Urubu Cultural

Urubu Cultural

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Cangalheiro da Dinamarca


 O que outrora fora o cavaleiro da Dinamarca, e viveu as peripécias mundialmente conhecidas: por terras da Palestina, Itália e Flandres; como se sabe, chegou a casa no dia de Natal, graças à ajuda que os anjinhos lhe proporcionaram ao, candidamente, iluminarem o grande abeto fronteiro à sua moradia. Tomou-se ele mesmo, e graças a uma importante revelação nocturna, que o menino Jesus lhe fez, num rico e próspero negociante (em parte também, devido à convivência com o mercador e o banqueiro, em casa de quem ficou hospedado, durante o seu périplo peregrino).
 Disse-lhe o menino Jesus que abatesse o abeto, e partindo da rica madeira que dele obtivesse, construísse caixões e vendesse à população.
 Religioso e temente a deus nosso senhor como era, o Cavaleiro não hesitou, e na manhã seguinte, com o precioso e indispensável auxílio de sua prol, convenientemente munida de aguçados e robustos machados, deitaram abaixo a árvore, que tanto tinha ajudado o Cavaleiro, aquando da sua desorientação no meio da floresta hostil, seviciado pelo cortante gelo invernoso, que o seu, apesar de tudo, grosso capote de peles, não impedia, e atacado por ferozes bestas sedentas de sangue.
 Já detendo os indispensáveis utensílios de carpintaria, que nestas casas de campo sempre os há, para as quotidianas tarefas: da mais corriqueira reparação, ate à laboriosa e intrincada construção de, por exemplo: uma resistente edificação onde abrigar o feno, da chuva e da neve, que na Dinamarca se sabem abundantes no inverno, para a posterior ingestão do gado ovino e bovino.
 Fez o Cavaleiro, agora Cangalheiro, muita fortuna com a negociata dos caixões e posterior organização de funerais, que foi ate aí que o seu negócio se estendeu. Fazia caixões em variadas madeiras, de tudo quanto encontrava nas suas terras, a título de exemplo: tílias, carvalhos, fortes e rijos, pinheiros bravos, enfim, um manancial de tipos de madeira. Para seu benefício, aconteceu que um de seus filhos, de seu nome Edmund, era mestre no que dizia respeito a xilogravura, e ornava lindamente todos os caixões dos velhos burgueses, que antes de morrerem tinham dinheiro para lhe pagar bem. Apesar de tudo, esta vida não era a que mais agradava ao ex-Cavaleiro, amofinando-se com frequência, na rotineira tarefa de cortar árvores. Fazia-o porque o menino Jesus lho tinha dito, nada mais. Diga-se também de passagem, que o Cangalheiro da Dinamarca, até nem era pessoa muito materialista, não dando importância demasiada, ao capital que auferia.
 Sabendo da depressão em que o Cangalheiro da Dinamarca se encontrava, nossa senhora de Fátima, (que como a pescada, antes de o ser, já o era, só ainda não tinha aparecido aos três pastorinhos…) apareceu ao Cangalheiro da Dinamarca em sonhos dizendo-lhe assim, nestes exactos termos:
 - Cangalheiro da Dinamarca, meu bom filho, vai em peregrinação a Portugal, terra de onde provem os heróis cujas façanhas ouviste contar na Flandres, e por lá espalha a doutrina da fé.
 Na manhã subsequente ao sonho, o Cangalheiro da Dinamarca, à mesa do pequeno-almoço, anunciou assim à família:
 - De hoje a um ano, não estarei aqui reunido com vocês, a me alimentar em comunhão, pois que parto para Portugal, terra onde a nossa senhora, que virá a ser de Fátima, me mandou ir pregar, como São João Baptista, um dia no deserto, e não sei se volto.
 Sua mulher e filhinhos, bem como os servos, choraram logo ali lágrimas de espesso sangue, e Edmund foi para a oficina, onde se suicidou com um formão, tanchado nos peitos.
 Não querendo saber destas súplicas, o Cangalheiro da Dinamarca arreou a sua besta cavalar, e deu início a mais uma longa jornada, como era seu apanágio. Só parava para dormir e dar cevada ao cavalo. Levou seis meses de viagem, que correu sem percalços dignos de nota.
 Chegado finalmente a Portugal, espantou-se muito o Cangalheiro da Dinamarca com a falta de asseio e educação destas gentes, que escarravam para o chão, e cujas ruas eram uma imundície autêntica. O Cangalheiro da Dinamarca viu como nossa senhora, que estava para ser de Fátima, uns séculos mais tarde, tinha razão, no que dizia respeito a evangelizar estes gentios.
 Debateu-se logo com um gordo frade, em Serpa, terra que conheceu ao cruzar a fronteira, de seu nome Ladislau Breyner, este homem comia muitos doces conventuais, arrotava e peidava-se constantemente, sem cessar, até vomitar. Tentou em vão, o Cangalheiro da Dinamarca educar esta alimária, mas falhou. Entre peidos e arrotos, este falou-lhe de uma linda terra que era Lagos, no Algarve, um bocadinho mais abaixo do Alentejo, de onde partiam as caravelas das expedições Portuguesas ultramarinas. Ora o Cangalheiro interessava-se muito por isto, e não apreciando de todo a convivência com o frade.
 Chegado a Lagos, admirou muito: as praias, o sol e o marisco; as pessoas continuavam a ser pouco higiénicas como no Alentejo, mas esse até era um mal menor. Decidiu o Cangalheiro da Dinamarca começar a sua pregação de bons-costumes, exactamente em Lagos; o clima ameno, e aprazível, foi um factor determinante nesta muito ponderada decisão.
 Hospedou-se em casa da Dona Aninhas, mulher solteira e muito beata, que vendo assim um homem alto e loiro, lhe disse que não precisava de pagar renda, desde que fosse bom cristão e não provocasse desordem. O Cangalheiro e a Dona Aninhas, forjaram logo ali uma amizade que ia durar décadas.
 A Dona Aninhas, apesar da sua inquestionável seriedade, e inquestionável idoneidade, fazia tudo para agradar ao Cangalheiro da Dinamarca, fazia-lhe bons petiscos, que o via comer com garbo e regalo, entre eles: papas com condelipas etc...
 Certo dia, a Dona Aninhas interessou-se por conhecer o nome do Cangalheiro da Dinamarca, e disse-lhe assim:
 - Qual é a graça de vossa excelência?
O Cangalheiro, que já arranhava um bocadinho o Português, respondeu:
 - Lars Vintenberg, minha senhora...
 - Ah, muito bem, tem um lindo nome, está visto...
 Com esta constante e insana convivência entre as gentes de Portugal, o Cangalheiro da Dinamarca, acabou por perder o juízo, começando por vaguear, de olhar vago, pelas ruas de Lagos, clamando que o fim estava próximo, e que se daria o apocalipse num riscar dum fósforo, assim do pé para mão. Ora o padre Correia, não gostou nada disto, e começou a pregar contra o Cangalheiro da Dinamarca. Quando passava na rua, era achincalhado e enxovalhado sem perdão, como um cão. E eis que Lars Vintenberg criou asas e se elevou nos céus, os seus olhos, chispando centelhas ardentes, começaram a abrasar os Lacobrigenses, loucos de dor e fúria, muniram-se de paus e pedras, começando a atacar o Cangalheiro da Dinamarca, que nos céus urrava como um bode expiatório, antes do dia da matança pública. Em voos quaise rasantes, colhia habitantes como quem come ginjas, umas atrás das outras, sem cessar, nem chorar.
 Amava a deus como toda a gente, e não percebia porque era maltratado assim. Era um dó de alma.
 Acabou no céu, anichado junto do menino Jesus e de nossa senhora de Fátima; também lá estavam o boi Bento e a mula amaldiçoada.

Cão sem pião


 Estava à soleira da porta um cão, sem pião. Voava sem mão, pimba catrapimba, e o sol saiu da órbita lunar de merda, caixa sem fósforos verdadeiros, que morrem em pé, como as árvores, e pensam em pássaros verdadeiros, que piam em sonhos de uma mulher solteira, cujo marido voou para longe daqui, e não se contenta com a renda mensal de: uma enxada e dois alqueires de milho, trigo e quem sabe aveia. Peixe sem cabeça: é um carapau que fala mas tem barbatanas, e não pesca, porque essa tarefa se reserva aos pescadores sem língua, cujas avós morreram na guerra de quarenta, e sinalizaram a vermelho o úbere remendado da velhice. Podridão, ramelas com pus, sendo o ácido corrosivo, apela à morte na estrada. Cães e gatos aleijam-se mutuamente nas pernas, pássaros que piam, mas que mordem os dentes, e a língua pensadora fala em inglês, com o vizinho espanhol, que morreu ontem à noite sem estendal que lhe valesse, era pobre e remendão.
 Certa noite tive um garrafão de vinho de cinco litros, que não me coube pelos ouvidos, chorei de doença que não compensa. Amália estava na estrada e comia marmelada, porque não tinha moreia, que certamente preferiria, e mordia como quem morde, a alma triste de um pescador voador, que morre na praia.
 Trovões na terra e deus no céu, que comanda as tropas do destino, morte no caminho, porque penso assim. Medronho de merda, faz dores de cabeça no pão duro, sem bolor, peixe agulha intergaláctico, que voa sem parar, rumo ao futuro, pede esmola menina, pede esmola, e pode ser que te saia o totobola, numa manhã de quinta-feira sem anéis nos dedos. O cão vai a ladrar e o padre voa, por cima da igreja, merda para isso, que o polícia cá em baixo, tem a espingarda aperrada, para lhe dar um tiro nos cornos sem pão, que pede perdão. Nosso senhor que estais no céu, desce e anda cá abaixo ver isto, que já duas vizinhas engavelam e pedem esmola ao padre, que entretanto morreu; morte no serviço, uma menção honrosa pelo dever cumprido, oferecida pelo presidente da república sem fraque, que é fraco e pede esmola às vizinhas, que choram o padre, e que nunca têm os maridos em casa, por estes se encontrarem com as putas e as filhas, no bordel sem luz, perto da estrada que não finda, e que é louca pelo marido dela esvoaçar, sem parar, pela janela do quarto, mudar, e navegar sem bússola, é suicídio, enorme audácia por parte de ti, meu amor, que sem um dedo no pé, pedes esmola a dançar, ao correio sentimental de deus, da lua, e que mais.
 Pede-me amor, e te darei calor sem pistolas, que mudam consequentemente, sem pedir amor, pelo esquentador sai sangue quente, que deitas pelo nariz e morres na praia, como o argonauta que pede saias às vizinhas, que não param de coscuvilhar, vamos embora daqui cavar no campo, não me dês ferramentas!, dá-me o neo-realismo, imediatamente, sem mais pesar, antes que a revolução rebente e vamos todos desta para melhor, sem mais acontecer. Receio o padre que morre na praia, nas dunas: alta vegetação que se ergue, mija para cima de ti e morres engasgado, tornaste no dragão redentor que pede esmola ao caralho, que fode a prima, e morre com ela na praia, na fortaleza verdadeira dos sonhos, onirísmo secreto de meninas colegiais, seviciadas por freiras fressureiras, que lhes batem incessantemente, sem parar, grandes vergões nas costas lhes surgem e não tem pão, como Oliver Twist, que insiste.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A solidão juntou os dois à esquina


