Urubu Cultural

Urubu Cultural

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A.F.E.F.D.


 Esta singela historieta decorre, numa época em que todos os tabus sociais, afligidores da Humanidade durante o início do século XXI, estavam completamente resolvidos; a saber, encontravam-se, para todos os efeitos liberalizados: o aborto, a eutanásia, o consumo de todo e qualquer tipo de estupefaciente, a prostituição, o casamento homossexual e adopção de crianças por parte de casais de pessoas do mesmo sexo. Enfim, graças ao crescente esclarecimento da generalidade da população, que por moto próprio procurava instrução e conhecimento, as pessoas deixaram de querer interferir na liberdade do seu próximo.
 Contudo, o senhor Jafo Dias não se encontrava totalmente satisfeito e, certo dia, ao raiar da alva, dirigiu-se célere mais uma vez, aos guichés do Departamento para a Resolução de Tabus Remanescentes. Expondo ao funcionário que o atendeu, com enorme fidúcia e inexaurível determinação, o seu caso, e vendo novamente a sua sugestão indeferida, ergueu o braço direito, de punho cerrado e, em tom de ameaça, ao mesmo tempo que exclamava impropérios: «Vão pró caralho, filhos de puta…», «Vão-se todos foder, paneleiros de merda…», abandonou as instalações do departamento.
 Na tarde desse mesmo dia, Jafo Dias criou a A.F.E.F.D., Associação de Famílias que Escravizam o Familiar Deficiente.


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A lusitana troika otarídea


 Na branca aridez da tundra siberiana, um pequeno bosque de pálidos abetos, vergados pela fenomenal fúria do vento glacial, tenta resistir; como um grupo de indefesos mujiques, à investida de uma horda tártara. No seu interior, um jovem boiardo, a quem o grosso cafetão, e as toscas botas de casca-de-tília, também não resguardam das trespassantes lâminas gélidas da geada, tenta a muito custo acender um vetusto e ornamentado samovar de prata, com o fim de preparar um chá que, pelo menos, lhe aqueça o espírito, igualmente gelado como o corpo, mas por razão diversa, que mais adiante no conto se dirá qual.
 Pois estava o mancebo, a modos que acocorado diante do samovar, quando lhe pareceu ouvir, atrás de si, uma muito leve e estridente risadinha. Voltando-se súbito, nada viu, atribuindo a causa dessa sensação à fome que lhe atormentava o estômago, ou a alguma arremetida mais vigorosa da silvante ventania, acossando a fina caruma dos abetos. Tornando à sua primitiva posição, reparou, não sem espanto e surpresa, que à sua frente pairava o almofariz da baba Yaga. Esta, por sua vez, fitava-o, de sorriso desdentado, segurando seu pilão numa mão, e na outra a vassoura de bétula. Estupefacto com tão singular aparição, que o rapaz conhecia das ameaças que sua ama lhe fazia na infância, e tendo sido, com o decorrer dos anos, relegado para o plano da fantasia, deixando de acreditar, gradualmente, que em caso de fazer alguma travessura, pudesse mesmo vir a ser raptado, pela velha que tinha agora à sua frente.
Sem mais delongas, a idosa encetou diálogo:
- Então, filhinho, que fazes tu aqui perdido, no meio desta borrasca?
Hesitante, o rapaz a muito custo, titubeou a sua resposta:
- Fujo dos assassinos de minha família…
- Ai sim? – retorquiu a velhota, nunca deixando de sorrir, ao mesmo tempo conferindo a seu tom de voz, um não sei quê de sarcástico.
- Pertenço a uma família de boiardos moscovitas, descendente de portugueses, perseguida agora pelo czar Ivan, o terrível.
- E como te chamas tu, netinho?
- Foma Victorovitch dos Santos.
- Bem vejo…
 Durante o tempo em que decorreu a conversa entre os dois, a baba Yaga nunca fitou seu interlocutor nos olhos, recaindo sempre toda a sua atenção no samovar de prata, agora fumegante, pelo que interrogou:
- Acaso estarias interessado, em trocar teu belo samovar?
- Trocar pelo quê?
- Assim que me lembre, só tenho uma troika, que não carece de cavalo, nem qualquer outra besta de tiro.
Acicatado com proposta tão sui generis, Foma perguntou:
- Então se não tem precisão de besta essa troika, como se move então?
- Estás a ver a minha casa?
- Sim…
- Pois em vez de pernas de galinha, tem esta troika, incansáveis barbatanas de leão-marinho, que impelem os esquis pela neve – confiante de que estava a levar água ao seu moinho, a anciã ainda reforçou sua proposta – Se aceitares a troca, ainda te concedo um qualquer desejo!
Fascinado com o facto de puder vir a ser o proprietário de uma troika automóvel, o mancebo acedeu de imediato à tentadora proposta da baba Yaga, que preste fez surgir na sua frente o fenomenal veículo. Erguendo-se, acto contínuo, o rapaz foi inspeccionar o produto de seu negócio. A velha não mentira, de cada esqui, efectivamente, como que nasciam duas vigorosas barbatanas otarídeas:
- Então…, e como a faço andar?
- Basta que te sentes em cima dela.
- E para parar?
- Basta que te levantes de cima dela.
 Predisposto a experimentar imediatamente seu novo meio de transporte, Foma fez como a mulher disse; instalando-se confortavelmente em cima da troika, logo esta começou a dar às barbatanas com tenacidade tal, que se afastou a toda a brida da anciã, pelo menos, uma makhovaya sazhen. Apesar da má fama que tinha, de comer criancinhas mal-comportadas, a honestidade era uma virtude, como já vimos, que não minguava no carácter da baba Yaga, pelo que acelerou o seu almofariz até alcançar Foma, agora muito satisfeito, percorrendo a nívea estepe russa, como a sua adolescência. Voando ao lado da lépida troika, a avozinha gritou ao moço:
- Então e o desejo a que tens direito?
Sem sequer olhar para o lado, o moço respondeu:
- Quero um nenuco aleijado, para me fazer companhia nas longas viagens, que empreenderei de hoje em diante.




sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ditadura Duracell


A ditadura Duracell
é talqual o papel,
em que inscrevem
a nossa cruz.

Dura, e dura, é dura
até que vem, pura,
a morte, e truz.

A pior cruz que há,
é a da semi-loucura;
é como cavar com uma pá,
na imberbe ternura.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Obtuso 21







Italiano, é o nome Gattuso.

Gato Gattuso.

Gato sem tusa, de sobrenome Fiuza,
remendos em inglês,
nascido em Fez:
- You are my special angel.
(com órgão a acompanhar)

Nada Muda




“Nada muda!”, exclamava,
e a muda nadava,
o seu treinador exaltado,
por demais amofinado.


A muda nadava por temor,
à pancada tinha horror,
que o seu treinador,
não lhe tinha amor.


Era a campeã dos para-olímpicos,
só perdendo para os paralíticos,
tinha braços musculados,
e cantava belos fados.


Não era muito bela,
mas nadava qual gazela,
tinha celulite,
e conjuntivite.


Porque hei-de continuar?
Com a sociedade a mudar,
vou já mas é parar,
preciso de abrandar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Península em guerrilha


Era uma vez, num glaciar, com um historial de enorme inflação, certo dique que se rebentou, formando-se desde logo enorme lagoa. Resultou esta tragédia, da explosão de uma bomba atómica e, desde logo, ficou comprometido todo o regadio de um xamã, que passou a dedicar-se à pesca de arrasto, em detrimento da agricultura intensiva. Contratara para seu auxílio um refugiado, fugido de uma revolução para ocupar terra fértil, num arquipélago onde prevalecia a agricultura de subsistência, e havia, como sanção: a obrigatoriedade de trabalhar no sector de serviços, ou na produção de copra, que era o mais abundante recurso natural do principado.
 Certo dia, um terrorista tentou, a introdução da cultura de sorgo, bem como, a fabricação de produtos têxteis mas, dada a falta de matéria-prima e recursos minerais, em dado planalto, onde os estragos da monção afectavam principalmente: a indústria química e a cultura de mandioca, começaram a escassear os bens de consumo. Foi a vez de um pagão investir numa plantação, o que desde logo fez estalar uma guerra civil, móbil principal da derrocada de todo o império, caído por terra no espaço de tempo, que demora a erupção de um géiser no equador. Voltou-se então, toda a população, para a agricultura de corte e queima, tendo tido esta actividade, como consequência imediata, uma forte seca; ninguém, de resto, mostrou qualquer empenho na recuperação de terras.
 Urgia uma reforma democrática, que foi levada a bom termo por um robô, na medida em que apostou na monarquia, como forma de organizar o território, onde mandou cunhar moeda, e procedeu à conservação de determinado vale, outrossim de um bazar na planície, onde vendiam rebuçados para as dores de garganta, de um minoritário grupo étnico adepto do comunismo, e intolerante no tocante à pessoa imigrante, pois temiam a ameaça que representa a energia nuclear, nas mãos de um povo nómada, monopolizador da indústria petroquímica.
 Foi de imediato instaurado um regime de apartheid, que teria como missão, o controle da despesa pública afluente. Presidido por venerável ancião, cujo espírito era um santuário, tratou imediatamente de rever a legislação com um caçador furtivo, originário de uma província onde prezavam a democracia e a economia, mas não a poluição. Extinguiram todo e qualquer tipo de subsídio, medida causadora de forte corrupção, mas fertilizante da rede de comunicações.
 No feriado chegou um exilado da era glaciar, organizou uma grande festa, revitalizadora do cultivo comercial, que permitiu o combate à erosão, preparando assim, as bases para a instalação de uma república num longínquo atol, onde este passou a residir como emigrante independente. O seu principal investimento, foi no mercado livre nativo, produtor de um conhecido pesticida, empregue na savana em dias de furacão. Com a assumpção de funções por parte de um governo militar, foi decretada a protecção do veld, e alterado o fuso horário do atrás mencionado habitat, por ser importante colónia de uma empresa multinacional, ligada ao ramo da agricultura na tundra.
 Evoluiu muito, desde esses tempos, a civilização: em parte graças à indústria manufactora, em parte graças ao combate ao racismo, que permitia a possessão dos descendentes, posteriormente empregues no cultivo, na refinaria, e não na navegação. Eram alvo de constante censura, e impedidos do livre acesso à electricidade geotérmica no bairro de lata, onde o colono atirava, de uma escarpa, quem tinha fome e não entendia o seu dialecto. Contudo, a desflorestação provocada pela chuva ácida, como que promoveu um pacto federal, condenatório dessa actividade fóssil, em todo e qualquer fiorde em forma de delta. Seguiu-se a inevitável greve, mobilizadora de toda a Humanidade, reclamando por energia hidroeléctrica e pelo aumento do PNB, sempre contrariada por parte do movimento ecologista, recusador determinado da eleição multipartidária no protectorado. O Estado passou a proibir a importação e a exportação, com a rapidez de um ciclone, como havia feito seu antepassado, apologista da eleição democrática, mas já extinto. Sobreveio um enorme tumulto, que pôs fim à escravidão opressora, qual tufão equatorial.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A minha porteira


