espectador daltónico, com certeza não vai perceber o quadro da mesma forma que o primeiro espectador; e este exemplo é já extremo, visto o desacordo sobre a Beleza de determinada coisa, poder surgir entre dois indivíduos perfeitamente capazes, de distinguir as cores normalmente. A Beleza é um conceito de tal maneira bizarro, que a espécie humana prescinde do seu bem-estar fisiológico e mental, para supostamente a conseguir, mormente quando se trata da fêmea da espécie supra citada: podem ser apontados, dois ínfimos exemplos, no vasto rol das torturas a que as mulheres se submeteram e submetem: o enfaixamento dos pés das raparigas chinesas no passado e, actualmente, a veneração que é prestada aos esqueletos esquizofrénicos ambulantes das passarelas. Situação de tal maneira paradoxal, que as mulheres com verdadeiras características feminis, se julgam na obrigação de imitar pessoas doentes, para que sejam consideradas belas. Assim pereceram as mais belas jovens da minha geração.
         O Amor tem três mascarilhas, uma só física, que consiste na fricção dos dois órgãos sexuais tumefactos, individualmente ou em conjunto, uma só espiritual ou platónica, por exemplo, o caso das freiras católicas apostólicas romanas, que se casam com Jesus Cristo, e uma terceira, que é a síntese das duas anteriores. Cabe a cada um desmascarar o Amor à sua maneira.
         Deus apresenta a máscara mais ornamentada e mais disputada, de entre todas as que já referi: a de um ser superior. A melhor forma de ilustrar a ideia de Deus, conceito para mim totalmente ininteligível, é a de o comparar a um ideograma oriental, se um chinês mo desenhar, e disser que aquele conjunto de linhas significa seja o que for, eu não o posso afirmar nem negar, pois não compreendo a forma como é construído, apesar disso, como tudo o que é, deve obedecer a determinados preceitos matemáticos, posso estudá-los e aferir a sinceridade do chinês ou não. Deus só poderá ser negado ou afirmado, quando se-lhe conhecer a fórmula matemática.
         Mas já basta de filosofia de pacotilha, voltemos antes à profecia de Maria Elisa. Se tudo correr como a idosa prevê, o fim do sofrimento trará consigo o fim da felicidade, pois que sem a sua antítese, esta se tornará irreconhecível. Se nunca mais nos sentirmos infelizes, como vamos saber que estamos felizes? É recorrendo à dialéctica hegeliana que se poderá obter a máscara metafísica da vida; admitindo que a felicidade é a tese, e o sofrimento ou infelicidade, a antítese, a síntese será a dimensão metafísica da vida. Trocando por miúdos, se não juntássemos o preto com o branco, nunca conheceríamos o cinzento.       

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sermão de São Tomé aos peixes

«- Os peixes não conseguem jogar snooker porque: não têm pernas e/ou braços, polegares oponíveis, sequer mãos, pulmões, os olhos emparelhados e, porque a sua memória é inferior a cinco segundos. Visto isto, é melhor ser um polvo.»   