 De certeza que, por inúmeras vezes, já nos questionámos acerca da solidão. O que é?; estarei só? A ideia de que se pode vir a estar sozinho na existência, para o ser-humano, é o pensamento mais atemorizador, que alguma vez lhe pode surgir na mente; até mesmo mais, que o da própria morte, pois que esta é uma das muitas soluções que o indivíduo solitário contempla (com demasiada frequência) para a solução do seu problema. Tirol Hiro Liro estava a considerar essa mesma hipótese, a de acabar com a vida. Dolentemente, num banco de madeira branco sentado, à mesa da cozinha, comendo o costumeiro pequeno-almoço: de duas torradas com manteiga e uma caneca de leite com ovomaltine, observava, do seu impessoal terceiro andar esquerdo, a chuva a desabar sobre o mundo. Tirol Hiro Liro estava bastante cansado da sua rotina. Dia após dia da semana, do mês, do ano: acordar às sete horas da manhã, fazer a barba, tomar duche, engolir qualquer coisa à pressa e correr, com enorme afã, para o metropolitano, com a preocupação quotidiana, de não se atrasar para o mísero emprego, de auxiliar de serviços gerais, de uma biblioteca cinza, somente frequentada por velhos loucos e crianças deficientes. Tirol Hiro Liro só não sabia como, e para além disso, ainda tinha, apesar de muito débil, um elo que o fazia hesitar entre o suicídio ou não. Era este a dança contemporânea. Paixão descoberta no final da adolescência, e que Tirol Hiro Liro nunca pôde concretizar em toda a sua plenitude, coleccionando recusas de inúmeras escolas de dança, decidiu finalmente, por se manter apenas como espectador interessado, um verdadeiro connaisseur leigo, recolhedor de toda a informação que encontra, e obviamente nunca deixando, na sala de estar, de ensaiar as coreografias da sua criação.
 Logo no andar abaixo, morava Tirol Hiro Lão, apesar da evidente semelhança do primeiro e segundo nomes, que ambos desconheciam, a relação entre os dois nunca foi além da costumeira saudação, que se presta aos vizinhos, ao nos cruzarmos diariamente, nas partes comuns do prédio; podendo ter até mesmo, no elevador, terem sido trocadas umas breves impressões, acerca do estado do tempo, mas nada para além disso. Tirol Hiro Lão tinha como actividade profissional, algo que, em parte, se relacionava com o hobby de seu vizinho, ou seja, a música. Tirol Hiro Lão, era pois, tocador de concertina: actuava três noites por semana em variados bares, de categoria bastante duvidosa, e nos restantes dias, tocava pelas ruas, umas vezes perto de esplanadas onde estivessem turistas, outras pelas praças e largos da cidade. Partilhava também com o seu vizinho de cima, outro aspecto de sua vida, isto é, a angústia que essa, inexoravelmente, provoca. Tirol Hiro Lão, porém, dera com uma forma eficaz de a, pelo menos, apaziguar: o álcool; também este uma forma de suicídio, consideravelmente mais moroso, mas que, apesar de tudo, o vinha mantendo vivo.
 Vida essa, que Tirol Hiro Lão, não queria de todo perder, e que após a sua segunda crise hepática, o levara a consultar um psiquiatra comparticipado pelo Estado, passando desde então a ser religioso frequentador das suas consultas. E agora vá-se lá saber o porquê de tantas coincidências, na vida de dois homens distintos, mas passou também a o ser, de Tirol Hiro Liro, que ao chegar à sala de espera do consultório, e ao avistar seu vizinho, o saudou com um frio aceno de cabeça, dirigindo-se depois à secretária, a fim de assinalar a sua presença para a consulta. Volvidos sensivelmente quinze minutos, Tirol Hiro Lão foi chamado: «Senhor Tirol Hiro Lão, pode entrar, fazendo favor.». Ao isto ouvir, Tirol Hiro Liro levantou de imediato a cabeça, que mergulhara num velho jornal, atentando que era seu vizinho, que no consultório entrava: «Curioso» – disse de si para si – «O meu vizinho, tem o mesmo nome e segundo nome, que eu!». Seguidamente a Tirol Hiro Lão sair do consultório, e acertar com a secretária nova consulta, ao se dirigir finalmente para as escadas, que davam acesso ao exterior, reparou que o seu vizinho, já se despedia mais jovialmente: sorrindo, expediu um, bem mais caloroso, boas-tardes, que o seco aceno, aquando de sua chegada à sala de espera.
 Depois da sua consulta, Tirol Hiro Liro retornou a casa, decidido a, coagido por premente curiosidade, questionar Tirol Hiro Lão, acerca da origem, no seu caso, dos nomes que ambos partilhavam, que ele, de sua parte, sabia indubitavelmente a dos seus. Passada a hora do jantar, e arrumada que foi a cozinha, Tirol Hiro Liro desceu ao segundo andar, tocando à campainha da porta do seu vizinho. Pôde discernir, vinda do interior do apartamento, a mais maviosa melodia que alguma vez escutara, não se contendo, encenou logo ali a mais recente coreografia que desenvolvera. Vindo Tirol Hiro Lão atender à porta, sem deixar nunca de tocar a concertina, deparou-se com o seu vizinho de cima, a dançar à sua soleira, confrontado com tal espectáculo, estacou, incrédulo; vendo-se na imediata obrigação de prestar um esclarecimento, Tirol Hiro Liro, explicou o que o levara a vir tocar à sua campainha: como sentira curiosidade, ao ouvir o seu nome no consultório do psiquiatra, tão parecido ao seu, e ao tocar a campainha, como escutara tão bela melodia, que a vontade de dançar, se tornou irresistível. Tirol Hiro Lão, que era, de resto, bastante educado, convidou seu vizinho a entrar, tomaram chá, e dialogaram amistosamente, até à meia-noite. Precisamente a essa hora, ocorreu a Tirol Hiro Liro genial ideia:
 - Porque não unirmos os nossos talentos, vizinho?
 - E onde apresentaríamos nós, o resultado dos ensaios?, nenhuma casa de espectáculos nos aceitaria...
 - Ora ora, não seja pessimista, começámos por baixo, actuamos mesmo na rua.
 - Se é assim, de minha parte não encontra objecção, já que é aí, que faço os meus concertos semanais.
 Tirol Hiro Liro e Tirol Hiro Lão, assim acertaram: todos os dias, pelas seis da tarde, se juntarem os dois à esquina, a tocar a concertina e a dançar o só-li-dó, que era um dos seus variados trabalhos, que Tirol Hiro Liro mais apreciava.

domingo, 13 de setembro de 2009

Consulta de Ginecologia


Uma mulher entra num consultório de ginecologia.
-Bom dia, tenho consulta marcada com o Dr. Violador.
A secretária retorque: - O Dr. Violador hoje não está ao serviço, está em casa com sífilis.
Em sua substituição temos o Dr. Masturbador. Quer marcar consulta?
-Pode ser.
-Queira aguardar.
Ao fundo no corredor surge um homem muito alto, de bata branca, de extenso bacamarte em riste, preso por entre o fecho éclair.
- Doutor Masturbador, pelo amor da santa. Já lhe pedi várias vezes para não ejacular para cima dos estofos dos assentos da sala de espera.
O médico sorri encostado ao balcão, enquanto prossegue o seu ritual de intensas carícias à glande do seu cisne do amor, deixando para trás um extenso rasto de sémen no chão do consultório.
-A paciente, menina, já chegou?
-Está ali sentada à espera.
O médico aproxima-se da mulher e saúda-a com um valente jacto para cima do vestido bordeux que esta envergava.
A mulher irritada; de saltos altos descalça-se e com o tacão do mesmo perfura o pénis do doutor, deixando o sapato cravado no órgão do homem.