 Passo horas sentado, no patamar do primeiro andar das escadas do meu prédio, contemplando minha porteira, sentada na sua velha cadeira de pinho. Não consigo resistir à tentação de vê-la levantar a saia, e ajustar as correias de couro já bastante roçadas, que lhe sustentam a grossa e tosca perna de pau, todos os dias espreito, regalado, por entre os balaústres, as suas rugosas e calejadas mãos, com as unhas todas cagadas, ajustando as fivelas dos cintos de couro. Certa vez, vi-lhe mesmo o couto, bem como, toda a parafernália de cabedal e madeira que lhe permite caminhar, sem a ajuda de uma muleta, nesse dia em que o céu estava nublado e ameaçava chover, talvez incomodada pela condição meteorológica, talvez simplesmente, para se sentir durante alguns instantes, liberta do incómodo da pressão das correias, decidiu tirar a sua prótese. Começou por levantar a encardida blusa branca de lã churra e, de dentro da imensidão de gordura que é o seu ventre, vi surgir uma, das muitas correias de couro: esta, que conferia estabilidade ao nível da cintura, foi desafivelada, de seguida, procurou a virilha, onde se notava uma certa cor escarninha, possivelmente devida ao constante roçar, de mais uma correia de couro nessa região, correia essa que também foi desafivelada, tal como a anterior, embora com muito esforço, pois os enormes seios e dilatado ventre, que atrás referi, bloqueavam o raio de visão da minha porteira, impedindo-a de ver o que fazia. Enquanto se debatia por alcançar este último objectivo, prendeu a longa saia de chita entre o queixo e a zona supra-esternal, e foi senão quando, pude contemplar o tanta vez esperado, o tanta vez ansiado, o motivo de tantas noites sem dormir, divagando, de sorriso prazenteiro nos lábios, sonhando e imaginando, «Ah, se eu pudesse vê-la, só vê-la, não peço mais nada...», como adormecia..., exausto, já madrugada fora, com este desejo frustrado macerando-me o espírito. Mas desta feita pude ver, pude ver a sua púbis, pude estremecer por completo, de êxtase e excitação, desejando que nunca acabasse tal momento de contemplação, bebendo, como um sedento, todo aquele néctar de maravilha e beleza, pois, pela primeira vez, pude admirar a genitália feminina, ainda para mais, a da minha porteira, que era enorme e negra e bela, como uma noite de lua-nova, foi uma imagem que me ficou gravada, qual epitáfio em lápide funerária, na memória, para todo o sempre.
 Contudo, o desaparelhamento da perna-de-pau continuou, e a expectativa, depois de tão magnífica revelação da intimidade feminil, para observar o couto da minha porteira, aumentou substancialmente. E assim prosseguiu, à correia da virilha seguiram-se mais duas: uma que apertava sensivelmente, a meio da coxa, e outra que apertava entre esta última e a perna de pau, que foram também desapertadas. Todas as quatro correias de couro, até agora mencionadas, estavam cosidas a outras duas do mesmo material, desta feita de orientação vertical, uma que passava pela frente do couto e outra, obviamente, por detrás. Alargando a saia aos poucos, com uma mão em torno da vasta cintura, e puxando o aparelho para baixo com a outra, conseguiu finalmente livrar-se da primeira correia, que lhe cingia a cintura, podendo assim se libertar por completo da sua prótese, e colocá-la perto de si, no chão de tijoleira. O meu espanto foi tanto, como o alívio da minha porteira, ela por se encontrar finalmente livre daquela, que deve ser!?, a incomodativa pressão das correias de couro, e poder espreguiçar o couto à vontade, sem o enorme peso da perna-de-pau; eu, por ver aquela porção de carne mole, engelhada de cicatrizes, onde deveria ser o início do recto femoral, quando não era mais que um amarfanhado de carnes pendentes.
 Começava mais um dia, cadenciadamente, com o nascer do sol, a fraca claridade ia-se transformando em luz. Através das portadas fechadas da janela do meu quarto, insistentes laminas de fogo trespassavam a treva reinante, ainda deitado no meu leito de ferro azul-celeste, a necessidade premente de urinar, agoniava-me profundamente, impedindo-me de continuar a dormir. Acabei por me levantar contrafeito e ir satisfazer a necessidade que urgia, terminada esta e a higiene matinal completa, decidi ir tomar rapidamente o pequeno-almoço, para tornar ao meu posto de atalaia, aguardar a minha porteira que, pontual como sempre, não devia tardar a se sentar no pátio do prédio, ajustando as fivelas das correias de couro. Quando me encaminhava para a cozinha, ao passar pela sala, reparei que a minha irmã Zópira já lá estava, amarrada à sua costumeira cadeirinha, gritando insistentemente, por um pouco de atenção. Aproximei-me, e quando lá perto, é que reparei no fétido fedor que dela emanava, certamente, pela manhã, meu pai quando a pôs no bacio, não deve ter tido vontade de defecar, e só agora o tinha feito, para além disso, tinha também as meias e as sandálias encharcadas em urina, escorrendo pelas pernas abaixo, para o escuro soalho de ébano, formando já uma poça por debaixo da cadeira. Perante este triste panorama, não me restou outra alternativa que não fosse, a de adiar os meus planos, para ficar a consolar a minha irmã, inventando alguns jogos e passatempos, para ela se esquecer da imundície em que estava, enquanto esperava que a minha mãe acordasse. E assim foi, fiquei para ali uma meia hora a lhe entreter, tudo correu bem, até que de um momento para o outro, Zópira adoptou uma expressão grave e, da podridão negra da sua boca cariada, começaram a pingar grossos fios de baba, acompanhados de uma leve lamúria chorosa; seus músculos retesaram-se e deu início a um enérgico estrebuchar, talvez no ímpeto de se libertar, ou... não sei... A princípio, quando observei este estranho comportamento, depois de uns alegres momentos de felicidade, não o compreendi, e só numa análise mais cuidada, cheguei ao cerne do estranho procedimento, Zópira contorcia-se com dores! Cheguei a esta conclusão, ao observar a enorme ferida, de uma cor indefinida, entre o encarnado e o preto, que sabia que a minha irmã há muito tinha no pescoço, pois desta, que apresentava um horrível aspecto de infecção e gangrena, provinha um corrimento semelhante ao pus em consistência, mas com uma cor acastanhada semelhante a azeite queimado. Sem saber o que fazer para lhe aliviar o sofrimento, fui imediatamente ter com a minha mãe, que ainda dormia no seu quarto. Informando-lhe do que se passava com Zópira, esta mandou-me comprar sanguessugas, e que não lhe incomodasse mais. Assim fiz, vesti-me à pressa e desci à rua, corri alguns metros até à farmácia, acabando por me deparar com esta ainda fechada, sentei-me por uns momentos no passeio, a pensar no que poderia fazer e, depois de matutar no assunto durante alguns minutos, cheguei à conclusão que deveria ir ao ribeiro, eu mesmo, apanhar as sanguessugas.
 Caminhei sensivelmente perto de três quilómetros, até alcançar o meu destino, ali chegado, deparei-me com um estreito e calmo ribeiro correndo placidamente, por entre a parca vegetação estival; encetei a minha tarefa começando por esgaravatar no lodo, levantando seixos do fundo do ribeiro, em busca das tão ansiadas sanguessugas, encontrando algumas, de facto, mas só depois me lembrando de que não tinha trazido qualquer vasilha ou outra espécie de contentor, para as levar no regresso a casa. Depositei as sanguessugas na margem e tentei improvisar um cesto com um pequeno tronco oco que descia ribeiro abaixo, agarrei-o e, com pedras e lodo isolei, como pude, uma das extremidades, colocando pela outra as sanguessugas e voltando a casa, o mais rapidamente possível.
 Quando cheguei ao limiar dos portões da minha cidade-estado, já a canícula era insuportável, sendo quase impossível caminhar ao sol, avancei ainda mais alguns metros até ao meu prédio, mas desta feita, sempre junto as habitações, na tentativa de me proteger do calor e da forte intensidade dos raios solares. Ao transpor, finalmente, a porta do meu prédio, o alívio foi instantâneo, pois no seu interior estava bastante fresco. A minha porteira já estava na sua habitual cadeira de sempre, sorri-lhe e dei-lhe os bons-dias, retribuiu-me um, «Bom-dia menino.», lançando-me eu em corrida escada acima, até à minha porta, enfiei a chave de casa na fechadura e entrei. Fui de imediato para a sala, onde a minha mãe já tinha injectado a minha irmã, com sua dose de morfina matinal, no intuito de lhe aliviar as dores e a ressaca, preparando agora nova dose para si, e tornado a injectar a seringa no mesmo sítio de sempre, na ferida da minha irmã, o que constatei facilmente, pelo aumentar do pútrido fluxo proveniente desta, que encardia o rico cabeção de renda e o chumaço do vestido, do seu lado direito. Percebendo a necessidade premente de ajuda da minha irmã, procurei o mais rapidamente possível, um meio de tirar as sanguessugas do seu invólucro improvisado, visto que as não podia agarrar, pois alapar-se-iam decididamente à pele da minha mão, sem as conseguir remover durante um longo espaço de tempo; optei por transferi-las primeiro para um pires e, só depois, para a ferida da minha irmã. Perscrutei todos os armários da cozinha, em busca do necessitado pires, encontrando-o num dos armários cimeiros, verti as sanguessugas para o mesmo, levando também uma faca de peixe, para me auxiliar na aplicação destas. Já na sala, a minha mãe, de garrote no braço, espetava agora a seringa, demoradamente, na sua veia cefálica, puxando depois o êmbolo desta para cima, com o intuito de confirmar, através do sangue que viesse ou não, para o seu interior, se estava bem colocada na veia, e só depois de, através do vidro graduado ter visto uns esmaecidos laivos de sangue, suspensos na morfina, injectou todo o conteúdo na circulação sanguínea; retirou a seringa do braço e também o garrote, acabando por se estender lassamente na chez-longue, em que se encontrava sentada, para assim melhor desfrutar da doçura da droga. Ao seu lado, mas desta vez não se devendo a qualquer tipo de dor, mas a alucinação do estupefaciente, Zópira espasmava e estrebuchava energicamente, estimulada por sabe-se lá que visões, aparições, ou estranhas formas, que agora percebia; avancei decidido para ela, e encostei o pires ao seu pescoço, acção que levou as sanguessugas a se agitarem bastante, espicaçadas pelo odor metálico do sangue tão desejado, uma a uma, com a ajuda da faca de peixe, apliquei as quatro na ferida da minha irmã, começando imediatamente a sua tarefa vampiresca, assim que se fixaram na chaga, de sugar o sangue coagulado.