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Gacto, uma quase simbiose


 A cerimónia da crase, faz com que, uma palavra se case (com outra, evidentemente). Inventei uma palavra, e esta história da crase, que não estava planeada, isto é, o facto de vir a ser mencionada neste conto, surgiu-me no outro dia, por mero acaso.
         A palavra é: gacto, resultante da junção dos substantivos masculinos singulares: gato e cacto (o meu gato e os meus cactos são simbióticos. Pelos menos os meus são! Os vossos não sei...).
         O meu gato não partilha apenas a homofonia do nome comum da sua espécie com os cactos, partilha isso e muito mais, aliás, a semelhança entre os nomes é, provavelmente, a menor.
         Os meus cactos picam, o meu gato também, tenho um cacto com pêlos brancos, tal como o animal. Os meus cactos não miam, mas o meu gato mia, e-xa-ge-ra-da-men-te alto. Os meus cactos nunca tiveram lombrigas, o meu gato já. Ambos apreciam matérias granulosas, os vegetais, de terra para viver; o felídeo para fazer as necessidades fisiológicas. O meu gato nunca padeceu com cochonilhas, o meu cacto-rosa já, situação que prontamente remediei com borras-de-café e tabaco. Assim como, certamente, envenenaria os meus cactos com o desparasitante intestinal do felino, também este não simpatiza com as borras nem com o tabaco.
         O meu gato gosta de morder  nos bicos de alguns cactos, noutros gosta de se esfregar, com o fito de se desenvencilhar dos pêlos mortos do seu manto tricolor e, nalguns, coça os queixos. Interrogo-me que benificios granjeará ao morder nos bicos dos cactos; será uma forma de me demonstrar o seu interesse pelos mesmos?
         E aproveitando o facto de estar a lidar com matéria espinhosa, deixo uma mensagem aos detractores do blogue, em que este conto se insere; nem que venham de tractor, impedirão o Urubu de sobrevoar as carcaças mortas da literatura. Conspiradores das sombras, previno-os desde já, que nem eu, nem o meu compincha, que apesar de diminuta estatura, é um gajo altamente, jamais pousaremos nossas oníricas penas, porque o que aqui se publica, são as nossas merdas, coisas que saiem de dentro de nós, e quem não gostar, que se foda.  
         

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A páscoa de Joaquim

Por terras mui longínquas
e por maneiras oblíquas,
nas neves da “Groelândia”
aprendeste prestidigitação.
Nos olhos de Amândia,
via-la… cheia de tesão.

Afamado e valente bacalhoeiro,
conheci o teu cão rafeiro;
Caçador eficaz de moedas,
até as descobria nas trevas!

Desconsolado confessaste,
Certo puzzle desmanchaste,
era obra de tua namorada,
que te sonegou a caralhada.


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O natal de Bento

Não me chames sebento!
Lai-lai-lai... (voz grave, tonitroante)
Larga-me da mão!
(é solitário, o natal de Bento)
- Olhe que não, Senhor Doutor,
olhe que não...
O povo é sereno,
isto é só fumaça;
o tempo quando ameno,
convida a uma passa.

O meu menino,
está todo ataviadinho.
Verões alentejanos,
c’mos trojanos,
derrotado, ouve
Jamaica e seu fado.

Processo revolucionário
em curso,
Uma paixão de dezassete anos;
a vida familiar insuportável,
o infinito é sempre em frente.

Uma Lisboa desaparecida.
Vinho branco gasoso,
artificialmente gaseificado.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Tragam valor acrescentado

Primeiro acto
                O histrião executa o seu número, frente a um público majoritariamente feminino, silencioso.
         A primeira espectadora aparenta um ar de trabalhadora rural, sugerido pela fisionomia da má fácies, tem, à vontade, os seus quarenta anos. Chamemos-lhe Graciete.
         A segunda, insonsa, sorri agradavelmente, por vezes. Avento a hipótese de ser estudante do ensino secundário. Chamemos-lhe Carla.
         A terceira, é displicente, e sua visagem assimétrica. Com toda a certeza, é empregada-doméstica. Chamemos-lhe Paula.
         A quarta mulher, pouco feia, não se sabe vestir adequadamente, um busto mais farto, jogaria muito a seu favor (bocejamos em sintonia). Frequenta também o ensino secundário. Chamemos-lhe Penélope.
         Sobre a quinta mulher, não tenho nada a acrescentar.
         A sexta mulher é colega da terceira, quer na fraca aparência, bem como no mister. Chamemos-lhe Sandra.
         Reservo-me a também não acrescentar nada, quanto à sétima mulher.  
         A oitava mulher é a que desperta maior curiosidade, apesar da sua reduzida estatura. Não sofre de nanismo, visto não apresentar as características da doença. A melhor maneira de a descrever, seria como... sendo um bonsai humano. Os seus vinte e um anos, aliados à diminuta dimensão de seu pé, fazem-me cogitar acerca da forma de como conseguirá adquirir calçado sóbrio, para o seu número. Chamemos-lhe Maria.
         A nona mulher é a mais atlética do quórum; o seu calcanhar de Aquiles, são as leves cicatrizes da acne, herdadas da adolescência. Chamemos-lhe Psiché.
         Sobram duas mulheres, sobre as quais não vou escrever nada, não por preguiça, mas por as já conhecer de há muito.
         O espectáculo do histrião tem a duração de três dias e meio. A meio da tarde, elabora uma dança pós-moderna, focada principalmente em vigorosos movimentos da pelve, para à frente e para a retaguarda, o que muito agrada ao público feminino, por quem é muito saudado e ovacionado, com vivas e hurras. De trousses, frente a cada uma, simula o coito durante um breve período de tempo, nunca superior a três minutos e meio (as mesas estão dispostas em anfiteatro, para facilitar a exibição do artista).
          É exigido à terceira e quinta mulher, a colocação de máscaras fúnebres, o histrião muda de exercício, agora, executa flexões de braços no meio da sala, transpira abundantemente. As mulheres, com máscaras fúnebres, enxugam o ginasta com ricos turcos, bordados. As desmascaradas, abrem as suas latas de atum em conserva, trocam talheres de campanha entre si, ao mesmo tempo cantam loas e entoam hinos de louvor, ao babete do Benfica, que a terceira e quinta mulher aplicam no pescoço do dançarino; agora sentado no chão. Em seguida, auxiliam-no a erguer as pernas, peida-se languidamente, frente a elas; sinal de partida para a audiência ingerir o atum em conserva (a primeira a acabar, será recompensada com um beijinho na teste, indubitável sinal de respeito).