sábado, 12 de setembro de 2009

O Menino Bombazine


Certa noite num qualquer dia de Inverno deparei-me numa sala de partos. Não sei como lá cheguei, e mais curioso ainda, parecia que não estava em mim. Sentia o meu corpo como se nada de errado se passasse. As pernas, braços e tronco e restante matéria que me identificava enquanto ser. No entanto sentia-me exageradamente leve, como se não tivesse peso algum. Era como se o meu corpo estivesse diluído e transmutado nas paredes, como se pairasse no ar, como uma qualquer entidade.
De súbito a sala encheu. Enfermeiras e médicos em apressado passo transportavam uma maca e na mesma estava uma mulher coberta com um fino lençol branco.
A mulher gemia e soprava, encharcada em suor, em contínuas contracções. Estava prestes a dar à luz, era uma questão de minutos.
O pessoal médico transferiu-a para a marquesa, havia grande azáfama. Curiosamente fui de todo ignorado. Talvez fosse invisível, ou enquanto matéria de ar limitava-me a planar e a observar sem interferir de todo. Um espectador anónimo… Estendida na marquesa, a mulher gritava agressiva e inquieta; de olhos revirados, clamava por ajuda. Uma nova vida prestes a chegar a este mundo. Presumo que seja o epítome de glória e sensação de alegria.
O médico abriu-lhe as pernas; senti-me desconfortável com aquele momento de intimidade voyeurista… era bela e atraente… de carnes de volúpia, de generosas formas, de róseos lábios.
Apercebi-me que se preparavam para efectuar o parto, aproximava-se o momento em que retirariam a criança do ventre da mulher. Esta tinha pouca dilatação vaginal, o colo uterino contraído…
Senti um crescente clima de medo e nervosismo; a grávida mexia-se irrequieta, com as pernas desnudas em contorcidos espasmos. Enfermeiras tentavam controlar-lhe os membros e impedi-la de se magoar. Ela continuava em impetuosos movimentos…
O obstetra colocou luvas de látex e enquanto as enfermeiras tentavam suster as pernas da paciente, o médico inseriu as mãos dentro da vagina, penetrando-a até aproximadamente metade dos seus braços, deixando somente os cotovelos de fora.
Em breves instantes retirou a cria de dentro da mulher. Trazia-a aninhada confortavelmente por entre as palmas das mãos, segurando-a firmemente.
O bebé não tinha quaisquer formas humanas. Nem braços, nem pernas, tronco, cabeça, ou olhos. Rigorosamente formato algum que pudesse indiciar de que se tratava de um espécimen da raça Humana. As formas eram irregulares como se tratasse de uma vil e nefasta partida de Deus ou da Natureza. Era um simples conjunto de retalhos com formas pouco geométricas, no entanto talvez arriscasse dizer que teria algo que se assemelhava a um formato quadrangular. Era um naco de tecido, desorganizado, como se um tecelão apressado tivesse cortado um longo pedaço. As carnes eram têxteis; em tons azuis, muito claros, como o céu logo pela manhã... parecia ser de algodão; aspecto suave, de riscas caneladas, de pêlo, com sulcos e textura em relevo, paralelo ao comprimento das formas daquilo a que apenas poderei qualificar de criatura, ou ser vivo.
O médico carregava a criatura nos braços, ainda algo suja de sangue, talvez da mãe, ou dela própria… a cor meio esbatida com a estranha mistura entre o vermelho do sangue e o azul da pele.
Apercebi-me de algo que me escapou durante a primeira abordagem… algo que atenuava de certo modo o festim grotesco que se presenciava na sala de partos. Algures no tecido azul com relevo, riscas paralelas e padrão distinto, a uma curta distância horizontal entre si, jaziam dois grados botões inexpressivos, igualmente azuis, mas com alguma diferença do padrão do restante corpo da criatura. Era uma tonalidade ligeiramente mais escura, o que se evidenciava e tornava perceptível. Pareciam olhos, apesar de não lhes reconhecer quaisquer íris ou retina. Estavam colocados à distância a que, presumo, seria normal se estivessem num qualquer rosto humano.
Apesar de não efectuar qualquer movimentação ou expressividade, havia algo naqueles botões… estavam vivos e percepcionavam ao seu redor.
Apercebi-me então que o tecido em relevo, bombazine movia-se em sucessivos compassos, o têxtil respirava em breves suspiros… agora sim, tinha a indelével certeza de que era uma entidade viva.
O médico preparava-se para colocar a criatura dentro de uma incubadora, elevando-a e segurando apenas com a ponta dos dedos, com extrema cautela. Enquanto duas enfermeiras se apressavam a ultimar os preparativos para colocar o ser dentro do dispositivo, uma terceira tentava controlar a mãe que continuava a espernear violentamente, tentando reclamar para si a cria nos seus braços.
O têxtil movia-se irrequieto nas mãos do médico, como um recém-nascido que acaba de chegar a este mundo; apesar de não ter pernas ou braços e o inquietante silêncio provocado pela ausência de boca que permitisse que expelisse um qualquer choro.
Enquanto o obstetra segurava a criatura de bombazine nos braços, notei algo que de certa forma o humanizava.
Não lhe reconheci nada de minimamente humano aquando do avistamento inicial. No entanto, e enquanto perscrutava as suas formas, comecei a reconhecer gradualmente alguns traços, que, apesar de praticamente mínimos ou inexistentes aproximavam a disformidade de bombazine a um legitimo bebé humano.
No reverso do têxtil azul com riscas em relevo havia uma paleta de cores, como se fossem pinturas na parte de trás do tecido. Mas não… não era algo pintado nas carnes de tecido … sobressaíam…eram… órgãos… órgãos humanos.
Pareciam estar cosidos à bombazine e funcionando com aparente normalidade, apesar de se verificar a ausência de alguns deles. Tratava-se da caixa torácica do bebé, aparentemente bordada na parte traseira do têxtil vivo.
Não tinha ossos alguns, e pelo que depreendi e apesar de não ter grandes conhecimentos de biologia ou medicina, aparentava ter pulmões e coração.
Reconheci igualmente, alguns centímetros abaixo, aquilo a que presumi tratar-se do estômago, intestinos, rins e bexiga.
A mãe gritava furiosa, exigindo que lhe mostrassem a cria; ansiava por tomá-la nos braços, processo instintivo e humano de quem acaba de trazer um ente ao Mundo.
O pessoal médico tentava evitar e protelar entregar o bebé disforme, dotado de múltiplas anormalidades e alterações congénitas.
No entanto o clamor da maternidade e do instinto humano exigia tomar no corpo o fruto gerado no ventre. Fosse fruto do amor, do desejo ou de uma mera noite de intenso volume copular, a mulher estava no intrínseco direito de abraçar o filho.
Não havia mais o que protelar; de imediato e antes de colocar o têxtil na incubadora, o obstetra tomando a criatura nos braços, aproximou-se da mãe e entregou-o, fazendo com que o tecido de bombazine repousasse no colo da progenitora.
A mulher esboçou um largo sorriso de orelha a orelha e abraçou o filho, ainda que com cautela e temor, pois desconhecia como haveria de o pegar, sem que desta forma causasse dolo ao objecto de incondicional afecto.
As formas quadrangulares de tecido irregular começaram a apresentar um tom mais escurecido, circular e a aumentar, uma extensa mancha húmida na superfície das carnes têxteis. O bebé acabara de urinar.
De seguida a mulher aproximou-o do peito e começou a sentir uma certa agitação… esta estava semi nua; ostentava somente uma camisola de dormir.
O bebé mexia-se e as suas formas começavam a indiciar um relevo que parecia acercar-se dos seios da mulher. Umas das alças da camisola descaiu suave e pausadamente pelo ombro abaixo, revelando um dos seus pequenos e túrgidos mamilos.
O tecido dirigia-se para o mamilo; era como se a estrutura azul e de riscas paralelas formasse uma boca inexistente e procurasse alimento no seio da mãe.
O tecido tocou na ponta do mamilo rosado e endurecido… a mãe soltou um lânguido sinal de esgar e dor enquanto sentia que o seu filho, o seu menino de bombazine começava agora a se alimentar.
Iniciou-se de seguida um progressivo e extremamente doloroso processo que durou várias horas. Paulatinamente, o bebé começava a ganhar formas. O têxtil transmutava-se em formato humano.
Como tecido cautelosamente recortado com medidas precisas, a criança transformava-se num bebé dotado de pernas, braços, tronco e cabeça.
A boca desenhada no rosto ganhava relevo; azulada e expressiva. O processo de formatação física prosseguia, agora com um intenso e enervante choro; que por vezes soluçava e cessava, enquanto chupava um pouco mais de leite do seio da mãe.
E assim findara. Agora, o menino não era mais um naco de tecido irregular e sim um bebé de cinquenta e nove centímetros, quatro quilos e novecentos gramas.
Não tinha pele, ou reformulando, não tinha carnes e tonalidades reconhecidamente comuns ou humanas.
Mantinha a sua cor azul muito clara, com carnes têxteis; aspecto suave, de riscas caneladas, textura em relevo. O processo de transformação não o dotara de olhos assertivamente humanos. Os grados olhos azuis mais escuro permaneciam, inexpressivos…
E assim era este menino, a riqueza dos olhos da mãe. O menino bombazine, de pele fofinha e macia, olhar desumano e sequioso de leite.

Sem Titulo


Passeava pela cidade quando vi um jardim. Um cadeirão enorme repousava na relva. Era feito de carne humana, como se albergasse um gigante. Tinha quatro pernas este cadeirão, com formas de Homem e unhas também.
Tinha pus numa perna... Duas enfermeiras jeitosas faziam-lhe o penso. Ali vi um cadeirão de gigantescas proporções num jardim, a receber curativos para uma infecção.
Decepei um dedo e esvaziei uma íris do olho e solicitei ajuda.
As duas "brasas" assim o negaram. Não era um objecto, segundo me disseram.
De seguida apressaram-se a prestar cuidados a um sofá que tinha orelhas nas extremidades; estava com uma otite.
Lamentei ter decepado o dedo em vão e a cegueira de um olho.
Bebi uma bica de seguida e comi o dedo. Não consegui engolir o olho, o seu aspecto gelatinoso e mole causava-me uma certa repulsa.
Eram três da tarde.

Breve Reflexão sobre a Ímpetuosidade Canibal


Há dias vi um homem a comer dois dedos de terceiros na avenida. Sentado a uma esplanada, comia satisfeito como se fosse a mais magnifica refeição que jamais desfrutara.
Estava entediado e comia com dois garfos. A seu lado jaziam dois cadáveres, possivelmente proprietários dos dedos.
Estava imundo de sangue; no rosto, nas roupas banais de cores exageradas. Talvez tivesse comido mais partes dos corpos, só presenciei os dedos, um de cada homem diferente. De seguida pediu um sumo ao empregado de mesa da esplanada, e, quando o mesmo regressou com o sumo,rompeu-lhe a jugular e bebeu todo o sangue do seu pescoço.
Depois não vi a continuação desta situação, pois estava à pressa para ir ao supermercado comprar alimentos e bebidas alcoólicas.
Pelo caminho ainda pensei em comer alguém, mas não tenho coragem. Sou muito tímido.

O Velhote que Acentuava Maleitas



Certo dia fui a uma consulta de fisiatria. Segundo a médica que me atendeu - uma loira cinquentona- não era suficientemente aleijadinho para merecer cuidados.
Era meramente coxo, de pernas encurtadas e bracinhos de tamanho diminuto e curioso. Desiludido parti. À porta da clínica estava um velhote septuagenário, do qual nem me dei conta quando por ele passei, ao entrar rumo à consulta.
Tinha um grande cutelo e uma serra eléctrica. Por noventa cêntimos decepava membros e/ou acentuava maleitas físicas para que fossem dignas de tratamentos e cuidados.
Retirei do bolso os noventa cêntimos e pedi-lhe que me decepasse os braços e metade de uma perna. Com um bastão, deu-me uma forte cacetada na outra perna.
Paguei-lhe o que era devido e satisfeito retornei à clínica.
Agora sim era suficientemente aleijado e poderia usufruir dos variados tratamentos de reabilitação. A médica acenou assertiva e logo fui internado.
Quanto ao velhote que trabalhava na sua banquinha de decepar, enriqueceu à custa de imensos possuidores de incapacidades várias, insatisfeitos e com desejos de pronunciar a extensão de suas diferenças.
E muitos membros decepou, e a tantos o velhote alegrou...