 Ainda em jejum, sentia quer os membros superiores, quer os inferiores, a tremerem, necessitava de comer alguma coisa. O relógio da sala dizia-me que era já hora do almoço, meu pai não tardaria, por isso decidi esperar mais um pouco e fui-me estender na cama. Calculo que adormeci, provavelmente, durante meia hora, acordei talvez devido ao chamativo aroma a frango assado, proveniente da cozinha. O sono não me tirara a fome, pelo contrário, o desejo de comer era ainda maior, do que antes de me deitar, assim sendo, fui imediatamente para a cozinha, onde o meu pai, sentado à mesa, se preparava para almoçar:
-Ia agora te chamar, Pacheco... para almoçares.
-A mãe não quer?
-A mãe está a dormir na sala.
-A Zópira não come?
-Assim que acabar de almoçar, aqueço a papa e dou-lha.
Acabo, finalmente, por me sentar à mesa, puxando para o prato, um bocado de arroz de legumes e uma coxa de frango, que começo por dilacerar, como uma fera de circo, a toda a pressa. O meu pai, depois de procurar a garrafa de vinho verde no frigorífico, junta-se também a mim:
-A ferida de Zópira tem um aspecto terrível, já reparou? - indaguei eu.
-Ainda não, por acaso...
-Então, quando lhe dá a papa, não repara?
-Por acaso ainda não reparei... não... – tornou o meu pai, encolhendo os ombros, fitando o prato, como uma criança arrependida.
-Então repare desta vez, quando lhe for dar a papa, verá decerto as sanguessugas que hoje fui apanhar ao ribeiro, e que lhe apliquei.
-Foste apanhar sanguessugas ao ribeiro?
-A farmácia estava fechada.
E assim continuamos a refeição, em silêncio, durante mais uns instantes, quando meu pai tornou ao diálogo:
-Como é que a Zópira, desenvolveu uma ferida de natureza tão grave, como aquela? – inquiriu ele, sem nunca desfitar o prato.
-É a mãe, que lhe injecta o calmante, sempre naquele sítio. - retorqui, imprimindo ao semblante alguma gravidade.
E com esta resposta findou o nosso diálogo. Finda mais tarde, também a refeição, meu pai foi aquecer a papa da minha irmã, ficando eu encarregue de raspar os pratos; quando terminei a minha tarefa, fui ter com a família que se concentrava toda na sala, a minha mãe ainda dormia, de sorriso prazenteiro nos lábios, o meu pai, dava a papa à minha irmã, à medida que ia observando, preocupado, a sua ferida, onde ainda rabeavam as quatro sanguessugas:
-Então, viu agora? - interroguei em tom de censura.
-Vi, isto está muito grave, Pacheco... provavelmente vou ter de mandar abater a tua irmã…
-Se tivesse sabido disso, hoje de manhã, teria poupado uma série de encargos, por exemplo, o de caminhar seis quilómetros, de casa até ao ribeiro e de lá até casa. - rematando, desta vez sem qualquer tom de censura na voz, resignando-me, apenas.
De semblante muito carregado, o meu pai terminou de dar a papa à minha irmã, e ainda na última colherada, ordenou-me que fosse lá baixo, chamar a porteira imediatamente.
 Desci até ao pátio do prédio, onde a minha porteira comia sofregamente, uma sandes de moreia, acompanhada por um copo de vinho tinto, dirigi-me até ela e disse ao que vinha, que o meu pai a mandara chamar, respondeu que ia num instantinho, era só o tempo de acabar de almoçar. E assim foi, voltei de novo a casa e, decorridos sensivelmente cinco minutos, a minha porteira estava a bater à porta, fui eu abrir, convidando-a a entrar:
-Então... onde é que está o seu paizinho, menino?
-Está na sala, entre, por aqui..., se faz favor. - indicando-lhe o rumo da porta da sala.
Esperou que eu entrasse primeiro, seguindo-me depois, conduzi-a ao meu pai, que com o rosto carregado de gravidade, lhe sugeriu:
-D. Porteira, chegue até aqui, próximo da minha filha. - assim fez a minha porteira, sempre muito servil e envergonhada.
-Repare – indicando-lhe a ferida de Zópira – o que me diz a isto?
-Isso é abater... se fosse eu, era o que fazia, para a rapariga não continuar a sofrer, entende...?
-Com certeza. Encarrega-se disso?
-Encarrego-me. Para quando quer?
-Agora. Se possível?
-Deixe-me só ir lá abaixo, buscar os instrumentos e já volto – o meu pai, num gesto rápido, assentiu com a cabeça, e a porteira, voltando-se, encaminhou-se para a saída.
Desde o meio da manhã, sensivelmente, quando ministrou a morfina à minha irmã e, seguidamente se injectou a si própria, que a minha mãe dorme, impassível, estirada na sua chez longue de verga envernizada, de rosto prazenteiro, alheada de tudo em seu redor: do sofrimento da filha, das discussões sobre a sua doença, sobre o destino a dar-lhe e, o mais importante, a fulcral decisão acabada de tomar pelo meu pai, a de a mandar abater. Se bem que, porventura, venha só a acordar, depois da vida ter abandonado o corpo de Zópira, penso que será um acontecimento que, não irá perturbar em muito a sua vida quotidiana, pois, com efeito, sempre manifestou uma incompreensível falta de amor e carinho para com Zópira que, mais que ninguém, devido ao seu grave problema, necessitava deles.
 Dramas familiares à parte, o meu pai, enquanto a porteira não chegava, agarrou num livro de gravuras e, sentando-se num dos sofás, predispôs-se a folheá-lo; eu, por minha vez, acerquei-me da minha irmã, com o intuito de aproveitar os últimos minutos da sua companhia. Uma das quatro sanguessugas já tinha caído para o chão, esmigalhei-a com a ponta de uma das minhas botas de bezerra cardadas, provocando uma enorme mancha, quase imperceptível no chão de ébano, minha irmã estava manifestamente mais calma, não sei se pelo efeito do estupefaciente ou, simplesmente, devido ao cansaço que de alguma forma poderia sentir, ou ainda, por adivinhar que, de uma maneira ou de outra, o seu fim estava iminente.
 Com efeito, a porteira não demorou muito tempo, levando no máximo, na tarefa de ir buscar o seu equipamento, cinco minutos, e findos estes, já tocava a campainha da porta de nossa casa. Embora muito renitentemente, fui atender, a porteira entrou, assumindo uma postura servil, foi caminhando para a sala, algo curvada, numa posição quase venial, o semblante deixando transparecer um sentimento de receio e humildade, deslocava-se ainda mais lentamente que o usual..., enfim, comportamento este de todo injustificado, pois se há família no condomínio da qual ela não se pode queixar, de maneira alguma, ainda é da nossa, que a nunca tratou de forma injusta ou incorrecta.
 Reparando que a porteira tinha chegado, meu pai fechou o livro com que se entretera durante a espera, e colocou-o à sua frente, na mesinha da sala, erguendo-se, disse:
- Pode fazer o que tem a fazer.
Sem mais delongas, a porteira avançou até perto da minha irmã, pousou, na mesa da sala, a maleta de pinho que trazia consigo, seguidamente, procurou no peito, a chave pendente do pescoço, correspondente ao cadeado da mesma mala; abriu-a, e do seu interior retirou uma enorme faca de cabo de corno, conjuntamente com uma pedra de amolar, enquanto procedia a esta acção, a de amolar a faca, ia-nos olhando, a mim e a meu pai, tornando depois a fitar novamente a faca e a pedra. Quando achou que já era suficiente, ensaiou, na unha do polegar, a lâmina da faca, como não correspondendo ainda às suas expectativas, tornou a amolar a faca, voltando ao mesmo ritual, de ora nos fitar, ora fitar a faca e a pedra, mais trinta segundos volvidos e a minha porteira tornou a ensaiar a lâmina pelo mesmo método, desta vez com sucesso, pois o sinal de que agora era de vez, surgiu no seu rosto, na forma de um enorme sorriso, lançando-nos ainda uma última olhadela, preparou-se para a que, seria a estocada final.
 Agarrando muito gentilmente o cocuruto da cabeça de Zópira, inclinou-a muito lentamente, para a frente, com a ponta dos dedos que seguravam a faca; afastando a densa cabeleira loira de minha irmã, na região da nuca, procurou o sítio ideal para desferir o derradeiro golpe, achando-o na junção dos dois esplénios da cabeça. Apanhando, com a mão livre, em rabo-de-cavalo, todo o cabelo de minha irmã, e afastando-o do ponto que assumira como o ideal para a execução, tomou ainda um último fôlego, elevando nos ares, o mais alto que conseguiu, a faca e, sincronizando com o movimento de posterior expiração, desferiu a facada que haveria de roubar a vida a minha irmã.
 Apesar de violenta, a morte de Zópira foi bastante calma, assim que a lâmina penetrou a sua carne rósea, teve unicamente um último estrebucho, típico das mortes infligidas por armas brancas, e finou-se completamente, sem sangue, sem gritaria, um único estrebucho..., foi a última manifestação de Zópira, na passagem da vida para a morte, a morte calma, que em muito se deveu às mão experimentadas da porteira, que desde há bastante, aceita executar trabalhos deste género, como também abortos e afins.
 A minha porteira acabou por tirar a lâmina de dentro da minha irmã, e limpando-a ao avental, guardou-a na maleta, onde já estava a pedra de amolar, bem como outras facas; fechou o cadeado, guardou a chave do mesmo dentro da blusa, e esperou por novas instruções do meu pai. Este encolheu os ombros, a minha mãe, tal como eu previra, não dera por nada, eu fitava a biqueira das botas, de mãos atrás das costas, tentando disfarçar duas lágrimas teimosas, que insistiam em me embaciar os olhos, ouvi o meu pai perguntar:
- Quanto quer pelo serviço?
- Se o senhor não se importasse, e também o menino, eu ficava com o corpo para mim, como pagamento...
- Por mim, tudo bem, pode levá-lo.
 Depois de dizer isto, o meu pai olhou para mim, procurando sinais de concordância ou não, como se eu não dissesse nada, e como quem cala consente, assentiu finalmente à porteira, que levasse o cadáver. Esta agarrou-o, com as suas manápulas, cingindo-o pela cintura, em cima do seu ombro esquerdo, com a mão livre agarrou a maleta e saiu, com a ajuda do meu pai, que lhe abriu a porta. No limiar do patamar, ainda esboçou um último sorriso servil, fechando-lhe depois, nas costas, o meu pai a porta.
 Ambos bastante consternados, decidimos nos distrair, o meu progenitor voltou ao seu livro de gravuras e, eu, por minha vez, fui esborrachar as três sanguessugas, que ainda rabeavam no chão.



sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bleuzorras, o amola-tesoiras


 Há inúmeros séculos atrás, num longínquo e distante passado: eram as ruas de Carcamude palmilhadas por exímio e destro amola-tesoiras, artista de eleição, como a vila nunca tinha visto até então, desde os primórdios da sua existência. Quando levante fazia e a sua gaita se ouvia, as facas amoladas com mestria, se sabia que seriam; toda a gente se assomava à janela e, para rua onde o amola-tesoiras passasse, acorria.
 Era o nome do mancebo amolador: Bleuzorras, nome que até rima com tesouras, e que lhe tinha sido dado por seu avô Alfredo, ferreiro de mester e de quem certamente herdou a habilidade, de moldar o metal. Era também esta a sua única valia, neste por vezes injusto mundo, que seu pai nunca soube quem foi, e sua mãe ao o parir, assim falecera.
 Percorria, como já aqui se disse, Bleuzorras, por uma manhã de levante, as ruas de sua vila, quando viu chegar um mensageiro a cavalo, à praça do pelourinho, estacando no meio da mesma, desceu do cavalo e desenrolando um pergaminho, com solenidade, recitou à multidão que se ia ajuntando:
 - Venho assim informar, por meio de manifesto real, que a filha de sua Majestade El-Rei Dom Caricato, a princesa Patrícia, se encontra enfeitiçada. Vítima de infame bruxedo, encontra-se pois envolta em apertadíssima fita de cetim, que a impede de ter acção seja para o que for. Desta forma requer o reino, à vila de Carcamude, no caso de o ou os deter, o ou os respectivos heróis, que puder enviar em demanda da solução para a questão da princesa. Tenho dito. Com estas duas últimas palavras enrolou, o mensageiro o pergaminho, montou-se na cavalgadura e abalou desarvorado, em busca da próxima vila.
 Durante todo o tempo que durou a leitura do manifesto, esteve Bleuzorras na turba a escutar, bastante impressionado com o sucedido à princesa, levou a matutar no assunto durante o resto do dia. Quando principiou o anoitecer, e chegou a hora de tornar a casa para as sopas, enquanto jantava com seu avô, relatou-lhe tudo o que sucedera, bem como, da sua vontade de partir em auxílio da princesa. Com esta decisão, ficou com muita pena seu avô Alfredo, que conhecendo o génio do neto como conhecia, tinha por impossível desmobilizá-lo da sua ideia de abalar.
 No dia que se seguiu, antes do romper da alvorada, embrulhou numa grossa serapilheira Bleuzorras, todos os seus aprovisionamentos, e partiu a caminho do palácio real, demandando honra e glória. Tomou-lhe a jornada um dia e uma noite, sendo que na manhã seguinte, já cruzava os enormes portões da morada real. Deparou-se, depois de lá chegado, o mancebo com enorme arraial, todas as vilas e aldeias do reino tinham enviado, cada uma, o seu mais façanhudo e jactante herói: ferozes guerreiros de dois metros de altura, por um de largo, que exercitavam vigorosamente a musculatura, enquanto aguardavam por posteriores direcções do soberano.
 Passava do meio-dia quando EI-Rei Dom Caricato surgiu, na varanda real. Todos os heróis se alinharam, a fim de o escutar; o monarca começou por recitar o que já se sabia, ou seja, o conteúdo do manifesto que mandara ler por todas as praças do reino e, seguidamente, apelando por redobrada atenção dos heróis, deu pormenores vagos, de onde se encontrava a princesa: numa gruta, situada na mais alta montanha do reino, guardada por feroz quimera tomadora de vidas. Terminada a palestra, toda a gente reuniu as trouxas e o arsenal, abandonando o palácio com a bênção do rei.
 Ainda o grupo não tinha palmilhado uma légua, quando um feroz guerreiro reparou, que o cortejo bélico era seguido desde a morada real, por esquelético e franzino moço, ao que julgava ser um humilde escudeiro, interrogou assim António Valadares, herói de Outeiros do Inferno:
- Que é que vens fazendo atrás da gente, moço?
- Vou salvar a princesa – retorquiu Bleuzorras.
Comentário que despoletou imediatamente o riso, a bandeiras despregadas, entre o pelotão, que zombando e escarnecendo de tal forma de Bleuzorras, fez com que este, bastante magoado, tomasse diferente rumo para a montanha, onde encarcerada se encontrava a princesa.
 Cabisbaixo, vogando agora só, pela espessa poeira dos caminhos de terra batida, viu-se Bleuzorras, depois de andar quatro longas horas, debaixo de tartárea canícula, chegado ao sopé da montanha, onde a feroz quimera residia; sabia-o porque tentando desvendar o pico da montanha, a espessa neblina plúmbea não o permitia. Estoirado de tanto andar, decidiu procurar uma sombra onde, debaixo da qual, pudesse repousar por uns instantes. Afastando-se do caminho, embrenhou-se Bleuzorras, alguns metros mato adentro. Descoberto finalmente enorme pedregulho musgoso, a que se encostou, procurou o nosso herói, seu já murcho odre, quando discerniu, por entre o rumor silvestre: o do correr de água, erguendo-se mais uma vez, seguiu-o, abrindo dificultosamente caminho, por entre frondosos medronheiros e agudas estevas. Deparou-se afinal, com profundo e fresco pego de água cristalina, rodeado de luxuriantes fetos e avencas farfalhudas, onde se podia vislumbrar limpidamente: inúmeros bordalos e pequenas rãs verdes, calmamente bulindo no fundo.
 Aproximando-se mais um pouco, surpreendeu Bleuzorras dois escalavardos que, passivamente se refrescavam a beira do dito pego, para seu grande espanto, nenhuma das duas criaturas fugiu, ou sequer se mostrou assustada, permanecendo ambas, ao invés, estáticas, fitando-o. Sem qualquer acção por parte dos três, os escalavardos começaram por cantar os seguintes versos:
- Bleuzorras, Bleuzorras,
- Onde fores, não corras.
- Bleuzorras, Bleuzorras,
- Onde fores, não corras.
- Tem a quimera um leve sono,
- Que não está em teu abono,
- Toma tu as nossas peles macias,
- E cobre teus sapatos, vê se te avias!
 Tendo isto dito, mergulharam automaticamente os dois animais em profunda letargia, permitindo a Bleuzorras aproximar-se e, graças a uma grande navalha por que se fazia sempre acompanhar, esfolá-los e seguir viagem montanha acima.
 A meio da sua escalada decidiu, o nosso protagonista cobrir os sapatos, com as peles que antes obtivera: envolvendo-os muito bem, amarrou por fim as peles na zona dos artelhos, com pedaços de corda de juta, da que os heróis sempre se fazem acompanhar. Continuando a escalada, atingiu finalmente Bleuzorras a caverna da besta, onde esta dormia profundamente, em seu redor jaziam pedaços dos heróis que, anteriormente tinham zombado de Bleuzorras. Pé ante pé contornou, o moço a fera, e pôde vislumbrar, no centro duma gruta de quartzo, a princesa Patrícia: suspensa no ar, envolta de facto, em apertadíssima fita de cetim cor-de-rosa. Automaticamente posou Bleuzorras a sua trouxa, retirando do seu interior a pedra de esmeril e anavalha, fez o que de melhor sabia, amolando a mesma até à perfeição. Ensaiando a lâmina na unha do dedo polegar, deu por concluída a tarefa e preparou-se para resgatar a princesa. Cortada a fita, acto contínuo, a mesma caiu-lhe nos braços. Ainda dormente, Bleuzorras amarrou-a às suas costas, certificando-se que a princesa estava segura, e não sem antes furar os olhos da quimera com a navalha, deu início à jornada de regresso.
 Assim que transpôs os portões da morada real, foi o amolador recebido com enorme aparato, a princesa foi tomada pelas suas aias e conduzida aos seus aposentos, a fim de descansar da sua aventura extrema. Por sua vez, foi Bleuzorras presente ao monarca, que felicíssimo, ladeado por seus dois filhos varões, Dom Cláudio e Dom Délio, que há muito tinham sido encantados por bruxa maquiavélica, transformando-os esta em dois escalavardos, que acabaram por ser mortos por Bleuzorras, quebrando assim o terrível feitiço. Fez-se saber que o novel herói casaria, com a princesa, e governaria com ela um reino distante.
 Provou assim a toda a gente Bleuzorras, que a inteligência e a humildade, podem ter uma recompensa melhor, que a jactância e a imodéstia.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Maternidade