Segundo Acto

         A quarta mulher, sai vencedora da contenda gastronómica, recebe o seu prémio; é-lhe permitido ir pernoitar em casa. O histrião recomenda-lhe vivamente, que não cesse a execução dos exercícios, por ele levados a cabo, durante a sua exibição. Penélope abandona a sala-de-espectáculos, movendo a bacia com bastante intensidade, despede-se com um ameno sorriso da restante assistência.
         Totalmente recomposto, o artista ordena às mulheres com máscaras fúnebres, a remoção destas; oscula-lhes o cóccix, pelo que é brindado por tonitruante salva de peidos, assim apaparicado, o histrião bate muitas palmas de alegria (um peido feminino, é uma nuvem de algodão doce, vagante no azul céu estival).
           Eis que é chegada a vez de Maria participar no espectáculo, dirige-se relutantemente ao centro da sala, onde o jogral, benévolo, a aguarda sorrindo. É-lhe ordenado que vista um baby-doll encarnado, que dance... um samba de Carmen Miranda. Enquanto isto, o artista veste, dispensando qualquer tipo de auxílio, um sutiã de amamentação; dança o samba com Maria durante uma hora e quinze minutos. Finda a música, sugere às duas últimas mulheres, com máscaras de enfermeira, que ministrem um comprimido vómico a Maria e, sentando-se num cadeirão estufado azul-marinho, que a coloquem deitada no seu colo. Psiché liga um gravador, com choros de bebé.
         Desapertando a copa direita do sutiã, o histrião amamenta Maria, esta, ao contacto com os ásperos pêlos do mamilo do homem e, em parte graças ao agente vómico, bolsa abundantemente em cima do artista. Irado, ergue-se de rompante, deixando cair Maria ao chão, que bate com a cabeça no soalho. Às mulheres com máscaras de enfermeira, é ordenado que limpem o sutiã vomitado. Psiché muda a cassete do gravador, voltando a soar o samba de há pouco, Maria, jazente no chão, regurgita bílis esverdeada.
         As duas últimas mulheres, obtêm excepcional autorização para sair da sala-de-espectáculos, com o fito único, de levarem o sutiã e as trousses do histrião, à lavandaria. À terceira e sexta mulher, é sugerida a colocação de máscaras de mulher-a-dias, que limpem a sujidade... pelos seus próprios meios! Completamente nu, o artista, já mais calmo, torna a colocar Maria no seu colo; com o pénis em erecção, afigura-se-lhe impossível, manter Maria convenientemente equilibrada nas suas pernas. Ordena-lhe, imperioso, que caia de novo. Acocorado, dá muitos beijinhos, nos lábios da mulher de vinte e um anos.