Vi um cadáver a comprar flores antes da matiné vespertina dos odores.


Ontem pela manhã vi um cadáver a comprar flores antes da matine vespertina dos odores.
Os homens vertidos de sangue espesso com vazio imenso em tempos austeros sentiam medo. Um receio quase imperceptível, voavam como gigantes iluminados por candeeiros nas palmas das mãos. Tinham luzes nas unhas e palavras em surdina evisceradas nas línguas perfumadas de talhantes pederastas.
Pirilampos pernetas corriam no asfalto com suas próteses de carbono, saltitando reflectiam sobre a leveza das coisas. Sentiam uma abstracção volumosa, uma inibição do indesmentível e invisível. Planavam cantarolando cançonetas desarticuladas com suas vozes verticais, lábios em forma de biombo, davam grande estrondo…
Velhas com sete mamas rastejavam em cadeiras de rodas… com livretes diminutos com palavreado variado e em diminutivos constantes.
Estava sol e chuva… ora quente, ora poeira…
Ergo-me pela manhã de Outono. Nas ruas, a neblina abraça as sombras oblíquas, as silhuetas ébrias caminham ziguezagueando insanidades foscas pelo orvalho do soalho.

Catolicismo Futebolistico


Era uma manhã de intenso calor em frente à igreja.
Um grupo de crianças corria em alegres brincadeiras enquanto uma delas carregava um largo saco. De dentro do mesmo retirou uma cabeça humana de uma freira.
Iniciaram então um jogo de futebol com a cabeça da religiosa. O padre da paróquia alertado pela diversão surgiu à porta e inquiriu:
-Olá meninos, posso jogar?
-Não - responderam em uníssono.
-Vá lá, deixem lá! Posso ir à baliza?
-Vá tomar no rabo, senhor prior!
O homem olhou o seu relógio de bolso.
-Ainda não são um quarto para o meio-dia!
Os miúdos prosseguiram as tropelias e a intensa partida de futebol, pontapeando a cabeça da freira Judite até que a mesma rebentou nas paredes brancas da fachada da igreja.
O padre Barrabás acenou a cabeça, aborrecido.
-Lindo serviço, agora quem é que vai pintar a parede?
-Vá tomar no rabo, prior!- repetiram.
-Já lhes disse que não são um quarto para o meio dia.
De seguida os miúdos iniciaram nova brincadeira, desta feita com os olhos de um menino invisual, que arrancaram previamente com uma colher.

O Abraço da Serpe Persa

 Em um pequeno e penumbroso quarto, Otília repousa estendida em seu leito de ferro, por entre uma perna distendida e outra dobrada, poder-se-ia vislumbrar a sua negra pentelheira. Na divisão ao lado, seu irmão, assenta em um caderno algumas considerações, para ele pertinentes; quer ser poeta.
 Todas as janelas da habitação estão fechadas, de forma a evitar o enorme calor. Incomodada pelo mesmo, (que apesar de tudo não impede Crashburn de tomar bagaço de má qualidade) acorda Otília: espreguiçando-se felidiamente, senta-se na cama, e com seus pés bem cuidados, de unhas impecavelmente aparadas, procura as chinelas de quarto em pelúcia roxa. O intenso calor que, inoportunamente a despertou, também lhe causa sede. A caminho da cozinha, onde se pretendia refrescar, Otília reparar que o irmão está no quarto, a escrever, finge-se desentendida:
- Que fazes, Crashburn?
- Escrevo e tomo bagaço... - Crashburn respondeu sem levantar a cabeça, ou interromper a escrita.
- Tomas bagaço!!- exclamou Otília, exasperada – Agora todos os dias tomas bagaço, ainda por cima com este calor! Evidentemente queres te matar ...
- Todos os grandes poetas tomaram álcool.
- Mas tu nem sequer és poeta, quanto mais grande!
Crashburn não respondeu à provocação da irmã, continuando o que estava a fazer, esta, porém, tornou:
- O que tu queres realmente, não é ser poeta, mas evitar a realidade, que não suportas.
Crashburn, desta feita, levantou os olhos do caderno, e recitou:
- Dylan Thomas e Fernando Pessoa, só a título de exemplo, pois podia enumerar-te dezenas de outros artistas, que tomavam álcool e/ou outras substâncias inspiradoras.
- Inspiradoras my ass, tal como tu, não conseguiam aceitar a vida como ela é de facto. Não eras assim Crashburn, tinhas planos, fazias projectos, uma vontade imensa de viver, de um dia para o outro, simplesmente desististe de tudo ... - A voz de Otília era assumia agora um tom mais lastimoso, que propriamente de reprovação.
- Eu não desisti Otília, subsisti, na juventude fui subsistindo, os sonhos que tinha, os planos que fazia, não eram mais que uma mera ilusão, que me ajudava a aguentar isto, assim como o bagaço...
- Que idiotice! Pelo menos os sonhos não te matavam! – Otília ira-se de novo.
- Se queres saber a verdade, é o seguinte: apenas me aborreço, é isso mesmo, aborreço-me de fazer planos, projectos, aborreço-me de beber bagaço, vinho tinto, e tudo uma enorme maçada. Aborreço-me de tudo!
Ante esta declaração, Otília perdeu a pouca calma que lhe restava, agarrou com firmeza a maçaneta da porta do quarto do irmão, e fechou a mesma com enorme violência, provocando um grande estrondo que pôs um ponto final ao diálogo.
 Já na casa de banho, Otília abriu a torneira da bacia e refrescou as fontes, que tinham entrado em ebulição, após a altercação com o irmão. Decidiu por fim voltar ao quarto. Ao passar em frente à porta do quarto do irmão, percebeu que este ainda escrevia, devido ao arranhar do aparo da caneta no papel; apesar do calor, não se prestara sequer a abrir a porta. Um misto de irritação e desprezo, atravessou num arrepio o corpo de Otília: «Deixá-lo, não me vai arrastar com ele...».
 Numa atitude que a priori pode parecer confusa, Otília fechou também ela a porta do seu quarto. Deitada na cama, cobriu-se com o lençol de algodão. Pretendia entregar-se ao seu mais caro e secreto prazer. Começando por, languidamente, acariciar a sua vasta pentelheira negra, que como um imenso silvado, crescia em todas as direcções, com os dedos ia-a desembaraçando, pouco a pouco... Procurava uma imagem com que fantasiar, geralmente recorria à homossexualidade feminina, era de longe o que mais lhe satisfazia; porém, não se julgue com isto, que Otília era adepta do safismo, pelo contrário, apreciava bastante o convívio masculino, embora nunca tivesse mantido qualquer relação sexual, em parte devido a uma inexplicável repugnância pelo falo masculino erecto. Tivera alguns namorados. De seios tumefactos, os seus dedos procuravam agora o ansioso clitóris enrubescido.
 Crashbum, na venda, tomava mais bagaço e via andorinhas a voar, via andorinhas a falar, um falo de apara-lápis que voa sem parar, para a boca de um padre, de sotaina verde, sem pecar, continua emborcar, oh viagem maravilhosa. Sumo de uva escorre-lhe da boca, como sangue dos olhos de uma Virgem. Viva imagem do que é miséria humana, a miserável condição humana, a escarreta do universo, evolução embriagada, estagnada, que Crashburn não entendia nem sequer metade, que digo eu? Um quinto... na melhor das hipóteses. Oh delírio!, que doce refúgio me saíste... E o abraço do quente bagaço.
 Crashburn tinha um saco cheio de ossos italianos, e em breve viria a se corresponder com uma artista pornográfica, que tinha muito jeito para escrever, vai aqui o excerto dum excerto, que Jaquelina F. enviou ao seu correspondente, de Paris, tirado de um livro de versos, que recentemente editara:
"Telefones a tocar impedem-me de perceber o que na realidade se passa, um dragão com cabeça de telefone baba-se em cima de mim, uma baba ou ranho muito viscoso, parecendo do Kosovo. Poder-se-ia supor que deliro, pelo contrário, transpiro, mas transpiro de tal forma, que parece que choro num canteiro, sem flores de batatas-doces repletas de cicatrizes. Fornecem-me directrizes, para o que será o próximo assalto a lua sem espada, querem que me defenda à pedrada, sem espada? Defende-te com a televisão. Esta à mão? Esta ao pé, há que fazê-la passar do pé para a mão, como um malabarista do circo, que vomita entradas para o cinema cinético, numa atitude claramente desvantajosa para a sua profissão, pois que afasta os adeptos circenses, cansados de verem sempre os mesmos tigres a sofrer, semanas sem comer pipocas, que é que rima com pipocas? Trocas, trocas de casais, era o que fariam os artistas de circo, se tivessem autorização do Hictor Vugo Numerali, que é um fascista de primeira apanha. Certa vez conheci velhinho que fazia colecção de fascistas, se lhe davam um ditador comunista para a colecção, aceitava-o educadamente, atirando-o depois para o lixo, tinha aquela fixação dele, pronto! Só gostava mesmo era dos fascistas; que me lembre ainda não tinha o referido director de circo, que por estas alturas escrevia num penico. Mas voltando à vaca fria, o velhinho tinha uma vasta colecção, como me foi dado a ver, porém faltava-lhe qualidade, imaginem os amigos, senhoras e senhores, que o fascista mais famoso que o velhinho Alberto tinha, era o Salazar!! Que nem fascista soube ser como deve ser, demasiado beato e apagadiço, faz mais lembrar urna velha que um ditador."
Crashburn, com o entendimento demasiado embotado pelos efeitos do álcool, já não podia ler mais. Montou-se na sua bicicleta com pedais, e despediu-se nestes termos da mulher do taberneiro, que tinha nascido em fevereiro: «Encontrar-nos-emos no Inferno...». Pôs o capacete e foi para casa.
 Na casinha de banho, Otília tinha tomado uma resolução fatal como o destino. «Que desatino!» exclamou Crashbum, ao não conseguir enfiar a chave no orifício da fechadura: (Crashburn não tinha tido muitas oportunidades, de enfiar o que quer que fosse, em orifícios alguns) «Há falta de uma realidade melhor, e assaltado por tédio galopante, inventar-se-ão novas, apesar de circunscritas à imaginação e credos humanos ...». Quando Crashburn por fim lá entrou em casa, foi ver televisão, estava na hora do: Big Show Sic, I'm so sick. Procurou a fala com a sua irmã, que lavava a loiça:
- Otília, não estou alcoolizado, mas o mundo esta tão cheio de sexualidade, que aborrece viver...
Otília, apesar do aviso que o irmão tinha feito, em relação à influência da sua droga de eleição, julgou-o ainda bêbedo, porém considerou que o que dissera, não era totalmente desprovido de sentido, o que Crashburn disse, foi efectivamente sentido, por isso tornou:
- Poderá um velhote ainda dar um confeito a uma criança, sem ser rotulado de pervertido sexual?
Otília começou a chorar.