 Vítima dos fulgores e ecos da revolução, jaz morta no pestilento chão de uma fábrica em ruínas, uma mulher morta, grávida. Contudo o feto ainda sobrevive; quando escurece, abandona o ventre materno e amparado pela sombra, procura: restos, despojos e lixo. Há muito que as hienas e os cães vadios, repararam neste pequeno ser, rondam intermitentemente o cadáver de sua mãe, já lhe descarnando até os braços ou as pernas, bem como, partes da cabeça putrefacta. Apesar de tudo, o inchado ventre tépido ainda subsiste, resistente a todos os ataques e sevícias, de que já foi alvo.
Mereceu de facto esta mulher, a pena que lhe foi imputada?
 Será o sofrimento de alguém, merecedor da morte desta mulher?
 O seu crime foi prometer o amor a um homem, e entregar a vagina a outro.
 Correndo o risco de cair num lugar comum, posso alegar que são desconhecidas as razões do amor. Teria lá os seus motivos para fazer o que fez e, se o fez, foi porque sabia algo mais. Porém deveria ter esclarecido a sua situação, com o homem a quem prometeu desposar, antes de se entregar carnalmente a outro, como aconteceu.
 Seguiu o seu instinto, dirão uns, mas foi esta uma troca justa? Um momento de volúpia pela sua vida? E seu filho? Que espécie de existência esta mãe pouco previdente, lhe conferiu? Todas as noites, sair em busca de algumas sobras, para sossegar o pequeno estômago palpitante, e mesmo essas parcas, disputadas renhidamente com todos os animais e vadios dos arredores.
 O sonho do menino é ser engenheiro, ir todos os dias para a escola técnica de construção civil. Fantasia com delicados fatos de seda, camisas de cambraia. Neste preciso momento em que escrevo esta pequena nota, é de madrugada, gradualmente vai a lua cedendo lugar ao sol; está o menino a afastar os grandes lábios de sua mãe, para poder nascer ao contrário e descansar merecidamente.
 Na confortável matriz adormeceu, para além de todos os devaneios luxuosos, sonha agora também que recebe carinhos e afagos maternos, dolentemente estendido no regaço progenitor, enquanto a mãe lhe acaricia os imaculados caracóis. Todavia, o feto não chora.

Um conto de natal


 Certo domingo, quando tinha dezanove anos, e por volta das quatro horas da tarde, decidi ir tomar uma imperial à cervejaria Esperança. Aprumei-me: vestindo fato e gravata, escolhendo o melhor perfume e saí de casa. A atmosfera fulva convidava ao passeio, o sol brilhava triunfalmente, os passarinhos chilreavam e eu não tinha nada a perder. Chegado à porta da cervejaria, e lançando um olhar perscrutante, reparei que só estavam os habitués do costume: quatro velhos, que todas as tardes jogavam a sueca na mesa do fundo, tal ausência de mais freguesia, devia-se obviamente à hora que era, pois a cervejaria era substancialmente mais frequentada à hora de jantar; ainda assim decidi ficar, tomar pelo menos uma imperial. Foi justamente quando me ia aproximando do balcão, por detrás do qual o empregado enxugava os copos religiosamente, que reparei que encostado ao mesmo, se encontrava o Pai Natal, rodopiando com os dedos um copo meio vazio de imperial, que fitava sem despegar.
 Sentando-me no banco próximo do seu, fui eu quem encetou o diálogo:
- Então “sô” Nicolau, como vai isso, passou bem?
O Pai Natal ainda levou um momento, até reparar que falava com ele, talvez por se encontrar já algo alcoolizado, como se percebia pela sua exalação, e só depois me reconheceu:
- Oh Magalhães!, como vai você, meu caro. Está tudo bem?
- Menos-mal, menos-mal – respondi eu, esboçando uma expressão cordial e amistosa – Quando entrei, reparei que o senhor aqui estava, e decidi vir conversar um pouco, espero não estar a incomodar?
- Por quem é! Não incomoda de forma alguma, é pois para mim um prazer a sua companhia... Já pediu o que quer beber?
- Ainda não – e dirigindo-me ao empregado, pedi que me servisse uma imperial, e que tirasse outra para o Pai Natal.
Assim que tomei o primeiro gole, e enquanto descascava uma alcagoita, perguntei ao Pai Natal:
- Então “sô” Nicolau, como corre a vida?
Antes de me responder, o Pai Natal bebeu a restante imperial, que ainda tinha no copo, e só depois de começar a que eu lhe tinha pago, disse:
- Muito mal, muito mal… De facto, não corria assim tão mal desde a malograda época, em que os bolcheviques tomaram o poder na Rússia....
 Consciente do que esses conturbados tempos, tinham representado para o Pai Natal, encontrei nessa revelação motivos para me preocupar:
- Então diga-me cá, o que sucedeu assim de tão grave? - questionei eu, de semblante carregado, e partindo mais uma alcagoita.
- Olhe, meu caro Magalhães, uma série de coisas, uma série de coisas… se quer que lhe diga, nem sei onde isto principia e onde finda. Mas de uma coisa estou certo, esta foi uma das causadoras... – e mostrou-me uma muleta, que eu ao me sentar perto dele, não tinha reparado, pois estava do lado oposto ao meu:
- Não me diga que teve um acidente?
- Digo-lhe, digo-lhe! Vou ter de andar de muleta para o resto desta miserável vida, veja você!
- Quer dizer então, que foi coisa grave? - interroguei, bastante preocupado:
- Se foi! Nem queira saber, tudo aconteceu no ano passado, quando fazia a distribuição dos presentes: quando descia por certa chaminé, e chegado à lareira, fique sabendo que tropecei num toro de lenha que ali estava, e fui cair precisamente em cima do guarda-fogo, que por acaso, rematava em cima, com uns bicos em ferro, como se costuma ver nos gradeamentos dos jardins, espetaram-se esses bicos logo acima do meu joelho, obrigando-me à amputação de metade da perna. Extasiado com tal relato, mandei vir mais duas imperiais, e um pires de alcagoitas, sinceramente interessado no relato do Pai Natal, tornei:
- Então e como conseguiu o senhor, ir para o hospital? Conseguia ainda andar?
- De forma alguma, o que me valeu, foi que os donos da casa ouviram o estardalhaço e acorreram, a saber o que era, quando repararam que era eu e que estava ferido, prestaram-me os primeiros-socorros e transportaram-me imediatamente para o hospital da Divina Misericórdia.
- Foi lá que lhe amputaram a perna?
- Foi, e onde também me puseram esta prótese – levantando o Pai Natal uma das pernas das calças, para que eu pudesse ver.
- Imagino que ao princípio, tenha sido bastante difícil, caminhar com a prótese...
- E tem razão, foi bastante, mas por estranho que pareça, não foi isso o mais difícil, o mais difícil ainda está para vir, que será pagar a maldita prótese, puseram-me uma prótese de titânio, das mais modernas do mercado, com certeza viram que era o Pai Natal, e o Pai Natal não podia andar só com uma perna de pau, tinham que por esta merda em titânio!
- Então mas porque me diz que será difícil pagar, o senhor não estava segurado?
- Estar até estava, mas os facínoras da seguradora, consideraram a prótese de titânio um luxo, e não me quiseram pagar.
- Estou escandalizado com o que me conta! Não posso crer!
- E não é tudo...
- Quer dizer, que ainda há mais?
- Sim senhor, era para receber também dinheiro do olho que tenho vazado, e por causa dessa encrenca com a seguradora, não o recebi. Pasmado por completo, bebi mais um gole de imperial, da qual até me tinha esquecido, fascinado com tal relato de horror, e questionei o Pai Natal acerca do olho:
- Olhe… o que quer que lhe diga, foi também um acidente de trabalho: bastou uma cornada de uma rena, para me fazer isto, num momento de distracção...
- Ás vezes, só isso basta....
O Pai Natal pediu mais duas imperiais ao empregado, que com atenção e enlevo, também escutava a macabra história. Saboreando um gole, pousou o copo, e apontou-me o olho esquerdo, o olho de vidro:
- O olho de vidro, que também tive que comprar às minhas expensas, que os bandidos nem um centavo me deram!
Terminei a imperial que bebia, e comecei a que o Pai Natal me oferecera, tentei me lembrar de algo que o pudesse animar, visto que tanto azar junto era obra, achei que lhe devia perguntar pela mulher:
- Calculo que o apoio da dona Nicole, nessas alturas, em que teve os acidentes, tenha sido bastante importante para si?
Malquista hora em que lhe fui falar da mulher, pois o Pai Natal, roxo de raiva, socou vigorosamente o balcão e bradou:
- Nem me fale nessa fulana, que me dá umas iras, que quase atinjo a síncope!!!
 Receando isso mesmo, tentei acalmá-lo, porém sem sucesso, pois cada vez barafustava mais, esbracejante:
- Você sabe, caro Magalhães, que essa fulana me pôs um processo em tribunal, por alegada violência doméstica. Isto só a mim! Eu, que nunca lhe toquei num fio de cabelo, nunca comi na sala, não deixava nada espalhado pela casa, descarregava sempre o autoclismo, quando dava um jogo de futebol na televisão, não podia ver, que a madame não podia perder o episódio da telenovela, andava a mando de vossa senhoria, para no fim de contas me fazer uma patifaria destas, veja você!
- Não quero crer!?
- Pois creia, que é a verdade.
- Então mas e qual foi a causa de tal processo?
- Sabe qual foi? Foi o ver-me na miséria e querer me abandonar, e com isso ainda ganhar alguns tostões, mas nesse aspecto teve azar, porque eu não tenho um chavo.
- Mas que golpe baixo, que harpia é a sua mulher...
- Diz bem, eu próprio não encontraria melhor termo, que harpia… olhe, por acaso o julgamento é daqui a dois dias.
- Se precisar de uma testemunha abonatória, não hesite em me contactar, que vou imediatamente ao tribunal interceder em seu favor.
- Terei em conta a sua oferta, muito agradecido lhe fico. - rematando com um vigoroso trago de imperial.
 Por minha vez, também acabei de tomar a minha, e mandou imediatamente o Pai Natal o empregado tirar mais duas, o que este fez imediatamente e com muito aprumo, na intenção de que ali nos mantivéssemos, e se soubesse o epílogo de tal tragédia natalícia:
- Olhe, amigo Magalhães, muito tenho eu passado e sofrido nestes últimos tempos, e se pensa que já sabe de todas as minhas desgraças, eu digo-lhe que não, pois também perdi a minha oficina.
- Ai sim? Então como sucedeu isso?
- Mais uma vez graças à penúria em que me encontro, pois como deve imaginar, impossibilitado que estou de trabalhar, como é obvio, não tenho fonte de rendimentos, logo não pude manter os ordenados dos meus funcionários em dia, os malditos, sem a mínima consideração por mim, transformaram a oficina numa cooperativa.
- Realmente! É como se costuma dizer, que um mal nunca vem só!
- Tem toda a razão, esse ditado aplica-se na perfeição, à situação em que me encontro.
 Perguntando as horas ao empregado, o Pai Natal decidiu que já era altura de parar de beber, trocamos um amistoso shake-hands, e ele passou à difícil tarefa, que era sair do banco, endireitar-se e caminhar com a muleta. Para despedida ainda lhe disse:
- “Sô” Nicolau, sabe que tem aqui um amigo para o que der e vier, e recorde-se que não há mal que nunca acabe e bem que sempre dure, o senhor lembra-se aquando lá da confusão com os bolcheviques? Nessa altura o senhor também passou por tempos conturbados, bastou esperar uns anos, até que surgiu o contracto com aquela famosa marca de refrigerantes à base de noz de cola, e tudo melhorou na sua vida, vai ver que está só a atravessar mais um momento negativo, e que tudo se recomporá.
- Muito obrigado Magalhães, obrigado pelo ânimo que me está a dar, fico lhe muito agradecido, e digo-lhe mais, é nestas alturas que se conhecem os verdadeiros amigos!
- Ora, ora…
- Agora tenho de ir, e não se esqueça, daqui a dois dias, no tribunal.
- Com certeza, lá estarei. E já agora, onde é que o posso encontrar?
- Eu estou ali no albergue da Trindade.
- Com certeza, procurar-lhe-ei lá.
 O Pai Natal partiu, e eu fiquei a acabar a minha imperial, devia de estar muito enganado, se pensava que eu ia realmente ao albergue, antro de tuberculosos e piolhos, quanto aos processos que tem em cima, que o esfolem, que a mim nem me aquece nem me arrefece, se queria a minha ajuda, tivesse pensado nisso antes, quando no natal me levava somente peúgas, truces e blusas de malha.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O conto do João Cegonha