Terceiro Acto

         Penélope volta da sua merecida ida a casa, traz consigo a roupa do histrião, que as duas últimas mulheres haviam deixado na lavandaria. O homem dorme, em posição fetal, no centro da sala-de-espectáculos.
         À quinta mulher, foi recomendado que apontasse, num quadro interactivo, os nomes das mulheres que adormecessem sem autorização (troca um olhar indiferente com Penélope, à entrada desta, que toma o seu lugar).
         Atenta ao despertar do histrião, Psiché liga o gravador no exacto momento, em que o referido descerra os cílios; ouvem-se comboios a apitar, máquinas industriais movidas a vapor, etc... O artista exige umas meias-de-vidro entre a assistência, ameaçando não distribuir a ração de conservas de atum pelo público, caso não veja o seu desejo satisfeito. São-lhe fornecidas umas meias pretas de vidro, pela sétima mulher. O homem repela as meias com as unhas, ulula extraordinariamente. Terminada esta tarefa, conserva as mãos nas ilhargas, sorri para o público, que lamenta o desperdício de um par de meias-de-vidro, em óptimo estado de conservação. Fita, uma a uma, a cara triste das mulheres, algumas próximas do choro.
         Sensível à melancolia da generalidade, obedece a rigorosos processos de segurança, exigindo um extintor, onde apoiar a cabeça semi-calva. Apetece-lhe sopa-de-ninhos-de-andorinha e amendoins torrados. Simultaneamente com este pensamento guloso e extraordinário, dá o peido de partida para a abertura das latas de atum em conserva, que ainda não haviam sido distribuídas; ostentando um sardónico sorriso, examina detalhadamente, toda e cada uma das presentes, na velhaca expectativa, de alguma surpreender, a não mimar as acções necessárias à abertura de uma lata de atum em conserva, e posterior ingestão. Graciete é apanhada! Alheada do comportamento das congéneres, é condenada.
         Como pena por não ter cumprido, nem consequentemente, ter superado o seu objectivo, é-lhe proposto a confecção devida de uma cabidela de pataca, à moda do Tarzan, isto é, em cuecas e sutiã. É enviada em demanda do galináceo. Vendo-se livre dos olhares censores da primeira mulher, o artista pede a Psiché que faça soar um ritmo latino-americano, no gravador de cassetes. As secretárias são encostadas à parede, formando-se no centro da sala uma roda dançante, com todas as pessoas da sala. Rodopiam até à vertigem da exaustão, no acme, a roda desfaz-se, caindo toda a gente no chão. O gargalhar é geral; aproveitando-se da boa disposição total, o histrião procede à apalpação, para despistagem do cancro de mama, em todas as mulheres.

Quarto e Último Acto

         - É grosseiro erro, confundir a beleza com o amor.
         Se é certo que o feio, se apaixona pelo belo, mais frequentemente que o inverso, não é invulgar o feio se enamorar do seu semelhante. Prova disso, é o caso de uma rapariga, detentora de um aleijão numa perna, que a força a mancar, bem como de uma ligeira idiotia, ter contraído matrimónio com um anão.
         Facto este, do meu conhecimento, que posso vir a documentar , caso existam dúvidas entre a plateia.
         Termina assim o nosso espectáculo, pedia-lhes um forte aplauso, obrigado a todas do fundo do coração, e espero que se proporcione uma próxima oportunidade. Mais uma vez, obrigado a todas vocês, sem distinção.
Em distinção.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Thermometro a gaz

 No mez de março, vae uma pallida creança, com quasi seis annos, a scismar que no ceu, o cysne e’ uma machina com azas (não faz idéa de como são masochistas suas fêveras...). Tornando a compor hymnos aos cactos da bibliotheca, ignora que a infancia e’ uma patria, onde animaes offerecem litteratura a elle. Paginas daquellas bôas balladas orientaes, creadas no theatro; esse pharol, illuminando de immaculada luz crystalina: os opprimidos e os innocentes das tyrannias.
 Epopéa sem heroes nem martyres sociaes, onde só a immensa sympathia e amôr de Christo, pelos ideaes da epocha, constitue glorias. Leval-o antes a’ janella triumphante, onde seu pae hontem ennegresseu o ineffavel lyrio que creou; vel-o, e’ acceitar sômente comvosco, os ingenuos typos de emprehendimentos actuaes, immersos em bemdita audacia, que attrae o cavallo que ha e sae da pharmacia innundada.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Casamento em Estado Novo

Foi em mil novecentos e cinquenta,
Vestida eu, toda de branco,
Trocámos nossas alianças,
(o amor é assim, não se aguenta!)
Graças ao empréstimo do banco,
Pois andavas mal de finanças.