Atropela os peregrinos

 Sempre que estou a dormir ou a desenhar, há uma voz que surge, e me diz: «Vai atropelar peregrinos.».
 Sucedeu-me pela primeira vez, este curioso e estranho fenómeno, certa ocasião em que visionava o telenoticiário, e durante o cujo, exibiram uma peça sobre uma importante romaria. Nesse fatídico dia, e assim que a reportagem terminou, vi-me de imediato mergulhado num profundo coma, que no espaço de três longos dias, me manteve tremendamente agrilhoado, à treva obscura da inconsciência. Terminado este, reparei com alguma repugnância, que estava completamente envolto nas minhas excrescências fisiológicas: ensopado em suor e urina, bem como borrado nos truces e até mesmo nas calças, que certa vez devo ter mesmo estado de soltura.
 Não encontrando explicação aparente para o que me havia acontecido, decidi terminantemente esquecer o caso, e tomando banho, arranjei-me para ir matar alguns gatos à cacetada; percorrendo inúmeras vielas e azinhagas, consegui apenas jogar o cassete de rodeio, nunca satisfazendo completamente os meus intentos, de eliminar um felino sequer. Desiludido, tornei a casa, onde sobre a mesa da sala, após desviar a jarra com jarros, e o naperon, onde em cima do qual esta se posicionava, para uma ponta da mesma, dispus o meu completo estojo de desenho: um bloco de papel tamanho A3, variados lápis de carvão e um pequeno canivete para proceder, quando necessário, à afiação dos mesmos. Assim que fiz o primeiro traço na alva folha, paralisou-se-me de imediato o braço, devido ao cagaço que apanhei, com ter ouvido novamente a voz, a me dizer: «Vai atropelar peregrinos.»; julgando que iria entrar novamente em transe, durante mais três dias, e que acordaria em semelhantes condições de higiene, como na primeira vez, deixei rapidamente o material de desenho, e afastei-me da mesa. Automaticamente a voz cessou, tomado de pânico, decidi preparar um gin com água tónica schwepp's, para me acalmar. Ao tornar ao desenho, e delinear nova linha, voltou a tartárea voz: «Vai atropelar peregrinos.». Deduzi que a prática do desenho a lápis de carvão, vá-se lá saber porquê, estimulava o aparecimento da voz. Bani completamente este passatempo, da minha lista de interesses.
 Decorreu o resto do dia sem sobressaltos, até que finalmente se fez noite: lavei os dentes e os pés, vesti o pijama, e ao pousar o crânio, de modo relaxado, no travesseiro, reapareceu, incisiva qual magnífica dor de dentes, a maligna voz: «Vai atropelas peregrinos.». A partir daqui, já se sabe que não consegui pregar olho, durante toda a noite, nesta e nas que se seguiram, até ao término da romaria.
 Não associando de todo, ao princípio da enfermidade, o facto da duração das romarias e a minha nova condição - chamemo-lhe patológica - serem duais, ao ler, com dois dias de antecedência, num vespertino periódico hebdomadário, um artigo, acerca da realização de uma nova romaria: desta feita em homenagem a Nossa Senhora dos Aleijadinhos Pobrezinhos, por analogia com a primeira situação em que entrei em coma, percebi que talvez a causa que despoletava esta curiosa manifestação, fosse o início das romarias, e o subsequente fim destas, seria também quando a voz, me incitando ao atropelo de peregrinos, cessasse de surgir, ao desenhar e dormir. Foi tal e qual como na minha suposição!, o início da dita romaria, lançou-me novamente em três dias de tenebrosidade, que me fizeram despertar, precisamente, nas mesmas parcas condições de higiene, que na primeira ocorrência. Seguidamente, sobreveio uma semana de martírio, sem desenhar ou dormir, (se fosse arquitecto, não poderia ter trabalhado) até que a romaria teve fim e voltei a ter paz.
 Paz de pouca dura, como o sol por vezes, pois no dia treze de maio, ainda envergando o pijama, ao tranquilamente ingerir fatias douradas regadas com xarope de ácer, como pequeno-almoço, foi transmitido, a quem sintonizava os transístores na Rádio Renascimento àquela hora, que se realizaria, com pompa e circunstância bastantes, nova romaria, seria nesta ocasião, dedicada a Nossa Senhora dos Ceguinhos Marrequinhos. Em terceira, e definitiva, condição de nefando transe, entrei eu mais uma vez, e talvez por ter sido esta a terceira, compreendi finalmente que o atropelo de peregrinos, se ia tornando numa importante componente da minha vida - podendo desta até depender a integridade física e mental da minha pessoa - pois que a incapacidade de dormir durante os dias de romaria, se tornava bastante danosa para o organismo e bem-estar mental.
 À quarta romaria, já tive a clarividência suficiente para reagir, e finalmente me rebelar contra a maldita peste. Munindo o meu fiat uno de: viveres suficientes para uma semana de atropelamento, mantas e o cacete de matar gatos; decidi partir em busca do meu primeiro peregrino. Informando-me nas estações de serviço por que passava, consegui descobrir uma rota de peregrinação e aí esperei, ouvindo música folclórica, de janelas abertas, como o ladino crocodilo submerso, aguarda o sequioso gnú. Passada uma hora, e consideravelmente atordoado pela intensa canícula que se verificava, quase a dormir, ouvi, de repente, um alegre vozear mesmo ao pé da janela do meu carro, era um casal de peregrinos de meia-idade, que me desejava boa-tarde, e que se dirigia devotadamente para o santuário de Nossa Senhora dos Desgraçadinhos Estropiadinhos. Vendo ali uma excelente oportunidade para encetar o atropelo de peregrinos, reflecti durante alguns minutos acerca da melhor forma de o fazer: decidindo por fim, começar pelo marido, sendo que este, mais gordo e possante, no caso de atropelar primeiramente a sua esposa, me poderia partir os
vidros do automóvel com o auxílio do seu bordão, ao inverter a marcha do carro, e seguidamente me capturar e espancar violentamente. Assim aconteceu: partindo duma distância que considerei a ideal para dar uma boa porrada no peregrino macho, acelerei a fundo, até embater violentamente contra as pernas do mesmo e o projectar para a valeta, onde aterrou, inconsciente. Visivelmente atemorizada, a mulher do peregrino correu para onde jazia o corpo inerte deste, talvez na vã tentativa de lhe prestar socorro, ou avaliar o estado da sua condição física; determinado a terminar a tarefa que começara, optei por não atropelar a peregrina, visto se encontrar esta demasiado perto da valeta de escoamento de águas, e com o receio de não travar a tempo, ainda poderia me enfeixar contra a mesma, e partir a direcção do carro, fatalidade que se revelaria bastante danosa, pois o meu automóvel é o único meio com que posso contar, para me evadir rapidamente do local de atropelamento; não referindo as despesas de arranjo, que só no pára-choques já vou ter de gastar um dinheirão, para poder reparar a amolgadela que o peregrino fez. Agarrando no cacete de matar gatos, corri rapidamente para a mulher, aplicando-lhe uma valente bordoada na nuca, que penso eu, a aniquilou de imediato, seguidamente voltei para a minha viatura, abandonando o local a toda a brida.
 Considerando este acontecimento, do seguro e inexpugnável baluarte que é o futuro, torna-se impossível não o definir simplesmente como burlesco, agora um atropelador experimentado, recordar este episódio é, para mim, apenas mais um divertido exercício de humor. Hoje em dia permito-me ao luxo de, por exemplo: num grupo de alguns peregrinos, atropelar só um, e ficar à espera, para apreciar a reacção dos restantes, de semblante carregado de indignação, punho raivosamente erguido no ar, tentando me atingir a viatura com paus e pedras. É quando faço marcha à ré, e atropelo outro...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sem Titulo


Certo dia vi um cavalo deitado numa cama de hospital.
Estava irritado e com razão, pois seus cascos impediam-no de premir a campainha e chamar uma auxiliar para o ajudar a urinar. Era amputado, pobre diabo. Já não poderia participar na prova de hipismo de domingo.
A seu lado, numa cama jazia o seu jockey. De barriga aberta, como um porco; voavam moscas que batiam palmas de luvas esterilizadas. Estava morto, mas continuava a sorrir.
O cavalo estava aflito e ninguém lhe valia. Terminou por tentar usar o urinol e assim o fez. Mijou mais pareciam raios de Sol, o cavalo Luciano, internado na ortopedia de D.Maria.
Quando a auxiliar chegou, assim determinou: "Não tinha autorização para urinar, era tempo de proceder a um clister"- e chamou o cantor que lhe enfiou uma flauta no cú.
E assim era Terça-Feira, na Ortopedia.