 Era uma vez um casal que vivia no campo, isolados de tudo e de todos, estavam ambos: marido e mulher, na casa dos trinta anos; e Custódia, que assim se chamava a mulher de João Cegonha, que assim se chamava o marido de Custodia, não havia meio de emprenhar. Certo dia, João Cegonha tomou uma decisão, que se acabou por revelar a mais frutífera e acertada: foi esta, a de ir com Custódia, em busca do parecer do virtuoso mais próximo, do lugar onde viviam, a respeito da doença ou moléstia de sua mulher. Aparelhado o carro-de-mula, acabaram por partir, porém, sem não se proverem antes de abundante farnel e um garrafão de vinho tinto, suficiente para os dois dias de jornada, e duas galinhas, para pagar ao virtuoso a consulta sobre a maleita de Custódia.
 Passados os dois dias de viagem sem percalços de maior, o casal chegou a casa do tão ambicionado virtuoso, (que por acaso estava a meio das consultas da manhã) desceram os dois do carro, e João Cegonha soltou a mula, que por ali ficou, pascendo a fresca erva primaveril; o casal aproveitou a espera para, também eles, matarem a fome: um copo de vinho cada um e o respectivo entalado de chouriça comeram.
 Quando chegou, por fim, a vez de Custódia ser observada pelo virtuoso, dormitava João Cegonha encostado à roda do carro, remoendo uma palhinha, enquanto ela conversava com a dona da casa, que por baixo do alpendre, estava escolhendo o grão do restolho; aproveitou também esta, durante o diálogo, para aconselhar a Custódia urnas mezinhas muito boas, que ela conhecia para o mal, de que talvez ela padecesse, embora frisando sempre o facto, de que o marido é que sabia o que ela haveria de fazer.
 Lá acabaram por entrar os dois para dentro de casa, João Cegonha agarrando as duas galinhas pelas asas e Custódia, que se foi sentar frente ao virtuoso. Estando este à mesa da casa de fora, que era mesmo ali que ministrava as consultas aos seus pacientes; perguntou ao que vinham, explicou tudo Custódia, e enquanto que o virtuoso ouvia, analisava também os factos, tentando encontrar a explicação para o problema e, se cura tivesse, pois também a mesma! Depois de muito remoer a massa cinzenta, chegou o virtuoso à conclusão de que o que Custódia tinha, era nem mais nem menos, que a madre seca, ao ouvir isto, soltou de imediato João Cegonha um suspiro, lamentando as duas galinhas que tinha trazido, para ouvir uma notícia tão má; ainda assim, o virtuoso disse que havia solução, nem sempre resultava, mas que conhecia uma possível cura. Pois explicou ao casal o que Custódia havia de fazer, que era senão quando tivesse oportunidade, ir à capela ou ermida mais próxima de onde moravam, lavar o ventre com água-benta e que à noite, a seguir à troca de humores entre o casal, se mantivesse imóvel Custódia durante meia-morta, rezando uma certa oração que ele lhe iria ensinar. Acabada por fim a consulta, e ensinada a oração, depositou João Cegonha as galinhas à porta do virtuoso, para a mulher deste as matar e depenar. Agradeceram ambos a consulta e a suposta cura, indo-se preparar para o longo regresso a casa. Já no exterior, e dando algumas mostras de contentamento, João Cegonha foi buscar a mula e tornou a aparelhar o carro, subindo ambos para os seus lugares, lá abalaram direitos ao seu monte, com a esperança de que a receita dada pelo virtuoso resultasse.
 Passados mais dois dias de caminho na volta, chegou o casal a casa. Já muito tarde para ir praticar o que o virtuoso aconselhara, jantaram e foram descansar da viagem, para que no dia seguinte estivessem refeitos, e prontos para encetar a cura de Custódia. E assim foi, no dia seguinte, depois de comerem o mata-bicho, partiram de novo no carro de mula rumo à ermida, que ficava mais próxima de casa, distando esta, mais ou menos, dois quilómetros. Em redor da capela, quando desta já se afiguravam alguns remates, não se via vivalma, só mais perto discerniram com clareza, a figura do presbítero, que por ali andava a regar umas ervas aromáticas; e certo de que o sacerdote não permitiria que Custódia esfregasse o ventre com a água-benta, por considerar o clero, os conselhos dos virtuosos, meras práticas pagãs, pôs-se então João Cegonha a matutar num esquema para ludibriar o sacerdote... Chegando por fim, depois de pensar uns minutos, à conclusão que simularia uma venda de vinho, empataria o ancião, enquanto Custódia, com a desculpa de que já que ali estava na ermida, iria orar, entrava, e rapidamente friccionava o ventre com a tão ansiada e necessária água-benta. Com efeito, tudo assim decorreu como atrás descrito, lá ficou João Cegonha empatando o ancião, enquanto que Custódia, de terço na mão, foi entrando na ermida. Assim que se viu no interior desta, procurou avidamente a pia da água-benta, contudo reparando que, ao se abeirar daquela, a mesma estava completamente vazia; desesperada, mas porém não derrotada, deu asas ao engenho, e seguindo o raciocínio de que todos os líquidos que estivessem em solo sagrado, seriam bentos e provocariam os mesmos efeitos que a água, correu lesta Custódia para a sacristia, com o intuito de esfregar o ventre com o vinho da missa; e em boa hora o fez, pois o havia com certeza com maior abundância, que água. Encontrada a pequena pipa onde o presbítero mantinha o vinho, despejou a mulher um pouco para dentro de uma púcara de barro, e esfregando muito bem e depressa o ventre, saiu rapidamente da sacristia, com receio de que caso fosse descoberta, levasse alguma reprimenda do padre; que durante todo o ritual de Custódia, se manteve em alegre cavaqueira com João Cegonha no exterior, sem desconfiar absolutamente de nada do que se passava no interior do seu templo. Saiu enfim, calma e tranquila, refeita da azáfama em que andara, em busca de líquido bento, Custódia da ermida, e assim que reparou nela o marido, foi buscar a mula e, aparelhando-a, despediu-se o casal do sacerdote, subindo para o carro e abalando. Quis logo saber João Cegonha como tinha decorrido todo o processo, e contou-lho pormenorizadamente a esposa, e que também em vez de água-benta, se tinha esfregado com vinho bento, pois não encontrara sequer vestígios da primeira, em toda a ermida; não viu nesta acção João Cegonha mal nenhum, pois não tinha conhecimento de que alguma vez no mundo, uma coisa que fosse benta, tivesse feito mal a alguém.
 Acabou o dia, e chegou a noite, deitou-se o casal, e já com o ventre de Custódia benzido, seguiram as restantes indicações do virtuoso para curar o mal da padecente, trocaram ambos os seus humores, e voltando-se no fim João Cegonha para o seu lado, para dormir, ficou imóvel e a rezar Custódia, a dizer as orações recomendadas pelo virtuoso. Amanheceu novo dia, e voltou o casal ao rotineiro quotidiano de trabalho na horta; e como este se seguiram muitos, praticando todas as noites o casal, o mesmo ritual, até que se perfez um total de trinta dias, e foi senão quando, Custódia começou a desconfiar, finalmente, que estaria prenhe e o comunicou a João Cegonha. Proibiu-a desde logo o marido, de fazer qualquer trabalho pesado, limitando-se assim Custódia simplesmente ao governo da casa, a tratar da criação e pouco mais.
 Estavam as suspeitas da mulher em relação à sua prenhez acertadas, pois com o decorrer dos meses, seu ventre foi incessantemente aumentando de tamanho, como também a alegria de João Cegonha, até perfazer, mais dia, menos dia, um total de nove meses. Quando por fim chegou o dia do parto, foi muito apressadamente João Cegonha, em busca da parteira da aldeia mais próxima, e logo que foi encontrada a mesma, retornaram imediatamente ao monte do João Cegonha, onde a parturiente estava estendida na cama, esperando por auxílio. Mandou a parteira que João Cegonha fosse imediatamente aquecer água, o que este fez, com os joelhos a tremer, desde logo. Entregue a água quente à parteira, esperou João Cegonha por novos desenvolvimentos, às voltas pela casa de fora, ouvindo ora os gritos da mulher, ora as palavras de encorajamento da parteira. Só sossegou realmente, quando escutou um enorme vagido, que lhe pareceu ser dum bebé, alegrou-se bastante João Cegonha, nascendo-lhe um enorme sorriso no rosto, e a óbvia vontade de ver a sua tão desejada descendência. Aproximou-se da porta do quarto perguntando se podia entrar, o que a parteira consentiu, desde que muito devagar, quer para não acordar a mãe, que descansava do esforço, quer para não fazer o recém-nascido chorar. Penetrando pé ante pé, João Cegonha no quarto, perguntou imediatamente à parteira, se era menino ou menina, ao que esta, destapando a cabecinha da bebé, respondeu que era uma linda menina, e foi senão quando, totalmente mortificado de incompreensão e estupor, que João Cegonha reparou que a bebé tinha uma cabeça de porco! Aproximando-se mais, e destapando o resto do corpo, constatou que não era urna criança com cabeça de porco, mas um porco de facto, e que o mais estranho de tudo, era que a parteira não demonstrava o mais leve sinal de espanto ou dúvida!, tratando a pequena bácora, como se fosse realmente uma criança; deduziu João Cegonha que poderia ser tudo uma alucinação, causada pelos nervos que sentira durante o tempo do parto, e decidiu sair de casa, para apanhar ar fresco, e lavar o rosto com água fria, podendo assim ser que a porca, que sua mulher parira, desaparecesse e se transformasse na criança que deveria ser. Saiu no mesmo instante do quarto, dirigindo-se para o exterior, onde o manto nocturno já encetava a sua tarefa de tudo cobrir, respirou fundo João Cegonha uma grande golfada de ar e encheu a bacia de água, com a qual lavou o rosto suado. Substancialmente mais calmo, e certo de que tudo não passava de um equívoco, João Cegonha voltou a entrar em casa, e ainda que com algum receio de encontrar um porco, ou melhor, porca, nos braços de sua mulher, penetrou no quarto de ambos, e foi então que totalmente derrotado de espanto, voltou a encontrar uma vez mais a porca, mas desta feita já passara dos braços da parteira, para os de Custódia, que agora a embalava maternalmente, como se de um recém-nascido humano, realmente se tratasse:
- Não vês que isso e um porco, Custódia! - exclamou João Cegonha.
- Vejo João, mas é a nossa filha, saiu do meu ventre! - retorquiu a mulher.
Sentindo-se impotente perante tal reacção, João Cegonha limitou-se a pagar à parteira, e ir arranjar qualquer coisa de comer.