Com a vinda de nosso filhinho
Sérgio, em tua honra baptizado,
Entregaste-te, de todo, ao vinho,
Que fez de ti um celerado.

Quando o Benfica perdia,
Socavas-me qual poste,
Gritava, chorava e gania,
Batias-me com o cinto Lacoste.

Pelo raiar da alvorada,
Pedias perdão... Eu, maltratada
Dizia, de olho à Belenenses:
“Gosto de ti, não penses!”

Batia por ti meu coração,
Com a mesma energia,
Com que tua áspera mão,
Quotidianamente me agredia.

Despediste-te na cozinha,
Ias comprar SG Gigante,
Para sempre desapareceste,
Partiste como emigrante,
Disse-me nossa vizinha.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Descobrimentos e Expedições


 Era uma vez um botânico, na grande bacia do Amazonas cheia de humidade, que certo dia descobriu um roque no Amazonas, durante uma expedição. Durante a idade do gelo, os couros de campanha do caiaque, encalharam num recife dos trópicos, onde se erguia um yurt, do povo Shoshomi. Um galeão satélite, com telégrafo submergível, de um mercador de Meca, jesuíta; afundou um junco com escurbuto, no equador, a uma longitude sem espécie.
 Outrossim na Malásia, um currach, serviu de intérprete a um criado de quarto, acendedor de incenso do Grande Cão geógrafo, praticante de homicídio e, condenado pela civilização a estudar zoologia e navegação, junto do povo Inuit. A seda do missionário muçulmano, foi roubada por cossacos de bússola, a um peregrino com mirra no trenó, gérmen de um motim.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A traição é o veneno da paixão


O estranho botão-de-punho...
De meus todos, diferente.
Descoberto no mês de Junho,
Em nosso leito, ainda recente.

«Pergunto porquê, Graciette,
Tanto mal me fizeste?»
Ante tal traição tão evidente,
Choraste apenas, sua indecente!

Olvidaste o santo altar,
Onde não se mente,
Onde juraste me amar,
A toda a hora, eternamente!

Para quê todos os adornos:
De jade, ouro e prata?
Ofertas a uma ingrata!
Que só me deu um par de cornos...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Reflexo