O idiotismo de Putilde, ou o sofrimento de Maurício

Era uma vez, há não muito tempo atrás, uma família disfuncional. Era constituída: pelo pai, que garantia os rendimentos, pela avó paterna, responsável pelas tarefas domésticas, por Putilde, uma jovem idiota de catorze anos de idade e por Maurício, irmão três anos mais velho, entrevado graças à brucelose, e sem mãe.
Viviam nos arrabaldes de uma cidade de mediana dimensão, onde esta termina e o campo começa. Numa casa outrora bastante distante da urbe, mas que, com a expansão extra muralhas desta, gradualmente se foi aproximando, não ficando a mais de três ou quatro quilómetros. Era a habitação demasiado humilde e singela: telha de barro vã, grossas paredes de taipa com contra-fortes e janelas carunchosas, assim como, podres da humidade; embora pobre, porém, era algo espaçosa, contando com: três quartos, uma cozinha com uma pequena despensa e uma casa de jantar.
Todos os dias, e ainda mesmo antes do sol nascer, partia o patriarca para a sua labuta diária: o amanho de uma pequena parcela de terreno arrendado, garante do sustento de todos, onde Ilídio trazia umas couves, batatas brancas e, onde inclusivamente, também tinha algumas árvores de fruto. Pela hora do almoço, partiam a avó e Putilde de casa, a levar esta refeição a Ilídio, que comia mesmo na horta, para não perder tempo na deslocação.
Foi uma vez mais, sem suspeitarem absolutamente de nada extraordinário, que avó e neta abalaram de casa, munidas do almocinho de cortiça contendo a refeição e, meia garrafa de vinho. A caminhada pelo costumeiro caminho de cabras, tomou-lhes os invariáveis trinta minutos quotidianos, entre o monte e a horta. Contudo, quando lá chegadas, depararam-se com o que não era de todo usual: Ilídio rodopiava, ao sabor da leve brisa que soprava, pendurado pelo pescoço a uma robusta pernada, de um grande pinheiro-manso, qual títere inanimado. Sua face, assumira já um tom arroxeado, indiciando que se havia enforcado logo pela manhã. Confrontada com esta funestíssima visão, Deonilde perdeu, acto contínuo, o equilíbrio, turvando-se-lhe também, as duas vistas; apoiando-se em Putilde, que a fitava com o olho algo estrábico e esgar sorridente estampado na cara, não aguentou por muito mais, acabando por cair por terra, debalde murmurou ainda alguns monossílabos à neta, que manteve sua habitual expressão zote. Morreu a trinta de Junho, Deonilde Carrascalinho.
Putilde ainda por ali ficou alguns minutos, (onde seu pai se enforcara e sua avó fenecera, com uma trombose) de garrafa na mão, olhando em derredor a natureza, escutando o mavioso chilreio dos passarinhos, observando como o tépido zéfiro penteador, acariciava as copas dos imponentes pinheiros, as doiradas coirelas de trigo oscilante, as carochas escalando os torrões, enfim, todo o seu mundo, a totalidade do que conhecia, não compreendendo o porquê, do pai estar pendurado numa árvore, e a avó inanimada no chão. Ao cabo de um quarto de hora de contemplação, e devido a um qualquer misterioso desígnio, resolveu tornar a casa.
Maurício, que aguardava, como em todas as tardes, pacientemente deitado na cama, pela chegada da avó, pois era a quem devia sua parca higiene e alimentação, inquietava-se com o decorrer do tempo. À hora crepuscular, já um enorme turbilhão de nefastas ideias, sobre o que poderia ter sucedido à sua família, lhe dominava o espírito, mergulhando-o num estado de premente ansiedade; como se não bastassem os nervos alterados, uma forte necessidade de defecar, fez com que toda esta situação, culminasse em enorme terror e choro descontrolado.
Encontrando-se Maurício, já muito próximo da lipotimia, quando escutou, vindo da cozinha, um entrechocar de tachos ou panelas, tomando um pouco de ânimo, perguntou:
- Avó? É a avó que está aí?
Não obtendo qualquer tipo de resposta, resolveu aguardar uns segundos, até que tornou:
- Pai, é o senhor?
Sem conseguir mais uma vez resposta, e batalhando herculeamente com o seu esfíncter, Maurício lembrou-se que só poderia ser Putilde, que por ali andava. Não se enganava, era mesmo sua irmã, que depois de ter abandonado os cadáveres de seus familiares, andara deambulando, de garrafa de vinho na mão, pelo campo fora, retornando agora somente a casa, com o escurecer, motivada pela fome.
Era essa necessidade que Putilde tentava satisfazer, quando despertou a atenção de Maurício, fazendo com que este, chamasse pela avó, pelo pai, e agora, por ela:
- Putilde, ajuda o mano, o mano precisa de fazer cocó, Putilde! – bradou o mancebo
A rapariga emitiu um gemido, ao reconhecer o seu nome, porém não fez caso, continuando a deambular pela cozinha, em busca de alimento. No quarto, Maurício gritava pela irmão como um louco furioso, sentindo que a sua capacidade para aguentar as fezes, ia progressivamente diminuindo, (podendo-se até estabelecer aqui, um paralelo entre, a incapacidade de reter as matérias fecais, e o aumento do desespero). Por sua vez, Putilde continuava, com grande afã, a tentar reproduzir as tarefas, que tanta vez vira sua avó executar: batia com o colherão de pau no fundo do caldeirão, punha lenha debaixo deste, fazia enormes cortes no tampo da mesa, com toda a sua força. Acompanhava todo este ritual, com enormes gritos, intervalados por gemidos imperceptíveis, que cada vez mais enfureciam Maurício, resistindo estoicamente aos seus intestinos. Culminou toda esta situação, com o crescente delírio de Putilde, agora batendo em tudo o conteúdo da cozinha, partindo canecas, amolgando tachos, num frenesi que, no seu auge, a obrigou a se deitar no chão, quase apopléctica, sem forças e arfando. No exacto momento, em que se fez silêncio na cozinha, Maurício deixou de conseguir conter as suas fezes, acabando por obrar na cama, engasgado de vergonha e inépcia, sujou a camisa de dormir e o lençol (o colchão não tinha resguardo).

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Queixa Crime- Um conto de Páscoa


Era domingo de Páscoa. Por volta das oito e quinze horas da noite, um homem entrou no departamento da polícia judiciária da cidade.
Era alto e magro, de longos cabelos castanho escuro, de farta barba por aparar; envergava um comprido manto acinzentado e chinelos havaianas vermelhos.
A rua estava vazia, uma ou outra pessoa povoava os cafés, de resto tudo calmo e desértico.
O homem entrou no departamento de investigação da PJ, não viu ninguém, aproximou-se do balcão principal, havia uma pequena campainha pousada sobre a bancada.
-Boa noite, está aí alguém?- inquiriu, elevando a voz ligeiramente.
Ao fundo de um corredor, uma voz fez-se ouvir.
-Só um minuto por favor.
Ora muito boa noite, em que posso ajudar?- questionou o simpático inspector da PJ.
-Queria fazer uma queixa crime por favor.
-Com certeza, dê-me só um segundo para procurar os impressos. Aqui estão eles.
Nome por favor?
-Jesus N. Cristo.
-Jesus… N. Cristo- repetiu enquanto apontava os dados do indivíduo no impresso.- N é de quê?
-Nelo.
-Ora então… Jesus Nelo Cristo. Idade?
-Desculpe, mas se não houver problema preferiria que ficasse Jesus N ponto Cristo. Como há-de convir Nelo não é um nome muito credível para um Messias.
-Concordo. E qual é a queixa que o senhor gostaria de apresentar?
-Gostaria de fazer queixa de uns romanos. Capturaram-me, apedrejaram-me, chicotearam-me e não satisfeitos por fim crucificaram-me, pregando-me a uma cruz de madeira.
O inspector parou por momentos, pousou a caneta na bancada, ponderou cautelosamente, fez um breve aceno com a cabeça em tom negativo e concluiu:
-Eu entendo perfeitamente a sua situação e solidarizo-me com o que o senhor passou. A questão é que…
- O que se passa?- interrompeu algo enervado e preocupado.
-Sabe… o problema é que o crime prescreveu.. vai ser muito complicado julgar e condenar os ditos meliantes.
-Mas eu tenho provas do ocorrido, aliás bem vincada na carne. Ora veja.
O homem retirou a túnica, mostrando as costas desnudas, local onde tinha vários indicios de chicotadas.
-Meu caro amigo, vai-me desculpar, mas isso está praticamente cicatrizado.
-Veja os meus pulsos, ainda aqui tenho as marcas dos pregos cravejados…
E aqui, está a ver…- apontando para um sobrolho- …aqui acertaram-me com uma pedrada na testa.
-Eu sei do seu caso, mas como lhe disse as feridas mal se notam, estão praticamente cicatrizadas. E será muito complicado encontrar os romanos que lhe fizeram esse serviço.
-Mas o seu trabalho não é registar a ocorrência e investigar o caso?
- Meu amigo eu já lhe disse que é complicado encontrar romanos nesta cidade. No máximo encontro-lhe ciganos, mas esses não aconselho a fazer queixa, que eles juntam-se muitos e dão-lhe cabo do canastro.
Anda aí uma seita dessa gente, ainda há dias assaltaram um rapazinho muito pequenino e indefeso, roubaram-lhe o telemóvel, coitadito.
-Oh diabo!- exclamou o sr. Cristo.
- Bem pode dizê-lo, isto anda terrível. Mas voltando ao seu caso, já se passaram tantos anos homem, mais de dois mil, não acha que deveria relevar? Afinal você ressuscitou e tudo. Acho que nem é para tanto.
- Quer então dizer que não quer registar a ocorrência e investigar o caso?
- Ó homem, realmente… Pronto, eu já lhe disse que será dificil encontrar e condenar os romanos, mas insiste. Vamos lá a tomar nota.
Quantos homens é que o agrediram?
- Não sei ao certo, eram muitos, uns quinze.
- Que roupas usavam no dia do crime?
- Aaah…- hesitante.-… Armadura, capacetes e espadas. E alguns iam a cavalo.
-Hummm, isso já deve reduzir em muito a lista de suspeitos- ironizou.

Carga Dramática!


- Bom dia. Gostaria de me candidatar a um subsídio e a uma bolsa de estudo.
- Bom dia, caro senhor. Veio a saltitar assim até aqui?
- Sim. Confesso que estou um pouco cansado.
- Sente-se.
-Obrigado.
- Ora, portanto… vejamos, vou preencher os documentos. As suas deficiências são as que estão… evidentes?
- Sim.
- Ora deixe-me cá ver. Só tem uma pernoca…. Amputado da direita… e… dois braços?
-Sim, tenho os dois braços. Não tenho mão no braço esquerdo. Nem sequer punho.
- Ausência de perna direita e mão esquerda… e punho esquerdo.
- Algum problema?
- O senhor é aleijadinho de nascença ou acidente?
- Nasci com malformações congénitas.
- Lamento meu caro, mas não lhe posso atribuir subsídio algum, nem tão pouco bolsa de estudo.
- Como assim? Porquê?
- Não tem carga dramática.
- Carga dramática? Não estou a compreendê-lo. Que quer dizer com isso?
- Carga dramática, meu caro. O seu estado de aleijadinho/coitadinho não é precedido de carga dramática.
Ou seja não foi uma terrível tragédia de índole gravosa que o deixou assim. Não teve nenhum acidente nefasto que lhe furtou a um futuro radioso. Não foi atropelado, não teve um acidente de automóvel, não caiu de um andar nem foi violentamente agredido por seis ou mais meliantes.
- Nasci assim. Mas não tenho posses e preciso de algum auxílio financeiro.
- Lamento, mas não é possível. Já nasceu… assim… não há muito a esperar. Já de raiz não se esperava muito de si, caro senhor. Ainda por cima entra-me aqui pelo próprio pé. Uma cadeirinha de rodas ajudá-lo-ia imenso. Sabe que a cadeira lhe daria pontos adicionais.
Lamento.
- Mas bem viu que não tenho uma perna. Entrei aqui aos saltinhos.
- Mas não estava de cadeira de rodas. Consegue caminhar, se não o fizesse quem sabe… nem sequer tem incontinência, nem tem o saquinho de urina, não se baba, fala fluentemente. Desculpe, mas não é possível.
- E agora que é que eu faço?
- A única coisa que me ocorre seria uma tragédia pessoal. Quem sabe um acidente de carro ou com qualquer outro meio de transporte.
- Ou seja teria de acentuar as minhas maleitas físicas com algo de carácter trágico?
- Ora aí está! Carga dramática!
- Estou a entender. Muito obrigado pela atenção. Tenha um bom dia.
- Bom dia!