 Desde o nascimento de Brites, assim se baptizou a filha de João Cegonha, a vida do casal não conheceu nenhuma outra tão grande revolução, e até já tinham descoberto o motivo, pelo qual tinha Brites nascido com forma de porca: pois esfregou Custodia o ventre com vinho e não com água, como tinha ordenado o virtuoso, nascendo assim um suíno, em lugar de um humano. Contudo, João Cegonha, foi aos poucos, com o passar dos anos, aceitando uma filha tão estranha, e até mesmo aprendendo a gostar dela, chegando a ter por ela a afeição, que se tem por um filho humano.
 Continuou a vida da família calma e sem sobressaltos, ate ao dia em que Brites completou dezasseis anos, a mãe costurou-lhe um vestido de chita purpúrea, que estreou no dia de anos e, o pai, ofereceu-lhe uns brincos e uma pulseira de oiro, ficando muito feliz com as ofertas a bácora; porém, e como a vida no campo é dura, mesmo no dia de aniversário da filha, teve que partir João Cegonha para a horta, deixando mãe e filha em casa, desconhecendo que a Sorte, arquitectava mais uma peripécia, na sua já atribulada vida...
 Aconteceu que, à volta para o almoço, encontrou João Cegonha, Custódia sentada à porta de casa, chorando e em grande estado de nervos, interrogou-lhe imediatamente sobre o que tinha acontecido, respondendo sua mulher que Brites, tinha sido levada por um homem a cavalo, com aspecto de ser um mensageiro real, ficou atónito João Cegonha e disse a sua mulher que lhe preparasse imediatamente um farnel, que ele iria à procura da filha de ambos. Dirigindo-se à manjedoura, albardou a mula, montou-se, e passando pela porta de casa, guardou o farnel e partiu.

 Andou João Cegonha dias e noites intermináveis, na senda da sua desaparecida filha, sem qualquer tipo de orientação ou pista, que o levasse em rumo correcto, até ao dia, em que passando por determinado lugarejo, se deparou com um homem que continuamente entrava e saia de dentro de casa, com um grande balde vazio. Apeando-se da mula, dirigiu-se ao mesmo, com o intuito de obter algumas informações, mas antes de mais nada, e vendo-o em tão grande azáfama, saudou-o e perguntou-lhe o que fazia, retorquiu-lhe o homem que não via nada em casa, e que tentava levar luz dentro do balde para o seu interior, mas que quando lá chegava, esta se desvanecia na treva. Sorriu João Cegonha, e subiu ao telhado da casa do homem, onde abriu, por entre o colmo, uma clarabóia, que assim deixou passar a claridade para o interior da casa. Ficando-lhe muito grato o sujeito, deu como paga a João Cegonha um balde de pez, que tinha sobrado da instalação do telhado, e antes ainda de partir, perguntou-lhe se tinha por ali passado um cavaleiro, com um porco a cavalo, ao que o homem respondeu afirmativamente, tinha passado, sensivelmente, havia dois ou três dias, seguindo pela estrada real, agradeceu João Cegonha pela informação e partiu novamente na senda de sua filha. Ao cabo de umas horas, e já anoitecendo, encontrou João Cegonha uma rapariguinha que chorava, perto de um poço, comovendo-se com tal situação, apeou-se mais uma vez, e aproximou-se da jovem, com o intuito de a consolar, rogou-lhe que não chorasse mais, questionando-lhe acerca da causa de tal tristeza, ao que respondeu a rapariga, que tentava tirar água do poço, porém sempre sem sucesso, achou tudo isto muito estranho João Cegonha, até reparar que a rapariga tentava tirar a água, com um cesto, escorrendo inevitavelmente todo o líquido, durante a subida até à superfície. Reflectindo por uns momentos, encontrou João Cegonha a solução: vedar o cesto com o pez que trazia, e assim conseguiria tirar a água do poço, com efeito, derreteu uma porção de pez, vedou o cesto completamente e, com este já seco, jogou-o ao poço, puxando-o para cima, conseguiu obter a tão almejada, pela jovem, água. Era a rapariga que João Cegonha ajudara, a filha do ferreiro de uma aldeia das redondezas, convidando-a esta, logo de imediato, para que pernoitasse em sua casa, e João Cegonha reparando que a noite estava próxima, aceitou sem hesitar o convite; subiram ambos, com o cesto cheio de água para as ancas da mula, e lá abalaram.
 Conversou, comeu, bebeu e dormiu João Cegonha em casa do ferreiro, até que no dia seguinte, e ainda antes de partir, como paga por ter auxiliado sua filha, presenteou-lhe este com uma marreta de aço; muito agradecido ficou João Cegonha e, com uma merenda que a pequena lhe preparara, fez-se à estrada. Seguiu, como vinha fazendo desde que se cruzara com o homem, que tentava levar luz para dentro de casa com um balde, pela estrada real, trotando calmamente, até que sensivelmente a meio da manhã, parou para merendar, procurou uma moita frondosa, onde se abrigar do sol, sentou-se e comeu, ficando ainda por ali uns minutos, a descansar, até se fazer de novo à estrada. Quando tornou a partir, partiu decidido a só parar quando chegasse ao castelo do rei; e assim foi, só se apeou da mula, quando estava já na imediação do castelo, e encontrou um indivíduo, provavelmente na casa dos trinta, a tentar derrubar uma parede de taipa com ovos, achou castiça esta situação João Cegonha, e já que trazia consigo uma marreta novinha em folha, predispôs-se a ajudar o tipo. Desceu da mula, desamarrou a marreta da albarda, e encaminhou-se para o fulano, lá chegado, sugeriu-lhe que utilizasse a marreta, na execução da sua árdua tarefa, o que a homem fez de bom grado. À terceira marretada, a parede cessou, e João Cegonha aproveitou para lhe perguntar se, por acaso, não reparara se por ali, passara um homem a cavalo, com uma porca .... O trabalhador pensou durante um momento, até que por fim, se lembrou de ter visto um indivíduo, com uma porca, a entrar nas cozinhas do castelo. João Cegonha pensou imediatamente o pior, pelo que se lançou de imediato em corrida, na direcção das cozinhas e, assim que transpôs a porta das mesmas, deparou-se imediatamente com o vestido novo de sua filha, prostrado em cima de uma mesa. Como um louco furioso, encetou uma frenética busca por todos os fornos, só sossegando, completamente estarrecido de terror e pânico, quando encontrou o cadáver de sua filha, ainda com a pulseira e com os brincos, que tinha recebido no dia de anos, totalmente tostado. João Cegonha não conseguiu encetar mais nenhuma acção, que não a de se prostrar no chão e chorar, lamentando sua filha com corpo de porca, a sua pobre Brites, de quem ele aprendera a gostar e a amar, como uma criança, uma verdadeira criança, que se mima, que se pega ao colo, que se consola durante um chora, uma filha tão desejada, talvez a mais desejada... agora, morta, assada....
 João Cegonha, reunindo o último resquício de força que lhe restava, levantou-se e procurou umas serapilheiras, enrolou o corpo de sua filha e saiu da cozinha, procurou sua mula com o olhar, e encaminhou-se para ela, colocou a cadáver de Brites em cima da mesma, subiu também ele para cima dela, e fez-se à estrada, ia voltar para casa e enterrar condignamente sua filha.