São quatro da manhã. Oiço na ruas os ronronos industriais da máquina trituradora e engolidora do veículo dos homens do lixo a processar os nossos dejectos. Aqui estou no meu quatro, sozinho no escuro... Acompanha-me uma luzinha muito suave do monitor de um computador portátil que me ofusca as vistas com seu brilhante cintilo. A luz azulada de um disco externo que pisca em intermitências inconstantes projectando na janela o meu reflexo de perfil. Lembro-me de o ter olhado de soslaio, quando repousava as vistas. Parece que o meu reflexo se modifica em transfigurações... ali está intacto e quieto, parece que me aguarda... afinal sou eu o lado real e o controlador... mas depois fitando-me pelo canto da íris, o reflexo parece aumentar suas formas. Como se fosse uma mancha de tinta numa folha de papel branco... A luz azulada ilumina-o num ângulo de baixo para cima... o pescoço está visivel, mas depois o rosto é uma paleta disforme de uma sombra com misteriosos contornos que formam a minha face... como se a própria noite salpicasse de tintas uma caricatura abstracta de mim mesmo. Observo o meu reflexo, iluminado pela luz não natural de um objecto orgânico. Assusta-me de certo modo ver esta forma, sou eu mas ao mesmo tempo já não sou, pois se me reflecte já não serei eu, em boa verdade... Vejo a mancha a alastrar e a ocupar mais espaço no vidro da janela de meu quarto... deve ser um sinal de que está a crescer. Mas porquê? E para onde? Às vezes parece que se mexe antes que eu mesmo me mexa. Outras apenas ali está com sua função natural de me projectar ao sentir o abraço da luz. Enquanto a olho, também me olha de volta... pois se é o meu reflexo é sua obrigatoriedade me fitar de volta enquanto a confronto. Mas não pára de crescer... apoderando-se gradualmente de mais e mais centímetros da minha janela. Enquanto escrevo, algo de inesperado acontece... para o qual não estou precavido nem sequer compreendo tamanho fenómeno... Ao premir as teclas do portátil, as mesmas afundam-se pausadamente, desaparecendo numa espécie de caixa negra que se vai formando e aumentando à medida que as teclas se evaporam. Letra a letra... A minha mão entra neste buraco negro, é fundo... Insiro e retiro alguns dedos... depois mergulho a mão... Elevo o portátil acima da mesa, tentando discernir este misterioso buraco. Tudo normal. A mesma mesa de pinho... Não há qualquer abertura na extremidade do portátil. Investigo esta caixa negra de profundidade assinalável que surgiu no painel do teclado. Num acto irreflectido e imediato, submerjo o rosto neste vácuo que substitui o teclado... Um profundo buraco negro sem fim. O medo cobre-me as têmporas, servindo-se depois de um fino manto que me cobre as carnes por inteiro. Apresso-me a tirar o rosto deste misterioso portal, ou que raios será... Olho para a minha esquerda, onde está a janela do quarto. Errado. Não está lá janela alguma, nem a persiana corrida, muito menos a mancha do meu reflexo. Ao olhar para a esquerda vejo a rua do meu apartamento. Mas do lado de fora... Nem sequer é através do vidro. Uma brisa calma e suave como um murmúrio assobia-me por entre o tímpano. Mas onde estou? Não estou no meu quarto, mas também não estou para lá do meu apartamento. Ao olhar para a direita, vejo tudo turvo, como um picotado de diminutos quadradinhos que formam imagens... Estou dentro da janela... e os quadradinhos pertencem à persiana... O reflexo que anteriormente não era mais que uma projecção ampliada por uma ténue luz, apoderou-se do lado real e ali está fitando-me sem pestanejar... do outro lado. Mantém seu formato meio que abstracto, o corpo uma mera silhueta de sombreados dispersos. E aqui me sinto em expansão... tanto física, (pois o repuxar de carnes e músculos alarga-me para um formato de complexas descrições) como metafísica, pois estou dentro e em simultâneo fora de mim. A sombra apoderou-se do real... Nem sei que raio vai fazer. Talvez viver o meu quotidiano, as minhas vivências, aqueles que me rodeiam, meus sonhos e anseios... E eu? Talvez desapareça numa névoa de claridade quando a luz se acender ou o Sol abraçar a janela pela manhã.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Falta Amor no Teu Olhar


A mulher que jurou não ser minha,
A estrela que não brilhou,
«Sou pequenina nos teus braços...»

A mulher que me perdeu,
Mais do que o amor,
Vamos ser felizes!

O príncipe vagabundo...
A casa iluminada
Depois do perdão;
Minha mulher vai casar,
O nosso amor não é pecado,
Aonde vais, coração?

Casei com uma ciumenta.
(Vende-se um marido)
A porta proíbida...
Falta amor no teu olhar...

Clemente, o gato zarolho (ou sem um olho)


Fundes-te com a matéria,
Matreiramente curvilíneo.
Clemente, és um gato altamente!

Vamos embora, antes que alguém nos veja, e nos tente,
Ò Clemente.
 Tende piedade, sede caridoso; pois o roedor
(que és incapaz de roer…)
Também sente, ò Clemente.

Sempre apreciaste o teu nome de papa,
Que a mulata te fazia na cozinha,
Envergando singela cuequinha.

Até que um dia, acidentalmente,
Te vazaram o olho, Clemente;
Ofereceste o outro e não to quiseram,
Mas que gente!

É assim que elogio o gato Clemente,
Que como filho de boa gente,
TAMBÉM SENTE!
(em particular, quando literalmente, lhe chegam a roupa ao pêlo.)