11 MESES DEPOIS…

- Bom dia. Gostaria de me candidatar a um subsídio e a uma bolsa de estudo.
- Ora muito bom dia! Espere, estou a reconhecê-lo. Já cá esteve, não esteve? Na altura estava em clara infracção para a obtenção de subsídio e bolsa. O que o trás por cá?
- Exacto. Entretanto tive um acidente de viação.
- Lamento, meu caro. Esta vida… só nos trás desgostos. A estrada é um perigo! Ahhh… bem vejo, sim senhor. Muito bem! Noto que está em pior estado que da outra vez. Efeitos do acidente, presumo.
- Exacto!
- Ora vamos lá a ver! Cadeira de rodas... Sim senhor, muito bem! E a pernoca que tinha?
- Esmagada no acidente.
- Uiii homem! E que tem no rosto?
- Embati no tablier e quebrei o nariz. Perdi um olho no desastre.
- Ai homem, realmente! Que caso o seu! Lamentável. Uma tragédia! Bom… Parece que tem os requisitos necessários e exigidos para obtenção de vários subsídios e uma bolsa de estudo. E já agora, permita-me ofertar-lhe esta magnífica cadeira de rodas eléctrica, confortável e topo de gama para que possa deambular
com maior segurança e conforto.
- Muito obrigado.
- Não tem nada que agradecer. Estamos aqui para isso. A vida pode ser uma desgraça pegada, mas há que ter algum gosto nas coisas, não é mesmo? Ora muito bem! Tenha um bom dia.
- Obrigado, bom dia.

Telefonema para a Morte


Olá, olá… olá…
É da casa da morte?
-Ela não está.
Quer deixar recado?
-Há dias que a aguardo e ela nada…
Nem um telefonema.
Não é conduta digna de uma identidade estatal…
Comprei a minha extinção há seis meses.
Que desrespeito.
-Já disse que não está.
Quer deixar recado?
-Vá-se foder e seus sofismas de merda. Simpatia meta-a no rego do cú.
-Quer deixar recado ou não? Tenho uma encomenda para receber. Uns tapetes de Arraiolos lindos…
-Arraiolos? - Sim. Arraiolos.
-De que cor? - O que isso lhe interessa? Acabou de me ofender.
-Desculpe, não foi por mal, a sua patroa tira-me do sério. Onde é que ela foi?
-Foi comprar uma foice nova e fazer implantes mamários.
-Será que ela as mostra antes de extirpar os clientes?
-Mostrar o quê?
- As mamas, ora essa.
-Quer que pergunte?
-Deixe estar.
-Tenho os tapetes a chegar. Decida-se, quer deixar recado ou não?

Entrevista a Nicolau Joaquim

- À lareira ou entre os lençóis?
- Em todo o sítio.

- Onde é bom namorar?
- Prefiro entre os lençóis.

- O que se faz numa tarde de Outono?
- Ando com os meus filhos ao colo.

- E numa noite de Inverno?
- Limpa-se o jardim.

- Castanhas assadas, ou marmelos cozidos?
- Água-pé, sempre.

- Água-pé, ou água com gás?
- Depois de uma bela “castanholada”, vai sempre uma “marmonholada”

- Se o pai natal existisse oferecia-me…
- O meu amor de Verão já dura há doze estações.

- Os amores de Verão só duram a estação?
- Aquilo que já me deu até hoje.

- Quem convidava para ir à vindima?
- O presidente da república.

- E quem deixava a gelar à porta de casa?
- Os meus pais.

- Casacos de pele verdadeira, sintéticos ou imitações?
- Cozido à Portuguesa, apesar de gostar muito de sushi.

- Cozido à Portuguesa ou sushi?
- Imitações.

- Quem enfiava no seu edredão?
- O presidente da república.

- E quem mandava para o pólo-norte, com uma passagem só de ida?
- Os meus filhos.

- Ainda tem férias este ano?
- Ainda não decidi.

- Onde vai passá-las?
- Forçadas.

- Se descobrisse um mirone na praia, o que lhe fazia?
- Em pêlo.

- Cinto de ligas ou pijama?
- Perguntava-lhe para onde estava a olhar… talvez valesse a pena.

- Bronze na neve ou numa ilha tropical?
- Sempre preferi as quintas.

- Quinta das celebridades ou Ídolos?
- Bronze numa ilha açoriana.

- Fernanda Serrano ou Bárbara Guimarães?
- São os dois “espectacolares”!

- José Castelo-Branco ou Paulo Portas?
- As duas, claro!

- Quem me dera…
- Recolha.

- Outono é…
- Voltar à Gardunha.

Viver

O meu fígado está um deserto, árido e negro como os meus bofes. Todas as minhas entranhas estão secas. Para inverter esta tendência nefasta, a mulher dá à luz. Ao homem, é lhe mais difícil, o homem só consegue travar o processo, no imediato instante antes de cair por terra, atingido por um projéctil, na mais sangrenta guerra.

Vinte e seis de Maio, de mil novecentos e noventa e seis

Os receios de que o meu costumeiro lugar no café, (não sou costureiro) estivesse tomado, depressa passaram, ao constatar, pela montra do mesmo, que aquele estava vago. Hoje é um dia particularmente atreito para fumar cigarrilhas.
Há vida no café, ecoam gargalhadas, as pessoas sorriem em demasia. Sentei-me mesmo por detrás de duas irmãs, que correspondem perfeitamente aos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade. É tão certo chegar a conviver com elas, como é certo não cortar a picha da viúva na mesa ao lado.
Ambas usam blusas que me permitem visionar-lhes uma secção das espáduas. Lanço olhares furtivos, na tentativa de vislumbrar a roupa interior que trazem. Quererei mesmo ver-lhes as cuecas, ou é assim que me devo comportar?? Julgo que a irmã mais velha não traz cuecas, pois ao se agachar, para recolher uma moeda, por acidente caída no chão, observo-lhe a regateira do cú belo.
O meu chá atingiu a cor dourada devida, pelo que procedo à sua ingestão; uma punk com sida, exclama para os seus companheiros:
- Já estou melhor...
Já está melhor com certeza, da sua adição às drogas. Acende-se outra cigarrilha, para me acalmar os nervos, em pilha.
A minha atenção volta-se para a mesa de Hilário sem colhões, está com outro indivíduo e com mais dois elementos do sexo oposto ao dele; estas não preenchem os requisitos mínimos de beleza sociais, ao contrário das duas irmãs atrás referidas, que estudam psicologia clínica. O chá ainda está algo quente, pelo que suspendo a sua ingestão.
As restantes mesas encontram-se preenchidas por forasteiros sem qualquer interesse. O meu olhar vicioso, detém-se em uma rapariga de blusa de lã, tingida de verde e cabelos compridos, não sei se é bela, pois está de costas para a posição em que me encontro. No exterior, uma buzina estridente soa muito alto, de salto alto está também a rapariga de camisola verde.

Viagens da pantera

A pantera adorava viajar depressa, como adorava viajar devagar, a sonhar, a divagar. Certo dia, quando era uma gorda com caspa foi avistada a jogar à carta com dois velhos numa venda, sem venda, à venda. «Por amor de Deus.» disse ela, «Deixem-me da mão seus paparazzis dum cabrão», a partir daí nunca mais apareceu em revistas do social, ponto final. Teve um grande desgosto que lhe valeu uma depressão e uma ida ao hospital central do barlavento Algarvio, muito sadio. Foi alimentada só com bolos de doce-fino e bebia amarguinha, que é assim que se tratam as depressões no Algarve, terra muito bonita por sinal; nos casos mais graves administra-se aguardente de medronho, mas isto só a doentes crónicos, que padecem de muitas dores.
A pantera tinha sobretudo dor-de-alma, por ver ao que, a humanidade estava entregue, como caminhava mortalmente para o seu inevitável fim. Era triste de facto, mas resignada como era, nada fez nem nada podia fazer. Certo dia foi aos espíritas, saber se o seu caso tinha solução. Foi atendida por uma velhota muito simpática, que a chorar lhe disse assim:
- Minha filha, tens o Diabo Carlos no corpo...
Impávida e serena, a pantera dirigiu-se ao ministério da educação, onde exigiu que lhe fossem servidas cabeças de peixe em salva de prata. No referido ministério, toda a gente se agarrou uns aos outros e choraram até desvendarem este mistério. Panaceia estranha, para quem anseia um pouco de calma na vida, sem vida.
Era triste vê-la assim deitada no capim a gemer, sem sofrer, quase em coma alcoólico. Quem lhe valeu foi o seu amigo Zé Boga, que a levou a um instituto de recuperação, em que todos os médicos eram cegos de nascença, sem parecença entre si, sem qualquer grau de parentesco que lhes valesse, e impedisse as tentativas de suicídio por demais frequentes.
Eram cegos também para evitar que reconhecessem antigas figuras, e mesmo as recentes, do meio social.
A pantera nunca recuperou totalmente as faculdades, e passou a depender de terceiros.

Um menino chamado Jardim Zoológico

Era uma vez um casal, que tinha um filho, a que decidiram chamar Jardim Zoológico. Jardim Zoológico tinha neuroses de guerra, antes até de nascer; só se lembra de que viu umas luzes, e um grupo que foi até à Madeira, em turismo. No primeiro dia, estava a ser um bocado sedado, até que foi a reuniões, para falar disso. Jardim Zoológico evoluiu, e teve um acidente de avião, andava sempre no mesmo filme, de perfil, para as câmaras de televisão, fazia sorrisos lastimosos, babosos às vezes. Com cinco anos, já tinha placa dentária, e mordia nas crianças deitadas na estrada, mordia os com ferimentos ligeiros, e os que apresentavam risco de vida.