Nota: este conto, faz parte da tradição oral Portuguesa, foi-me transmitido aos treze anos, mais coisa menos coisa, por uma idosa minha vizinha, limitando-me eu, apenas a conferir-lhe alguns ornatos.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Western Versal


 Era uma vez um xadrezista detentor de muitos yuans, na sua zoteca, borregava alteroso, clíticos provocadores de dispneia. Suas ênclises eram fuscinas afiadas, qual gnómones, porém, era ignaro quanto à sua heautognose (tinha somente bem presente, a dor jecoral, como o kamikaze lustral). Neófito na monobafia, passeava na orela de sua propriedade, proluxo. Em todos os quinquídios, recebia um rapsodo santiaguês no tratuário, que chegava de verrimoso úbere, para medir os webers, esse xenartro yvoniano, que no zénite, podia assacar com braquigrafias, tocando corneta-acústica. Muito esurino, este dislate provocava fornicoques garganeiros, ou ilações jazzísticas, ao lídimo kafkiano, que surgia obstúpido no macaréu, carregando purgueiras de quermesse, recendendo a sinecuras.
 Estes três, provocaram um uzífur num tetraplégico, que declamava versaletes do cimo de uma wellingtónia, onde estudava o yin, acomodado numa xalma. Tinham os zigomas sabendo a amarugem de bonsai coruscante, graças ao egrégio desenrascanço e frémito, da gárgula transportadora do infundíbulo hissope. Todos de jaleco kitsch, pendurados nos lucanários, defendiam o monismo, como sendo o nadir de todos os ópidos, enquanto um poetastro de quipá, roncão sedentário, emitia transfronteiriço ulular; pois que perdera seu vade-mécum, sobre workshops de arte xávega yang. De zuate no arção, afectou-lhe uma blefaroplegia conatural, não podendo fazer a docimasia escoriácea (abandonou o fornício de vez).
 Quando os hovas chegaram, de gobô carregados, imparam até jazerem no kökkenmödding, rodeado por pomares de lambe-lhe-os-dedos (isto, graças à monoblepsia). Nimbados de obsidianas e pampilhos, durante um quatríduo, cheios de ronchas na zona sedal, talingaram um uade com vaginhas e, enquanto adeptos do wiclefismo, viram-se na obrigação de xicarar o aspermo yeti, de calças de zuarte e borzeguins.
 Este cebolório foi exposto na Duma, repleta de esmegma, onde o yeti, inflado de fidúcia, e munido do seu glossocátoco, se afligia com uma hemicrania, que o imame, adepto do kantismo, joeirou. Lindeiro aos dois, voava um muchão, padecente de obfirmado nidor pruriginoso, que só a quiroprática e um retículo, no sub-bosque, durante a titónia, e perto de um vetusto udómetro wagneriano, um xógum conseguiu resolver.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Cangalheiro da Dinamarca


 O que outrora fora o cavaleiro da Dinamarca, e viveu as peripécias mundialmente conhecidas: por terras da Palestina, Itália e Flandres; como se sabe, chegou a casa no dia de Natal, graças à ajuda que os anjinhos lhe proporcionaram ao, candidamente, iluminarem o grande abeto fronteiro à sua moradia. Tomou-se ele mesmo, e graças a uma importante revelação nocturna, que o menino Jesus lhe fez, num rico e próspero negociante (em parte também, devido à convivência com o mercador e o banqueiro, em casa de quem ficou hospedado, durante o seu périplo peregrino).
 Disse-lhe o menino Jesus que abatesse o abeto, e partindo da rica madeira que dele obtivesse, construísse caixões e vendesse à população.
 Religioso e temente a deus nosso senhor como era, o Cavaleiro não hesitou, e na manhã seguinte, com o precioso e indispensável auxílio de sua prol, convenientemente munida de aguçados e robustos machados, deitaram abaixo a árvore, que tanto tinha ajudado o Cavaleiro, aquando da sua desorientação no meio da floresta hostil, seviciado pelo cortante gelo invernoso, que o seu, apesar de tudo, grosso capote de peles, não impedia, e atacado por ferozes bestas sedentas de sangue.
 Já detendo os indispensáveis utensílios de carpintaria, que nestas casas de campo sempre os há, para as quotidianas tarefas: da mais corriqueira reparação, ate à laboriosa e intrincada construção de, por exemplo: uma resistente edificação onde abrigar o feno, da chuva e da neve, que na Dinamarca se sabem abundantes no inverno, para a posterior ingestão do gado ovino e bovino.
 Fez o Cavaleiro, agora Cangalheiro, muita fortuna com a negociata dos caixões e posterior organização de funerais, que foi ate aí que o seu negócio se estendeu. Fazia caixões em variadas madeiras, de tudo quanto encontrava nas suas terras, a título de exemplo: tílias, carvalhos, fortes e rijos, pinheiros bravos, enfim, um manancial de tipos de madeira. Para seu benefício, aconteceu que um de seus filhos, de seu nome Edmund, era mestre no que dizia respeito a xilogravura, e ornava lindamente todos os caixões dos velhos burgueses, que antes de morrerem tinham dinheiro para lhe pagar bem. Apesar de tudo, esta vida não era a que mais agradava ao ex-Cavaleiro, amofinando-se com frequência, na rotineira tarefa de cortar árvores. Fazia-o porque o menino Jesus lho tinha dito, nada mais. Diga-se também de passagem, que o Cangalheiro da Dinamarca, até nem era pessoa muito materialista, não dando importância demasiada, ao capital que auferia.
 Sabendo da depressão em que o Cangalheiro da Dinamarca se encontrava, nossa senhora de Fátima, (que como a pescada, antes de o ser, já o era, só ainda não tinha aparecido aos três pastorinhos…) apareceu ao Cangalheiro da Dinamarca em sonhos dizendo-lhe assim, nestes exactos termos:
 - Cangalheiro da Dinamarca, meu bom filho, vai em peregrinação a Portugal, terra de onde provem os heróis cujas façanhas ouviste contar na Flandres, e por lá espalha a doutrina da fé.
 Na manhã subsequente ao sonho, o Cangalheiro da Dinamarca, à mesa do pequeno-almoço, anunciou assim à família:
 - De hoje a um ano, não estarei aqui reunido com vocês, a me alimentar em comunhão, pois que parto para Portugal, terra onde a nossa senhora, que virá a ser de Fátima, me mandou ir pregar, como São João Baptista, um dia no deserto, e não sei se volto.
 Sua mulher e filhinhos, bem como os servos, choraram logo ali lágrimas de espesso sangue, e Edmund foi para a oficina, onde se suicidou com um formão, tanchado nos peitos.
 Não querendo saber destas súplicas, o Cangalheiro da Dinamarca arreou a sua besta cavalar, e deu início a mais uma longa jornada, como era seu apanágio. Só parava para dormir e dar cevada ao cavalo. Levou seis meses de viagem, que correu sem percalços dignos de nota.
 Chegado finalmente a Portugal, espantou-se muito o Cangalheiro da Dinamarca com a falta de asseio e educação destas gentes, que escarravam para o chão, e cujas ruas eram uma imundície autêntica. O Cangalheiro da Dinamarca viu como nossa senhora, que estava para ser de Fátima, uns séculos mais tarde, tinha razão, no que dizia respeito a evangelizar estes gentios.
 Debateu-se logo com um gordo frade, em Serpa, terra que conheceu ao cruzar a fronteira, de seu nome Ladislau Breyner, este homem comia muitos doces conventuais, arrotava e peidava-se constantemente, sem cessar, até vomitar. Tentou em vão, o Cangalheiro da Dinamarca educar esta alimária, mas falhou. Entre peidos e arrotos, este falou-lhe de uma linda terra que era Lagos, no Algarve, um bocadinho mais abaixo do Alentejo, de onde partiam as caravelas das expedições Portuguesas ultramarinas. Ora o Cangalheiro interessava-se muito por isto, e não apreciando de todo a convivência com o frade.
 Chegado a Lagos, admirou muito: as praias, o sol e o marisco; as pessoas continuavam a ser pouco higiénicas como no Alentejo, mas esse até era um mal menor. Decidiu o Cangalheiro da Dinamarca começar a sua pregação de bons-costumes, exactamente em Lagos; o clima ameno, e aprazível, foi um factor determinante nesta muito ponderada decisão.
 Hospedou-se em casa da Dona Aninhas, mulher solteira e muito beata, que vendo assim um homem alto e loiro, lhe disse que não precisava de pagar renda, desde que fosse bom cristão e não provocasse desordem. O Cangalheiro e a Dona Aninhas, forjaram logo ali uma amizade que ia durar décadas.
 A Dona Aninhas, apesar da sua inquestionável seriedade, e inquestionável idoneidade, fazia tudo para agradar ao Cangalheiro da Dinamarca, fazia-lhe bons petiscos, que o via comer com garbo e regalo, entre eles: papas com condelipas etc...
 Certo dia, a Dona Aninhas interessou-se por conhecer o nome do Cangalheiro da Dinamarca, e disse-lhe assim:
 - Qual é a graça de vossa excelência?
O Cangalheiro, que já arranhava um bocadinho o Português, respondeu:
 - Lars Vintenberg, minha senhora...
 - Ah, muito bem, tem um lindo nome, está visto...
 Com esta constante e insana convivência entre as gentes de Portugal, o Cangalheiro da Dinamarca, acabou por perder o juízo, começando por vaguear, de olhar vago, pelas ruas de Lagos, clamando que o fim estava próximo, e que se daria o apocalipse num riscar dum fósforo, assim do pé para mão. Ora o padre Correia, não gostou nada disto, e começou a pregar contra o Cangalheiro da Dinamarca. Quando passava na rua, era achincalhado e enxovalhado sem perdão, como um cão. E eis que Lars Vintenberg criou asas e se elevou nos céus, os seus olhos, chispando centelhas ardentes, começaram a abrasar os Lacobrigenses, loucos de dor e fúria, muniram-se de paus e pedras, começando a atacar o Cangalheiro da Dinamarca, que nos céus urrava como um bode expiatório, antes do dia da matança pública. Em voos quaise rasantes, colhia habitantes como quem come ginjas, umas atrás das outras, sem cessar, nem chorar.
 Amava a deus como toda a gente, e não percebia porque era maltratado assim. Era um dó de alma.
 Acabou no céu, anichado junto do menino Jesus e de nossa senhora de Fátima; também lá estavam o boi Bento e a mula amaldiçoada.