Treze de maio

Apetece-me matar, à facada, com um caco de vidro fosco, a estrangeira, ou as estrangeiras de sessenta e poucos anos, que gargalham na mesa em frente. Suponho que tenham uma cona velha, toda furada. Ao ritmo do rock and roll, despir-lhes-ia as calças, não sem antes lhes descalçar as sandálias de cabedal; depois, muito calmamente, contemplaria as suas cuecas de renda vermelha, (que usam para parecerem jovens) depois contemplaria, num misto de náusea, enjoo e respeito, os seus genitais, a púbis toda rapada (aspecto que, mais uma vez, tem como objectivo, simular a sua graça e juventude perdidas). A guitarra, na aparelhagem do café, solta um som de guitarra rouca, e as velhas estrangeiras riem, e bebem vinho tinto, sem nada respeitarem. À mais velha, gostava de lhe apagar o charuto na testa, para ver se não ria tanto. Tomo um gole de chá, acho-o demasiado quente (estou disposto a fumar todo o meu tabaco).
Só agora reparo que, trazida pela cítara, não é Telma que se senta na mesa ao lado, tudo isso me desaponta, um bocado. As putas estrangeiras, afinal, lambem sangria, como a menstruação que já tiveram. Cheira-me a tabaco de cachimbo, e um homem de brochas nos sapatos, avança para junto da esposa, ao ritmo de música cubana. Cubano é também o meu tabaco.
A maioria dos vícios, no seu expoente máximo, fala latim. Confusão, ondas de confusão invadem-me o cérebro, em convulsões metafísicas. Eis que chegam seis ingleses, a raça mais asquerosa do planeta, que deixou o seu legado aos americanos; como me satisfaria escarrar-lhes na fronte, e vê-los franzir o cenho, amofinados!!!!
Caos e desordem, percorrem-me os nervos em desordem.
Ao balcão está sentado um cigano, com quem cresci, devia-lhe bater com uma tábua, em que um prego ferrugento espetado, se encontrasse.
(Depressa passarei às cigarrilhas)
Ondas de fumo sáfico dançam em volta de mim.
Eis que sou um serafim, sem fim, danço e revolteio-me no chão de papelão, coberto por naperons mágicos, abençoados pelo papa, sua santidade, obra da santíssima trindade. Música ininteligível, embrulha-me os olhos e enxameia-me os ouvidos. Uma prostituta qualquer, que percorre a madrugada fria, diz a um cliente em potência, que por dez euros apenas, não fode.
Cliente – Dou-te vinte e cinco, e vais com sorte.
Puta – Com vinte e cinco, só cona, se quiseres os três pratos sai-te mais caro, querido.
Cliente – A cona basta-me... porém quero-te com as mamas a descoberto...
Puta – Não seja por isso, podes apalpá-las até te fartares querido.
A puta é portuguesa, nacionalidade que vai escasseando, no meio das meretrizes.
Cenário: Estão ambos, puta e cliente, numa pensão, o cliente lava-se na casa de banho, a puta descobre-se no quarto.
Cliente – Estou pronto para foder, mas essa cona pentelhuda e tuas axilas de exagerada pilosidade, indispõem-me.
A puta levanta-se e vai à casa-de-banho, depilar-se. No quarto, o homem mexe na pila.
Cenário: A puta, completamente depilada, surge no quarto, ouve-se música de órgão. A puta, detém o olhar no órgão do cliente.
Puta - Ficas tu, ou fico eu por cima?
Cliente – Eu fico por cima, se Deus me dotou de caralho, foi para foder, e não para ser fodido, como às vezes sou, e mal pago pelo serviço...
Puta – Quem paga é que manda!
Cenário: O cliente, de pé, aguarda que a puta se deite. A puta sorri, deita-se na cama e ajeita a peruca loira, com um sorriso de cariz trocista. Fodem.
Acabado o serviço, o cliente, muito delicadamente, pede à puta para se esporrar nas mamas dela.
Puta – Mais cinco euros, e podes te esporrar onde quiseres.
O cliente paga, e esporra-se na cara da puta.
Cenário: A puta, com a cara coberta de sémen, vai-se lavar na casa-de-banho, veste-se e sai sem se despedir.
Sozinho, o homem chora, nú, deitado em cima da cama, as suas misérias.
Apetece-me uma cigarrilha, apetecem-me várias cigarrilhas. Uma cigarrilha que me é posta na boca por uma cigana, feita às postas (não a cigarrilha, mas a cigana). A minha caneta, provoca-me uma estranha, e ao mesmo tempo, vontade de escrever. A minha caneta azul-escura, é um leme partido; uma bússula sem norte.
Um velho marinheiro, abusa sexualmente de uma pré-adolescente surda-muda, que vage ensurdecedoramente. É o garante da casa. Mil marinheiros, abusam de mil pré-adolescentes surdas-mudas, que se entregam sem lamento. As suas vaginas, túmidas e húmidas, acolhem caralhos de velhos marinheiros. Com tanto amor para dar, e os velhos marujos escolhem precisamente garotas surdas-mudas:
Uma cigarrilha é uma ilha,
uma ilha onde vivem duas mulheres
que se amam, como a uma filha.
Colhem flores, para Ceres.
A definição de amor que nos surge no dicionário, é apenas uma aproximação muito vaga:AMOR – o amor é: duas mulheres que trocam um beijo, sem mais nada, sem sexo; o amor não é algo sem nexo, não é inconcreto. Apenas é preciso ser-se duas mulheres, que trocam carícias sinceras, para se descobrir o amor. É calor, num mamilo túmido.

Tragédia à porta de casa

Preparava-me eu, para abandonar o meu apartamento, modernamente mobilado, quando recordei que não levava comigo, as bem amadas cigarrilhas cubanas, que gosto de fumar. Olvidando-me da porta aberta, procurei na sala-de-estar, a caixa onde conservo as afamadas. No interior desta, tinha para aí umas dez ou sete caixas de Cohiba, todas com uma singela cigarrilha apenas, embrulhada em um pedaço de papel pardo, até estavam duas metades fumadas de cigarrilha.
Enquanto acondicionava as cigarrilhas, devidamente na cigarreira, entrou-me em casa o João Velhinho, e começou a escreve, com canetas verde e vermelha, nos meus documentos do Estado Novo. Estupefacto, sentei-me à mesa da sala, e ali fiquei, impotente ante a catástrofe. O João Velhinho continuava, incessantemente, a laborar, entre palavras untuosas, ia-me explicando que, os documentos assim é que estavam correctos. Na esfera armilar que encimava os documentos, desenhou ele uma enorme roseta.

Taxismo metafísico

Um dia, estava um taxista de Aljezur, que se chamava Anaximandro Ramalho, à espera de clientela, de trabalho... Senão quando, lhe surge um freguês todo aperaltado: de gravata e fato, com sapatos de verniz:
- Senhor Ramalho? – inquiriu o estrangeiro, alcançando já, o manípulo da porta do táxi.
Já no interior do mesmo, o senhor Anaximandro fitou o passageiro pelo espelho retrovisor, que retro vê, portanto, como que o interrogando acerca do destino. Este estava a remexer na papelada, que trazia em uma mala, e só depois reparou:
- Senhor Ramalho, vamos para o caralho... – pediu o passageiro, erguendo em um repente a cabeça, e logo de seguida mergulhando na papelada:
- Levo-o até ao caralho, mas não fico lá.

Tarefa doméstica

Acabado de acordar, deambulo de truces pelo corredor de minha casa. Passando por uma janela da mesma, com vista para a marquise da vizinha, reparei que o seu filho a ajudava a estender a roupa, de um modo muito sui generis: com os pés apoiados em um pequeno beiral, que a parede tem, este recebia a roupa que a mãe lhe passava para estender. Estavam ambos muito divertidos, com aquela situação, gargalhando por vezes, em alto e bom som, que nem repararam que o vizinho do terceiro andar direito, os observava, estupefacto.

Sonhos

Era uma vez um cão que era um sonho. Bebia aguardente como quem sente, será chuva quente ou será aguardente. Mijo no penico que está na sala, e que o cão bebe da minha mão suada e pegajosa, nasce o verso fácil, demasiado fácil, enquanto estalo um dedo do pé. Porém com pouca fé, pois sei que hoje ou ontem, a morte espera-me de pé, que é assim que morrem as árvores; até os mais humildes e/ou renitentes (estou seguro de que, definitivamente, uma coisa não implica a outra) morrem de pé. Vejamos o caso de um pessegueiro, é uma árvore mui nobre; quem não gosta de pêssegos? Há-os molares ou durázios, ou ainda, como comummente são chamados: “pêssegos de roer”. Não te esqueças dos carecas, aponta-me a razão esta falha, ou esquecimento grave. Eis que surge a oportunidade para o trocadilho fácil, a que a pena não se nega; como esquecer os carecas, se estes estão por toda a parte?
«Ria-se menina.», senão conto outra, tão ou mais bera que esta. Estou com formigas nos olhos, é terrível matar esta bicharada, nem com pós DDT, isto lá vai (não há nada que um bocadinho de água-raz, ou ácido muriático, não resolvam).
De quando em vez, faz-me falta assim uma maratona destas, correr sem descanso, pelo horizonte branco do caderno branco, deixar a minha marca indelével na folha, que tão bem pode ser queimada. A minha mão parece o Carlos Lopes, não para nem em rotundas, nem em stops. É tão elegante, a forma como a minha mão desenha palavra após palavra, nestas matas de lã. Trigo candial, farinha do.As gaivotas longínquas (que na verdade, estão aqui tão perto, embora inacessíveis) parecem gatos a miar, com o janeiro; filhos-da-puta, fazem um cagaçal, que não deixam um gajo dormir. Estou em frente duma terrina da Vista Triste, que está recheada de patê de gato, patê de gato, que deve ser acompanhado com vinho tinto, senão não tem graça alguma, agora cá patê de gato, sem vinho tinto?! Invejo as gajas que têm comichão na cona, como comem elas tão bem o patê de gato sem vinho, pá!!! Até mete impressão, outro diria, outrossim, que metem cobiça, pá??? Que sina a minha, de não saber desenhar pontos de interrogação correctamente, parecem dois com um ponto em baixo, é castigo divino, de certeza, que numa vida passada, comi patê de gato sem vinho.